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(Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)

Feira da Marreta: patrimônio não oficial que resiste à margem da região Central de Goiânia

Comércio é realizado aos domingos, no Setor Nova Vila

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05.12.2025 - 14:44:17

Carolina Pessoni

Goiânia – Uma mesa abarrotada de ferramentas antigas divide espaço com rádios sem antena, roupas de brechó, peças de bicicletas, controles remotos, carregadores, panelas, discos, quinquilharias de todas as épocas. À primeira vista, a Feira da Marreta parece um caleidoscópio de objetos improváveis. Nada está ali por acaso, embora tudo pareça fruto da casualidade. Trata-se de um mercado que desafia a lógica convencional, mas que segue uma lógica própria, moldada pelas mãos e histórias de quem o sustenta.

É o caso de Adriana Brito, que aprendeu o ofício com os pais, feirantes há mais de 20 anos. “Meus pais vendiam ferramentas aqui. Depois que meu pai faleceu, continuei trabalhando e, há uns três, quatro anos, passei a vender chinelos. Vi que era um produto que quase não tinha aqui e comecei a trazer. Hoje, vivo só da feira; todo domingo estou no meu pontinho”, conta.

Para a pesquisadora Mana Marques, que dedicou sua tese de doutorado à Feira da Marreta, esse universo é menos caótico do que se imagina. Sua pesquisa, uma das poucas já feitas sobre o tema, revela que a feira opera como um circuito de troca e circulação de objetos descartados, que ressurgem ali com novos significados.

(Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)

“Há um emaranhado de objetos que foram descartados e voltam para o circuito das trocas. Eles compõem uma economia que não se baseia apenas em produto e preço, mas em valor simbólico, criatividade e sobrevivência”, explica.

A história da Feira da Marreta está entrelaçada com a própria história da construção de Goiânia. Mana explica que muitas das primeiras trocas aconteceram entre os trabalhadores, em sua maioria nordestinos, que ergueram a nova capital na década de 1930. Eles trocavam ferramentas entre si para continuar trabalhando, prática que teria originado o nome “marreta”, associado a esse universo de utensílios pesados da construção civil.

Esse tipo de feira não é fenômeno exclusivo de Goiânia. Mana lembra que, no Brasil todo, existem as chamadas “Feiras do Rolo”, espaços de comercialização e troca de objetos usados, quase sempre marcados por práticas espontâneas, com raízes no antigo escambo. A Feira da Marreta se insere exatamente nessa tradição nacional: um comércio de segunda mão que carrega, junto, o estigma de “coisa usada”, “coisa descartada”, “coisa duvidosa”.

(Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)

Para quem circula por ali, no entanto, esse estigma não é obstáculo. Francisco Antônio do Nascimento, morador da região há três décadas, costuma ir à feira para aproveitar o clima de domingo: “Volta e meia a gente vem aqui, dá uma volta, compra alguma coisa. Eu gosto mesmo é da comida. Tem um kibe com ovo que é uma delícia”, diz. Ele conta que, às vezes, vai sozinho “só tomar um café e ver as pessoas”.

Muito antes da tendência
O que hoje se chama de “economia circular” já era prática corrente na Feira da Marreta muito antes da palavra entrar no vocabulário urbano. Mana destaca que muitos dos produtos vendidos ali são retirados do lixo, recuperados e transformados em objetos com valor de venda.

“Não é apenas reciclar, é recontar a história das coisas. Cada ferramenta, cada rádio, cada peça carrega uma biografia: como viveu, quem usou, por quais mãos passou até chegar àquele domingo e ser comercializado na feira”, ressalta.

(Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)

E há mais que ferramentas. A feira reúne eletrônicos, vestuário, alimentação e até manifestações culturais, compondo um espaço que ultrapassa a ideia de comércio e se transforma em território de encontro.

Mesmo sem reconhecimento formal, a pesquisadora defende que a Feira da Marreta é um patrimônio histórico e cultural de Goiânia. “Não um patrimônio tombado, musealizado, burocratizado, mas um patrimônio vivido. É importante que a população que faz a feira dê esse valor a ela”, afirma. Na perspectiva de Mana, o patrimônio nasce da prática social, da permanência e da identidade construída ao longo das décadas.

Essa leitura se reforça quando olhamos para o território onde a feira acontece. Ela está localizada ao lado do antigo traçado da estrada de ferro — trilhos que foram retirados, mas permanecem na memória recente da cidade. Perto dali, de um lado está a antiga Estação Ferroviária, hoje museu, e, do outro, se conecta ao bairro Vila Nova, um dos redutos operários pioneiros de Goiânia. A geografia reafirma: a feira pertence à cidade desde sua base mais popular.

O olhar da gestão pública
Do ponto de vista institucional, a feira é oficialmente registrada como Feira Múltiplos, como explica o diretor de Equipamentos da Secretaria Municipal de Gestão de Negócios e Parcerias (Segenp), Rodrigo Cabral. Hoje, 125 feirantes estão cadastrados, alguns com mais de 15 anos de registro.

(Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)

“A prefeitura mantém o controle dos permissionários, mas enfrenta desafios recorrentes, como a presença de vendedores não cadastrados e a comercialização de produtos com suspeita de origem ilícita, combatida com base em denúncias e ações de fiscalização”, explica o diretor.

Rodrigo destaca que o propósito original é claro: venda de produtos usados, com forte presença do famoso “pregão”. Ele reconhece que, entretanto, ao longo do tempo, parte dessa intenção foi desvirtuada, exigindo atuação contínua do poder público.

A feira também muda de local em situações específicas. Como ocupa o espaço em frente aos portões de acesso do Parque de Exposições Agropecuárias, ela é temporariamente transferida para o Cepal da Vila Abajá quando há eventos no local de origem.

(Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)

Apesar de toda complexidade — ou justamente por causa dela —, a Feira da Marreta tem atraído cada vez mais visitantes. Há quem vá por curiosidade, quem vá para reviver memórias, quem busque eletrônicos antigos, ferramentas que não se fabricam mais, peças únicas, preciosidades perdidas no tempo.

Há também quem vá apenas para observar esse lugar onde a cidade se reinventa a partir do que foi descartado, no espaço onde os objetos encontram novas biografias e onde Goiânia reencontra partes de si que não aparecem nas fachadas de vidro. Enquanto houver gente trocando, negociando, recuperando e circulando por suas barracas, a feira seguirá sendo, mesmo que não oficialmente, um dos grandes patrimônios de Goiânia.

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por Carolina Pessoni

*Jornalista formada pela UFG, especialista em Assessoria de Comunicação e Marketing também pela UFG

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