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Crepúsculo no Rio Buranhém (Foto: divulgação)

Fatos, filmes e ficções

04.01.2026 - 08:30:48
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O ano de 2025 se foi e deixou um resquício de ambivalência, um dublo sentido e dois pés na jaca. Entre coisas boas e ruins, tentando equalizar forças opostas e dicotômicas, sinto que as coisas boas se sobressaíram às ruins e hipóteses possíveis vieram à tona, dado o fato de que a arte imita a vida e a vida imita a arte.
O triste adeus e o legado deixado pela estrela do cinema francês (sex simbol da geração de mamãe), Brigitte Bardot (1934-2025), me ingressaram ao biotipo da beleza nórdica e selvagem da atriz estadunidense, Kim Basinger, a musa de “Nove e meia semanas de amor” (1986), ou a atrapalhada pleiadiana em “Minha noiva é uma extraterrestre” (1988).
Mas foi no gótico “Batman” (1989), que ela interpretou a sensual jornalista numa trama tão atual, cujo enredo percorre sobre o submundo da indústria de cosméticos químicos, seus desdobramentos com a criminalidade e o perigoso jogo de poder político.
Ainda sobre filmes e críticas à contemporaneidade, o jornalista João Abrão escreveu para a Coluna “Meia Palavra”, uma crônica ao agridoce “Jay Kelly” (2025), da Netflix. O longa ressalta a fórmula bem temperada do cinema ‘feliniano’ (italiano) que é ofuscada pela previsibilidade, água com açúcar do roteiro ‘hollywoodiano’ (americano). Bom para uma tépida “Sessão da Tarde”.
E como não maratonar a disruptiva série da Disney+, “Verdade Oculta” (2017). Uma pérola grunge e pertinente em meio às princesinhas da moda. Um herói às avessas que destrincha um mistério ignóbil envolvendo empreiteiros, construtoras, filantropos, nazistas, pastores, skin-heads e “vadias mentirosas”. E nessa mesma linha de herói disruptivo, o icônico Leonardo DiCaprio protagoniza um ex-ativista maconheiro, em “Uma batalha após a outra”, na HBO.
No entanto, entre tantas hipóteses possíveis da arte imitando a vida, o campeão de audiência foi o bizarro “Stranger Things” (2016-2025), a hodierna Chernobyl do distópico mundo invertido. Ambientado nos anos 80, sua trilha sonora, a esculachada estética fashionista de seus modelitos e a sociabilidade orgânica desprovida de dispositivos digitais reforçou a ideia da luta do bem contra o mal, este último materializado pelo caos, pela escuridão, pela maldade e violência.
“Stranger Things” é pop porque alcançou uma escala cabulosa de gerações. Transitou territórios oníricos, surreais, obscuros e cheios de medo, nivelando todos aos mesmos sentimentos angustiantes. Real, visceral, marginal, maligno, metafísico e mítico. Uma curiosidade proposta pela Revista Super Interessante é que o antagonista, “Demogorgon” teria sido um erro de grafia, do grego dēmiourgós, cujo personagem se referiria ao “Demiurgo”, um artesão divino que modelaria e organizaria a matéria caótica num mundo imitado, segundo Platão (428-348 a.C.). Um típico Lúcifer, para o cristianismo; ou a hipótese da matéria escura, para a física quântica. Um messias demoníaco derrotado pela persistência de ‘crianças’ super dotadas.
E foi entre esse caos e ordem, misticismo e ciência, ficções e fatos, que 2025 deixou uma saudade ambivalente, uma luz no fim do escuro buraco de minhoca, revelando, nesta jornada anual, uma leve sensação de superioridade luminosa e onipresente. E que assim seja!
Seja bem-vindo 2026
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por Tatiana Potrich
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