Logo

Eu não visito meus parentes no Finados

WhatsAppFacebookLinkedInX
04.11.2013 - 19:30:54

Goiânia – Depois de fazer umas compras no sábado pela manhã, estava voltando para a casa e peguei um congestionamento monstro na Marechal Rondon na Fama. Achei esquisita aquela movimentação em um horário que eu usualmente passo por ali. Fiquei pensando no que estava acontecendo. Seria prova de vestibular? Algum concurso? Até que caiu a ficha: Dia de Finados.

A fila de carros estava gigante nas imediações do Jardim das Palmeiras. Naquele momento, me lembrei da infância. Todo feriado de Finados tinha um rito. Meus pais sempre me levavam ao cemitério de Urutaí, onde tenho alguns parentes queridos sepultados. Após as orações, eu seguia para a casa de minhas tias e tinha um almoço farto para todos os parentes que ali se encontravam.

Depois que fiquei mais velho, nunca mais fui a um cemitério no dia de Finados. Não acredito que visitando o local onde o cadáver de quem eu amo está enterrado honra a memória da pessoa. Não tenho esse tipo de apego. Inclusive, não quero isso para mim. Já avisei a todos meus familiares que quando chegar minha hora, se for possível doar alguma coisa que o façam, e depois cremem o que sobrar. As cinzas podem ser jogadas em algum lugar que traga boas memórias para quem ficou. E bola para frente!

Ninguém, ou pouquíssimos, sentem prazer indo ao cemitério. Se o fazem, é por respeito por quem já partiu dessa para outra. Eu quero poupar meus entes queridos de tal compromisso nos feriados de 02 de novembro. Se jogarem minhas cinzas em um rio, mar ou cachoeira, será mais agradável para eles irem lá do que em um local cheio de famílias olhando para baixo, criançada correndo entre as sepulturas, cheiro de vela queimando e flores de gosto duvidoso em tudo quanto é canto.

Nós não sabemos lidar com a morte. Cada um adota um plano para tratar disso. Tem gente que não gosta nem de tocar nesse assunto. Completa negação. É compreensível. Não falar sobre algo que incomoda pode ser uma estratégia para minimizar o incômodo. Mas não é a única. Existem outros meios de encarar a única certeza que temos.

Eu adoto outro tipo de posicionamento. Não tenho problema algum em falar da morte, só que não vou pensar nisso agora. Quando chegar a hora, eu resolvo. Seja das pessoas que me cercam, seja no meu próprio caso. Vou tocar o bonde do astral e quando topar com o inexorável, decido como proceder. Perder tempo refletindo sobre isso agora é desnecessário.

A vida é curta, o mundo é grande, o dinheiro no bolso não permite fazermos tudo que queremos. Qualquer debate sobre a morte não irá mudar o fato que iremos morrer. Então vamos surfar na onda da vida, pois não sabemos quando iremos chegar no barranco de areia da eternidade.

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Noite e Dia
30.09.2026
Basileu França abre exposição e apresenta espetáculo musical em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Escola do Futuro de Goiás (EFG) em Artes Basileu França abriu, na última segunda-feira (28/9), a exposição “Cidades: Entre Memórias, Sonhos e Futuro”, na Galeria de Arte da instituição, em Goiânia. No mesmo dia, o Teatro Escola recebeu o espetáculo “A Noite do Rei”. A programação reúne trabalhos de estudantes de […]

Meia Palavra
30.09.2026
‘Unabomber’ não fica à altura de um dos crimes reais mais curiosos dos EUA

Estreou na Netflix Unabomber, um novo filme que tenta recontar a história fascinante do assassino e terrorista doméstico Ted Kaczynski, o titular Unabomber, que apavorou os Estados Unidos com atentados a bomba por várias décadas antes de finalmente ser capturado em meados dos anos 1990. Infelizmente, apesar de seus méritos, o filme não consegue ficar […]

lABORATÓRIO pÚBLICO - cIÊNCIA, pOLÍTICA E MEIO AMBIENTE
29.09.2026
Sem apocalipse ou redenção II

No último artigo por aqui, comentei das visões diametralmente opostas a respeito da inteligência artificial. De um lado, os otimistas tecnológicos acreditam que ela resolverá todos os nossos problemas; de outro, os tecnofóbicos já decretam para breve o fim da humanidade à medida que a IA rapidamente evoluir e sair de nosso controle. Argumentei que […]

Noite e Dia
28.09.2026
Armazém AZ apresenta mostra sobre Maria Abadia Haich em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Armazem AZ apresentou no último sábado (26/9), em Goiânia, a exposição Tessituras: Histórias de Bá, dedicada à trajetória de Maria Abadia Haich, co-fundadora da loja e personagem ligada à formação e à difusão do design brasileiro na cidade. Construída a partir do olhar de seus seis netos, com coordenação de […]

Curadoria Afetiva
27.09.2026
Códigos atemporais

Há uma contagiante efervescência cultural, como costumávamos caracterizar o circuito social na década de 80, que, curiosamente, vem se reprisando na capital goiana. Salões de arte, mostras de artistas renomados (estejam eles vivos ou mortos), apresentações públicas e privadas de espetáculos clássicos, caricatos e criativos. Aparentemente, um despertar coletivo que contamina, no bom sentido, todos […]

Joias do Centro
25.09.2026
Avenida Goiás: a linha que desenhou o coração de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Há avenidas que levam a algum lugar. E há aquelas que, antes mesmo de serem abertas, já foram concebidas para dizer alguma coisa sobre a cidade. Em Goiânia, a Avenida Goiás pertence à segunda categoria. Desenhada no plano original da capital pelo arquiteto e urbanista Attilio Corrêa Lima, ela nasceu como […]

Noite e Dia
25.09.2026
Evento apresenta primeira mostra de Di Cavalcanti para convidados em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Cerrado Galeria realizou nesta quinta-feira (24/9) a abertura exclusiva para convidados da apresentação do novo ciclo expositivo da galeria, que traz pela primeira vez à Goiânia obras do renomado artista Di Cavalcanti, além da primeira individual do goianiense Walter Pimentel. As mostras Di Cavalcanti: Lírico, brasileiro, modernista, e Anímica e […]

Noite e Dia
21.09.2026
Jardim Potrich une Yoga, cerâmica e arte em programação especial; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Jardim Potrich abriu suas portas para uma programação que aproxima duas práticas aparentemente distintas — Yoga e cerâmica — a partir de um território comum: a presença. No dia 12 de setembro, o jardim recebeu “Beta & Bia no Jardim”, uma manhã dedicada ao movimento, à respiração e à consciência […]