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Eu não visito meus parentes no Finados

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04.11.2013 - 19:30:54

Goiânia – Depois de fazer umas compras no sábado pela manhã, estava voltando para a casa e peguei um congestionamento monstro na Marechal Rondon na Fama. Achei esquisita aquela movimentação em um horário que eu usualmente passo por ali. Fiquei pensando no que estava acontecendo. Seria prova de vestibular? Algum concurso? Até que caiu a ficha: Dia de Finados.

A fila de carros estava gigante nas imediações do Jardim das Palmeiras. Naquele momento, me lembrei da infância. Todo feriado de Finados tinha um rito. Meus pais sempre me levavam ao cemitério de Urutaí, onde tenho alguns parentes queridos sepultados. Após as orações, eu seguia para a casa de minhas tias e tinha um almoço farto para todos os parentes que ali se encontravam.

Depois que fiquei mais velho, nunca mais fui a um cemitério no dia de Finados. Não acredito que visitando o local onde o cadáver de quem eu amo está enterrado honra a memória da pessoa. Não tenho esse tipo de apego. Inclusive, não quero isso para mim. Já avisei a todos meus familiares que quando chegar minha hora, se for possível doar alguma coisa que o façam, e depois cremem o que sobrar. As cinzas podem ser jogadas em algum lugar que traga boas memórias para quem ficou. E bola para frente!

Ninguém, ou pouquíssimos, sentem prazer indo ao cemitério. Se o fazem, é por respeito por quem já partiu dessa para outra. Eu quero poupar meus entes queridos de tal compromisso nos feriados de 02 de novembro. Se jogarem minhas cinzas em um rio, mar ou cachoeira, será mais agradável para eles irem lá do que em um local cheio de famílias olhando para baixo, criançada correndo entre as sepulturas, cheiro de vela queimando e flores de gosto duvidoso em tudo quanto é canto.

Nós não sabemos lidar com a morte. Cada um adota um plano para tratar disso. Tem gente que não gosta nem de tocar nesse assunto. Completa negação. É compreensível. Não falar sobre algo que incomoda pode ser uma estratégia para minimizar o incômodo. Mas não é a única. Existem outros meios de encarar a única certeza que temos.

Eu adoto outro tipo de posicionamento. Não tenho problema algum em falar da morte, só que não vou pensar nisso agora. Quando chegar a hora, eu resolvo. Seja das pessoas que me cercam, seja no meu próprio caso. Vou tocar o bonde do astral e quando topar com o inexorável, decido como proceder. Perder tempo refletindo sobre isso agora é desnecessário.

A vida é curta, o mundo é grande, o dinheiro no bolso não permite fazermos tudo que queremos. Qualquer debate sobre a morte não irá mudar o fato que iremos morrer. Então vamos surfar na onda da vida, pois não sabemos quando iremos chegar no barranco de areia da eternidade.

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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