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Eu embarango, tu embarangas

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27.08.2012 - 11:40:02

Goiânia – Na semana passada uma notícia me chamou a atenção no site da Globo. O título da reportagem, “Wanessa exibe cinta e barriguinha saliente durante show em São Paulo”, por si só já dava a tônica do absurdo. Quando se lê o texto, percebe-se que a cantora está sendo criticada porque, sete meses após dar à luz o primeiro filho, ainda não está com a barriga chapada. 

 
Alguns minutos depois de ler a matéria, vi que uma amiga também tinha achado a coisa estranha e postado um comentário no Facebook. Rapidamente, o post dela tornou-se espaço de desabafo para outras mulheres, que também não suportavam a crueldade com que eram tratadas pela ditadura da beleza logo após terem seus filhos.  
 
Uma delas, que teve gêmeos, disse que foi cobrada pelo próprio pai a recuperar logo a boa forma, “porque a Fernanda Lima também havia tido gêmeos e continuava magra”. De quem é a sandice maior: da mídia, que divulga a ideia de que ter filho é igual a mascar chiclete, ou de quem acredita na loucura divulgada? 
 
Deixo a resposta para os sociólogos porque, além de não me julgar capacitada para solucionar a questão, minha perplexidade diante dessa falta de senso não abre espaço para mais nada. Tento encarar a situação com naturalidade, mas por todos os ângulos que a observo continuo achando tudo uma loucura.
Há quem justifique a cobrança com o fato de mulheres como a cantora Wanessa viverem da aparência, o que as obrigaria a estarem sempre impecáveis. Mas, Deus do céu, uma gravidez é sempre uma gravidez! Os efeitos fisiológicos são os mesmos, as alterações são as mesmas. E eles são vários e extremamente intensos.
 
A pessoa passa nove meses gerando outra, engorda no mínimo dez quilos, vê sua barriga crescer em progressão geométrica, tem os seios inundados de leite, fica com os hormônios completamente alterados e precisa agir como se não fosse nada? Tem de fingir que o corpo não se esticou inteiro, que não saiu ninguém de dentro dela? 
 
Uma celebridade não mantém a boa forma física logo depois de dar à luz só porque “a natureza é generosa e basta ter força de vontade”. Vai emagrecer porque gasta pelo menos 60% do salário com a própria aparência e tem à sua disposição um batalhão de esteticistas, médicos e personal trainer, com procedimentos de última geração. 
 
Ainda assim, muitas vezes elas não conseguem voltar rápido ao peso de antes – caso da cantora Wanessa. O que é óbvio, pois ninguém dá à luz impunemente. Ter um filho é um negócio complexo demais, demorado demais, para ser banalizado ao ponto de parecer com algo tão simples como fazer um peeling.
 
Usando a linguagem popular, se uma mulher pariu, vai “embarangar” mesmo. Durante um tempo vai, sim. Com toda certeza. Se você não é mulher, experimente colocar algo dentro das suas entranhas que pesa cerca de três quilos – em alguns casos quatro – e retirá-lo depois de nove meses, para ver o que acontece.  
 
Aliás, sejamos menos drásticos. Abra mão da dieta de coelho, à base de folhas e brotos, e beba a cerveja que você gosta toda semana, acompanhada de um belo espetinho ou de uma pizza suculenta. Durma o quanto tiver vontade e malhe só quando for imprescindível. Você vai “embarangar” também.
 
E isso não é o fim do mundo — para dizer a verdade, está bem longe de sê-lo. Embarangar, muitas vezes, é sinal de saúde e alegria. Se a mulher engordou e ficou com a barriga flácida depois de parir, é porque está saudável ao ponto de conseguir gerar um filho. Quantas querem isso mais que tudo, mas não podem? 
 
Se a barriguinha saliente é causada por essa sua vontade de comer e beber o que gosta, também é porque você é uma abençoada. Quanta gente quer fazer o mesmo, mas não pode, porque sofre de colesterol de alto, hipertensão, diabetes, risco de enfarto ou uma série de outras doenças? 
 
Eu embarango, tu embarangas, ela embaranga. Num certa altura da vida, leitora, todas nós vamos embarangar. É a lei da vida, dos ciclos, da ação e da reação. Aceitar isso com mais serenidade e naturalidade nos ajuda a ter noção do que somos, na realidade: seres humanos, dinâmicos, e não bonecas de plástico, imutáveis.
 
Nem mesmo para o relacionamento afetivo isso é um problema. Concordo inteiramente com o mestre Xico Sá, que diz que “homem que é homem não sabe sequer — nem procura saber — a diferença entre estria e celulite”. Agora, se o seu souber e quiser saltar do barco porque valoriza mais um detalhe que o conjunto da obra, é melhor nem tentar impedi-lo. Pode ter certeza: ele já vai tarde.   
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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