Lorena Lara
Goiânia – A prisão preventiva dos três estudantes no último dia 23 de maio gerou controvérsia e discussão nas redes sociais. Após a concessão de habeas corpus no dia 29 de maio, uma semana após as prisões, Heitor Vilela, João Marcos Almeida e Ian Caetano conversaram com o A Redação sobre o que aconteceu.
A abordagem, nos três casos, foi realizada de maneira parecida. "Era madrugada, mais ou menos umas 5h50, quando os policiais chegaram lá em casa", contou Heitor. "Eram uns quatro, cinco, incluindo o próprio delegado". Ele conta que teve todo o seu quarto revistado. "Olharam todas as cosias, livros, gavetas, caixas. Levaram meu computador, meu material da faculdade, panfletos, desenhos e até material de primeiros socorros como prova de crime", explicou o estudante do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Goiás (UFG).
O relato de Ian Caetano é parecido. "Entraram no meu quarto, revistaram tudo e me informaram do mandado de busca e apreensão de determinados objetos do quarto", contou. No caso de João Marcos, a situação foi diferente. Ele conta que já estava fora de casa quando a abordagem aconteceu. "Eu estava indo ao ponto de ônibus e me deparei com um gol prata com duas pessoas lá dentro. Fui abordado por policiais que me informaram do mandado de busca e apreensão. Retornaram comigo até minha casa e revistaram tudo", informou João Marcos, que é estudante secundarista.
Em seguida, os estudantes foram encaminhados para a Delegacia de Repressão e Combate às Ações Criminosas Organizadas (Draco), onde passaram por interrogatório e, depois, levados à Casa de Prisão Provisória (CPP). "Recebemos o mesmo tratamento que qualquer outro preso", afirmou Heitor Vilela. "O convívio com os outros presos foi bastante tranquilo. Alguns policiais foram mais hostis, outros não", completou Ian Caetano. "Na CPP os advogados tentaram e conseguiram colocar a gente numa ala mais tranquila", explicou João Marcos.
Sobre o inquérito e as acusações, os três têm críticas a fazer. "A acusação de liderança do MEPR Movimento Estudantil Popular Revolucionário (MEPR) mostra o quão mal feito foi esse inquérito", pontua Ian. João Marcos também ressalta que não tem nenhum tipo de ligação com tal movimento. "O MEPR é uma organização da qual eu nem passo perto, porque tenho divergências políticas com eles", diz. Ele ainda afirma que faz parte de um movimento sem liderança. "Temos uma organização horizontal", diz o estudante.
Críticas
Heitor ressalta o caráter horizontal da Frente de Lutas Pelo Transporte. "Qualquer pessoa que tem um mínimo de contato sabe que a manifestação é horizontal. Toda pessoa que chega pode usar o carro de som, as reuniões são divulgadas no Facebook", explica, e completa que "qualquer pessoa que vai pode ver que todos têm o mesmo direito de voz e voto e também de propor questões", ressalta.
"Isso só mostra que é uma investigação furada", diz Heitor. "Essa imagem de liderança realmente não existe", relembra o estudante. Os alunos também foram acusados da queima de mais de 100 ônibus do transporte coletivo de Goiânia e Região Metropolitana. "Queimar mais de cem ônibus é uma coisa incabível. Como é que três garotos vão quebrar mais de 100 ônibus em vários terminais ao mesmo tempo?", questiona João Marcos.
Amistoso em Goiânia
Heitor acha que o objetivo das prisões era manter os estudantes na CPP pelo menos até esta terça-feira (3/6), dia do amistoso da seleção brasileira conta o Panamá. No entanto, depois que o habeas corpus foi concedido, os estudantes foram imediatamente liberados. Para João Marcos, as prisões não impedem que as manifestações continuem. "A esquerda de Goiás e até mesmo do Brasil se juntam mais por causa disso", diz.
Restrições
Apesar do habeas corpus, Heitor, João Marcos e Ian ainda estão sob restrições de liberdade. "Não podemos sair de casa depois das 22 horas, não podemos ficar em locais públicos em dias de descanso e nem nos ausentar da cidade de origem por mais de 10 dias", explica Ian.
Ele afirma que as prisões foram "um resquício da tentativa de criminalizar movimentos sociais" e ressaltou a qualidade do transporte público. "Dentro da cadeia, fiquei sabendo que uma menina de 10 anos foi atropelada pelo eixão. Crimes contra a população são cometidos todos os dias e ninguém tem feito investigações sobre isso", finaliza.