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Escolha atrapalhada

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13.09.2011 - 11:51:34

 


O debate sobre eleições municipais, mesmo incipiente, está no caminho errado. Penso sobretudo em Goiânia, cidade que podia se aproveitar mais de ter nascido planejada, e que cresce aceleradamente. Podia ter mais consciência e responsabilidade de seus administradores, atual e futuros. Foi difícil e continuará sendo cobrar isto deles.
 
Políticos adoram discutir candidaturas, lançar nomes, especular sobre a viabilidade eleitoral deles, inflar e estourar bolhas. Jornalistas precisam de especulações mais que Goiânia de chuva neste momento. Uns e outros se alimentam e se fartam com possibilidades, pesquisas, hipóteses que viram fatos, factóides que produzem hipóteses, teses as mais malucas, mas que preenchem espaços nos noticiários, geram ansiedades, estimulam disputas. O mundo virtual exponencializou tudo isto.
 
Não se discute o essencial: propostas, ao invés de nomes. Soluções, formas de encarar os problemas das cidades, ao invés de marketing e imagem de candidatos.
 
Entre urbanistas, engenheiros, arquitetos e demais estudiosos dos problemas da cidade há muitos consensos. Quase todos estampados no Plano Diretor da cidade, que olha questões essenciais como zoneamento urbano, uso de solo, plano diretivo de transportes coletivo, preservação de áreas ambientais, distribuição de serviços públicos. Obedecer, quem há de? Defender, para o quê? Executar, onde?
 
Nada menos que o Secretário de Planejamento (sic) da Prefeitura de Goiânia se insurgiu contra um projeto de Lei aprovado na Câmara de Goiânia, exigindo estudo de impacto de trânsito e vizinhança para prédios com mais de 5 mil metros quadrados. Não se sabe se o prefeito irá sancionar ou vetar o projeto.
Provavelmente cederá mais uma vez aos interesses do mercado imobiliário. As medidas mitigadoras que estes estudos trariam à luz encarecem os projetos, sem significar mais lucros para o empreendedor. Então, que permaneça valendo a regra de mercado: que o poder público arque com os custos de resolver o problema, quando ele se tornar óbvio. Às imobiliárias já coube o esforço, imenso, de construir, seja lá onde for.
 
Um exemplo claro de como esta lei poderia ter evitado uma catástrofe, caso não prevalecessem interesses – sempre escusos? – entre poder público e mercado imobiliário: o Parque Flamboyant. Bela iniciativa, entre tantas outras, do prefeito Iris Rezende. Um lugar aprazível, feito para ser eterno. Quanto a viver às suas margens, tende a tornar-se um inferno, pela quantidade de prédios e o tamanho deles que a mesma prefeitura autorizou a serem erguidos. Quando ocupados os prédios, uma cidade dentro de outra estará obrigada a conviver, entre seus habitantes permanentes e eventuais, com as mesmas ruas estreitas de hoje, a mesma infra-estrutura de água e esgoto, de galerias pluviais, pensada e executada para 100 vezes menos gente.
 
Como disse, há consenso entre estudiosos quanto à ocupação e mobilidade urbana. Imensos vazios entre loteamentos já existentes deveriam ser ocupados, antes de liberar novas áreas. E mesmo uma enorme quantidade de lotes baldios ou semi-utilizados nas áreas mais densamente povoadas deveriam ser ocupados, antes de se estender serviços públicos essenciais, como água encanada, esgoto sanitário, rede elétrica e transporte coletivo a regiões fora do adensamento urbano. 
 
Qualquer um tem a resposta na ponta da língua para a mobilidade urbana em Goiânia e em grandes centros que crescem no mesmo ritmo: transporte coletivo de qualidade. O que, dadas as circunstâncias, também significa transporte massivo, com metrôs, corredores exclusivos para grandes ônibus sobre rodas ou sobre trilhos, linhas distribuidoras bem planejadas complementando os grandes eixos. Enquanto isto, há quem ainda pense, como um ex-prefeito de Goiânia, que metrô é um investimento muito caro.
 
E enfim, chegamos ao ponto: dentre tantos nomes igualmente qualificados para a disputa à prefeitura de Goiânia, incluindo Paulo Garcia, o atual, com que projeto para a cidade eles estão comprometidos? Para ficar nos temas citados, o setor de transportes, assim como o imobiliário, são dois dos maiores financiadores das campanhas municipais em uma cidade do tamanho de Goiânia.
 
Para além do nome de A, B ou C, quais são as propostas que se atrevem a contrariar os interesses destes capitalistas, para enfrentar de verdade os problemas de Goiânia e atender as necessidades de seus cidadãos? Ainda não ouvi nada sobre isto. E não significa que um candidato que se comprometa a estar do lado do contribuinte, ao invés dos grandes financiadores, está fadado ao sucesso. Se eleito, ainda terá que enfrentar fortes resistências. Mas pelo menos estaremos diante de cobrar um compromisso feito num período em que apoio e voto são tão fundamentais quanto recurso de campanha.
 
De minha parte, só sei de uma coisa: eu não tenho candidato a prefeito de Goiânia. E se nenhum se comprometer com o que todos sabem que é preciso ser feito, corro o risco de, pela primeira vez na vida, não votar em ninguém.
 
Rogério Lucas é jornalista
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por Rogério Lucas

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