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(Foto: reprodução)

Entre o drama e a trama

Três séries que mostram como drama não é garantia de densidade, nem reviravoltas implicam necessariamente abrir mão de profundidade

13.01.2026 - 09:00:56
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No fim de ano, foi possível dar uma trégua às leituras acadêmicas do doutorado e assistir a algumas coisas para ficar menos deslocado nas conversas.

Já recomendei Pluribus no Entrelinhas, e acho que vale voltar a comentar rapidamente porque ilumina as críticas a All Her Fault e Task, que vi agora em janeiro.

Antes de entrar na conversa sobre as séries em si, entretanto, é importante introduzir uma ideia sobre a construção de narrativas que quero usar para falar sobre essas séries. 

Toda narrativa clássica—não apenas as audiovisuais—tem trama e tem drama. Os conflitos morais e emocionais dos personagens são o drama. As ações, desafios e obstáculos que se desenvolvem e que os personagens enfrentam para tentar atingir seus objetivos são a trama.

Trama e drama são elementos complementares da narrativa: drama gera trama que gera drama. O drama da descoberta de um câncer leva Walter White, em Breaking Bad, a se tornar um traficante de metanfetamina para não deixar sua família sem dinheiro. Fabricar e vender drogas, por sua vez, trazem poder, e ele se torna um objetivo mais importante para Walter do que o dinheiro e a família. Drama gera trama que renova o drama.

Toda narrativa extrai sua força dessa relação, e também da ênfase que dá a uma ou outra. Algumas narrativas subordinam a trama ao drama, limitando aquela ao mínimo necessário; outras fazem o contrário: ancoram-se na renovação constante dos obstáculos e em reviravoltas para capturar nossa atenção, subordinando o drama à trama.

Qualquer filme de Indiana Jones é evidentemente um filme de trama. Os personagens são icônicos, mas psicologicamente estáveis. O prazer está na sucessão de perigos, não na transformação interna. Em Blue Valentine, ao contrário, a estrutura narrativa serve apenas para aprofundar a erosão afetiva de um casal—o que nos captura é testemunhar a mudança emocional dos personagens.

Mas ênfase na trama não é sinônimo de filmes rasos—ainda que muitas vezes sim. Tampouco a ênfase no drama é garantia de histórias profundas—vide a profusão de melodramas sonolentos. Caçadores da Arca Perdida é um dos grandes filmes da história do cinema com pouquíssimo investimento em conflito moral ou emocional profundo. Isso acontece porque, além da boa trama, oferece uma história recheada de referências cinematográficas e culturais que produzem camadas complexas de sentido, e sua trama produz uma gama ampla de emoções, que vão do medo ao riso. Foi Apenas um Sonho, filme de 2008 de Sam Mendes, é exemplo, por outro lado, de uma obra que se pretende drama psicológico profundo, com a trama subordinada aos elementos emocionais, mas que fracassa em seu intento justamente pela falta de articulação entre esses dois elementos, produzindo um drama retórico, pouco pressionado por ações verdadeiramente transformadoras.

Passemos enfim a Pluribus, All Her Fault e Task.

A nova série de Vince Gilligan, disponível na Apple TV, pode ser vista como mais um passo (ousado) do roteirista em direção à ênfase no drama. 

Em Breaking Bad, drama e trama se sustentam em equilíbrio. Se, por um lado, o drama emocional de Walter é fonte constante de angústia para o espectador, por outro, a trama policial caminha sempre densa e é origem inesgotável de suspense, mistério e surpresa. Por vezes, a trama se recolhe e dá lugar a longas digressões dramáticas, como no episódio “Fly”, da 3ª temporada, que se passa praticamente todo dentro do laboratório, com Walter e Jesse obcecados em matar uma mosca que teria contaminado o ambiente. É um episódio deliberadamente antiespetacular, centrado em diálogo, tensão psicológica e moral—um exemplo extremo da ênfase no drama com trama mínima.

Com Better Call Saul, Gilligan dá um passo rumo à ênfase no drama. A trama é deliberadamente econômica e lenta. O interesse central está nos dilemas morais, nos ressentimentos e no autoengano. Golpes, processos e disputas legais existem apenas para tornar visíveis os conflitos internos de Jimmy, Kim e Chuck.

Pluribus, por sua vez, parte de uma premissa inusitada: um código alienígena transforma toda a humanidade em uma espécie de colmeia, com as mentes de todas as pessoas conectadas—todas menos 13, entre elas Carol, interpretada por Rhea Seehorn. 

O que se vê é uma progressão surpreendentemente lenta das consequências práticas dessa mudança, explorando em essência os conflitos emocionais da protagonista diante dessa situação bizarra. Ainda temos alguns anos pela frente antes de sabermos se, no fim, Pluribus parará em pé. Mas o resultado, por enquanto, é muito bom, sobretudo pelo fato da premissa criar uma situação limite para a qual não há caminhos óbvios. A série flerta fortemente com características do cinema moderno: o final interessa pouco—não é o sucesso ou fracasso da protagonista que mais importam—, os objetivos não são rígidos e as possibilidades, muito abertas. 

All Her Fault, que vem obtendo repercussão positiva—suponho que pelo sentido óbvio esfregado pelo título em nossos narizes—, tenta explorar o drama psicológico inerente à injusta responsabilização de mães, em uma sociedade machista, pelo desaparecimento de uma criança. 

A crítica do machismo e o jogo de culpas e ressentimentos dentro das famílias envolvidas de fato poderiam, somados a uma trama de alta voltagem, produzir um drama impactante. Mas a série, infelizmente, fica só na promessa exatamente porque o jogo entre os dois elementos—drama e trama—é muito mal articulado. 

O drama das personagens parece sempre sobreposto à trama—não é resultado orgânico dos dilemas trazidos por ela. Tudo é retórico e legível, com os sentidos sempre telegrafados para o espectador, e há de fato um excesso de trama, com mil reviravoltas e pistas falsas que vão cansando na ausência de maior densidade de conflitos emocionais. O conjunto resulta forçado e desconjuntado, demandando esforço para chegar ao fim dos oito episódios. Ainda assim, a série vem fazendo sucesso, talvez menos por sua elaboração narrativa do que por sua adesão a um discurso já consensual.

Em Task, série de sete episódios da HBO criada por Brad Ingelsby e protagonizada pelo sempre excelente Mark Ruffalo, Tom Brandis é um agente do FBI que vive uma profunda tragédia pessoal—seu filho, mentalmente perturbado, cumpre pena pelo assassinato da mãe. Em meio ao luto, ele é chamado de volta à ativa para investigar uma série de roubos a pontos de venda de drogas associados a uma violenta gangue de motoqueiros.

A narrativa de Task não se limita a uma série investigativa policial clássica. Drama gera trama que renova drama. Cada avanço na investigação reflete e intensifica os conflitos internos de Tom, um ex-padre que tem que lidar com seu luto, o alcoolismo, o dilema de perdoar ou não o filho, sua própria perda de fé e a dificuldade para dar sentido à vida. Ao mesmo tempo, as decisões de Robbie, o líder por trás dos roubos às biqueiras, são tomadas por impulsos emocionais — medo, amor, autojustificação — e não meramente por uma lógica criminal, o que eleva o que está em jogo e complexifica drama e trama.

A perseguição policial e os confrontos com a gangue servem para colocar em evidência a fragilidade moral e psicológica dos protagonistas—todos personagens emocionalmente destruídos—, e não apenas para mover a trama. O ritmo da série intercala cenas de ação policial com momentos de intensa introspecção e conversas dramáticas. No fim das contas, a trama fornece a estrutura progressiva e os obstáculos objetivos (roubos, ameaças, pistas, traições internas, confrontos), enquanto o drama produz significado emocional profundo, estabelecendo por que essas ações importam para quem as vive. 

Resultado: possivelmente uma das melhores séries de 2025. Doída, angustiante e de alta voltagem.

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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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