Jales Naves
Especial para o jornal A Redação
Goiânia – O medo protege a vida quando alerta para perigos reais, mas limita a liberdade quando assume o governo das escolhas. “Compreendê-lo, educá-lo e agir segundo a razão, os valores e o amor constituem o caminho da coragem”. A afirmação é do advogado, escritor, pesquisador e professor Emídio Silva Falcão Brasileiro, ao falar sobre o tema no ciclo de palestras Medicina e Espiritualidade, da Academia Espírita de Letras de Goiás, no dia 25 de julho. O medo – conforme explicou – é uma emoção fundamental da experiência humana. “Influenciou a formação das civilizações, das instituições, da ciência, da filosofia, da religião e da vida social”.
“Pode proteger diante do perigo, estimular a prudência e preparar o organismo para agir; porém, quando desproporcional ou permanente, limita escolhas, alimenta sofrimento e impede o desenvolvimento pessoal”, disse. Sua manifestação varia conforme a herança biológica, as experiências, a educação, a cultura, as crenças e o modo como cada pessoa interpreta a realidade. “Compreendê-lo é o primeiro passo para transformá-lo: vencê-lo não significa deixar de senti-lo, mas impedir que governe a existência. Subordinado à razão, à consciência e aos valores, o medo deixa de ser tirano e recupera sua função de conselheiro”.
Origem biológica do medo
Formado em Direito pela Universidade Federal de Goiás, com doutorado na área pela Universidade Autônoma, de Lisboa e pós-doutorado em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo, Emídio Brasileiro destaca que o medo surgiu como mecanismo evolutivo de preservação da vida. “Organismos capazes de perceber ameaças e reagir rapidamente tiveram maior possibilidade de sobreviver e transmitir suas características. As respostas de luta, fuga ou proteção são, portanto, adaptações naturais”.
“A aprendizagem também participa desse processo: acontecimentos dolorosos criam associações duradouras, e certos temores se formam com maior facilidade por estarem ligados a perigos recorrentes na história da espécie”, esclareceu. “O problema aparece quando um sistema preparado para ameaças passageiras permanece ativado diante de pressões contínuas da vida moderna. Reconhecer a função evolutiva do medo permite acolhê-lo sem vergonha e, ao mesmo tempo, educá-lo, distinguindo riscos reais de ameaças imaginadas”.
Neurociência do medo
O medo – como ressaltou – resulta da interação entre cérebro, sistema nervoso e sistema endócrino. “A amígdala identifica rapidamente sinais de ameaça; o hipocampo associa a experiência ao contexto e às memórias; o córtex pré-frontal avalia a situação, regula os impulsos e orienta decisões; e o hipotálamo mobiliza o corpo, acelerando o coração, a respiração e liberando hormônios como adrenalina e cortisol. Essa resposta é útil em perigos imediatos, mas sua ativação prolongada prejudica a saúde física e emocional”.
“A neuroplasticidade demonstra, contudo, que os circuitos cerebrais podem ser modificados por novas experiências, reflexão, treino emocional e hábitos saudáveis. Os mecanismos biológicos explicam como a emoção se manifesta, sem esgotar as dimensões subjetiva, moral e espiritual da consciência”, frisou.
Evolução do medo
Mestre em Ciências da Educação pela Universidade Lusófona de Ciências e Tecnologias, de Lisboa, o dr. Emídio Brasileiro relatou que, nos primórdios, o medo favoreceu a sobrevivência diante de predadores, fome, doenças e fenômenos naturais. “Também incentivou a cooperação, a divisão de tarefas, a linguagem e o fortalecimento dos grupos”. “O domínio do fogo, a agricultura, a vida sedentária e o crescimento das cidades reduziram alguns perigos, mas criaram outros, como conflitos, epidemias e inseguranças sociais. A ciência e a tecnologia ampliaram a proteção, embora tenham trazido riscos novos”.
“Na contemporaneidade, muitas ameaças físicas deram lugar a receios econômicos, profissionais, afetivos e simbólicos. O cérebro, porém, ainda reage a pressões modernas com mecanismos antigos. A evolução cultural e espiritual exige, assim, que a humanidade use conhecimento, solidariedade e aperfeiçoamento moral para impedir que o medo produza violência, intolerância e paralisia”.
Estudos e pesquisas
Orador, autor e pesquisador, o dr. Emídio Brasileiro tem diversos estudos, pesquisas e publicações, com milhares de exemplares distribuídos, nas áreas do Direito, Educação e Religião, destacando-se as obras: “Tratado dos Evangelhos”; “O Direito Natural e a Justiça Quântica”; “Sexo, Problemas e Soluções”; “Sabedoria”; “Um Dia em Jerusalém”, “A Caminho do Deserto”, “Educação Emocional”, “Educação Sexual”, “Inteligências Emocionais” e “O Livro dos Evangelhos”. É membro de instituições culturais, jurídicas e religiosas, e atuante em trabalhos de assistência social.
Natural de Irará, BA, em 19.02.1962, filho de João Falcão de Albuquerque Brasileiro (farmacêutico) e de Jenuci Silva Falcão Brasileiro (enfermeira), viveu em Salvador até 1986 e atualmente reside em Goiânia. É casado, desde 1990, com Marislei de Sousa Espíndula Brasileiro (enfermeira e escritora, com doutorados em Ciências da Saúde e Ciências da Religião), com quem tem um casal de filhos, Vinícius e Jenucy (ambos advogados, empresários e professores, com mestrado em Educação), e um casal de netos, Cecília e Heitor.
