Logo

Em nossas mãos, a responsabilidade pelas tragédias

WhatsAppFacebookLinkedInX
27.01.2013 - 14:13:58

Goiânia – Tragédias acontecem e todo mundo está sujeito a isso. Mas nunca a responsabilidade foge das nossas mãos. Não para se evitar a tragédia, mas para amenizá-la. Saber fazer as escolhas certas diante de decisões importantes. Não seria esse o desafio da vida? Por que não, o desafio para se amenizar as tragédias?

Hoje eu vi minha mãe me ligando depois das cinco horas, porque não havia chegado em casa e se desesperando com meu celular desligado. Vi meus pais, então, procurando por notícias minhas na fila do Ginásio em Santa Maria. Vi meus amigos chorando e pensando que só não eram eles porque ontem não estavam afim de sair.

Senti o desespero da fumaça me tirando a consciência. A pressão pela luta por uma saída. O desespero em ser pisoteada. Pensei em câmaras de gás; quando a morte tira o ar, a consciência sem dar tempo de se dar conta do que está acontecendo.

Eu me vi em todas essas situações porque eu me vi em muitas casas noturnas em Goiânia que, assim como a Kiss, em Santa Maria, não têm estrutura para dar conta de um incêndio. Porque nossas mesmas casas têm os mesmos seguranças com as mesmas instruções para não deixar sair em hipótese alguma: nem morto.

Essas tragédias chocam porque poderia ser qualquer um de nós. Poderia ter sido eu a pegar aquele avião. A entrar naquele prédio. A cruzar aquela rua. A tomar aquele ônibus. A cruzar aquela rodovia. Viver é estar sujeito a todas as tragédias. Mas o que temos feito para amenizá-las?

No dia 1º de janeiro, meu primeiro trabalho do ano foi cobrir um incêndio de uma concessionária. Nenhuma vítima. Mas só de estar perto do fogo e assistir àquela fumaça, senti calafrios. Poucos dias depois, fui entrevistar um bombeiro para que pudesse dar orientações de como se evitar incêndios, já que eram três em menos de 15 dias em janeiro.

Perguntei de que forma os donos dos estabelecimentos eram autuados. Qual era o valor da multa. Ele nem quis mesmo me informar o valor, de tão irrisório que é. Completou dizendo que a equipe do corpo de bombeiros é muito pequena para dar conta de fiscalização. Eles vêm, de fato, quando o evitável já produz fumaça.

Supermercados, lojas, escritórios, clínicas, escolas, boates e por onde mais estivermos. Todos esses locais são “Kiss” em potencial. Todos estamos sujeitos a tragédias como essa em qualquer local ou ocasião. Antes de se viver temeroso, evitando a morte, mais prudente é viver consciente de sua ética, buscando amenizar tragédias.

Não é preciso muita coisa para um fogo se alastrar , tomar conta de um local e fazer dezenas vítimas. Mas para se evitar algo dessa magnitude, o corpo de bombeiros tem uma cartilha para cada espaço e basta chamá-los para que eles orientem.

O problema é que há gastos. E, com isso, os donos dos estabelecimentos parecem estar muito preocupados, a ponto de não permitir saída de ninguém sem pagar a conta. A tragédia é inevitável. Mas poderia ter sido amenizada. O estabelecimento que poderia ter dispensado verbas para adequar o local e evitar incêndios de grande porte. O segurança que poderia ter colocado a vida acima de tudo e garantido um futuro mais longo a algumas dezenas de jovens. O corpo de bombeiros que deveria ter fiscalizado os espaços. O governo que deveria dar estrutura para os bombeiros realizarem fiscalização.

A possibilidade de se amenizar tragédias está nas mãos de cada um e não em fugir dos perigos eminentes. Podemos ser nós os responsáveis por tragédias, a não ser que saibamos bem deliberar e tomar as melhores decisões para que possamos amenizá-las. A culpa não é de quem saiu de casa. A culpa não é de quem gosta de ir em boates. Não é de quem se arrisca saindo à noite enfrentando os perigos e violências.

Eu gostaria muito que os pais desses jovens em nenhum momento se culpassem em ter permitido os filhos saírem ou os culpassem pela diversão, como diversos comentadores de site já o fizeram hoje.Poderia ter sido em qualquer lugar. E em qualquer lugar a tragédia pode ser amenizada. Que fatos tristes como o de hoje sirvam para se pensar o papel de cada um diante de uma possível tragédia.     

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Noite e Dia
30.09.2026
Basileu França abre exposição e apresenta espetáculo musical em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Escola do Futuro de Goiás (EFG) em Artes Basileu França abriu, na última segunda-feira (28/9), a exposição “Cidades: Entre Memórias, Sonhos e Futuro”, na Galeria de Arte da instituição, em Goiânia. No mesmo dia, o Teatro Escola recebeu o espetáculo “A Noite do Rei”. A programação reúne trabalhos de estudantes de […]

Meia Palavra
30.09.2026
‘Unabomber’ não fica à altura de um dos crimes reais mais curiosos dos EUA

Estreou na Netflix Unabomber, um novo filme que tenta recontar a história fascinante do assassino e terrorista doméstico Ted Kaczynski, o titular Unabomber, que apavorou os Estados Unidos com atentados a bomba por várias décadas antes de finalmente ser capturado em meados dos anos 1990. Infelizmente, apesar de seus méritos, o filme não consegue ficar […]

lABORATÓRIO pÚBLICO - cIÊNCIA, pOLÍTICA E MEIO AMBIENTE
29.09.2026
Sem apocalipse ou redenção II

No último artigo por aqui, comentei das visões diametralmente opostas a respeito da inteligência artificial. De um lado, os otimistas tecnológicos acreditam que ela resolverá todos os nossos problemas; de outro, os tecnofóbicos já decretam para breve o fim da humanidade à medida que a IA rapidamente evoluir e sair de nosso controle. Argumentei que […]

Noite e Dia
28.09.2026
Armazém AZ apresenta mostra sobre Maria Abadia Haich em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Armazem AZ apresentou no último sábado (26/9), em Goiânia, a exposição Tessituras: Histórias de Bá, dedicada à trajetória de Maria Abadia Haich, co-fundadora da loja e personagem ligada à formação e à difusão do design brasileiro na cidade. Construída a partir do olhar de seus seis netos, com coordenação de […]

Curadoria Afetiva
27.09.2026
Códigos atemporais

Há uma contagiante efervescência cultural, como costumávamos caracterizar o circuito social na década de 80, que, curiosamente, vem se reprisando na capital goiana. Salões de arte, mostras de artistas renomados (estejam eles vivos ou mortos), apresentações públicas e privadas de espetáculos clássicos, caricatos e criativos. Aparentemente, um despertar coletivo que contamina, no bom sentido, todos […]

Joias do Centro
25.09.2026
Avenida Goiás: a linha que desenhou o coração de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Há avenidas que levam a algum lugar. E há aquelas que, antes mesmo de serem abertas, já foram concebidas para dizer alguma coisa sobre a cidade. Em Goiânia, a Avenida Goiás pertence à segunda categoria. Desenhada no plano original da capital pelo arquiteto e urbanista Attilio Corrêa Lima, ela nasceu como […]

Noite e Dia
25.09.2026
Evento apresenta primeira mostra de Di Cavalcanti para convidados em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Cerrado Galeria realizou nesta quinta-feira (24/9) a abertura exclusiva para convidados da apresentação do novo ciclo expositivo da galeria, que traz pela primeira vez à Goiânia obras do renomado artista Di Cavalcanti, além da primeira individual do goianiense Walter Pimentel. As mostras Di Cavalcanti: Lírico, brasileiro, modernista, e Anímica e […]

Noite e Dia
21.09.2026
Jardim Potrich une Yoga, cerâmica e arte em programação especial; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Jardim Potrich abriu suas portas para uma programação que aproxima duas práticas aparentemente distintas — Yoga e cerâmica — a partir de um território comum: a presença. No dia 12 de setembro, o jardim recebeu “Beta & Bia no Jardim”, uma manhã dedicada ao movimento, à respiração e à consciência […]