Logo

Em briga de marido e mulher…

WhatsAppFacebookLinkedInX
01.09.2011 - 11:16:13

 

 
Ninguém é sujeito da autonomia de ninguém. Aprendi isso com Paulo Freire e ouso afirmar ainda que a autonomia é um exercício individual, mas que cabe ao Estado dar aparato para que as pessoas sejam autônomas. Na 4ª Conferência Municipal de Política para as Mulheres, que ocorreu em Goiânia no fim de semana, fui relatora do grupo de trabalho sobre violência contra as mulheres. Sob o tema "Enfrentamento à violência para a construção da autonomia e autoestima das mulheres", discutimos a relação entre violência, autonomia e autoestima.
 
Um dia depois da conferência, que reuniu 1328 mulheres, leio na Redação que uma mulher, Helena, agredida covardemente por seu companheiro, não quis fazer a denúncia contra ele, mesmo estando na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher. A primeira pergunta que nos aparece é: por quê ela não quis denunciar? Jamais saberia responder essa pergunta, pois não estou na pele de Helena. Mas sei dizer que o delegado plantonista da Deam errou ao não fazer o Boletim de Ocorrência contra o marido agressor. 
 
Ora, a Lei Maria da Penha, que completou cinco anos, garante que a mulher não precisa ser a denunciante do crime. É justamente por isso que foi criado o Disque 180 para denúncias anônimas. O agente público, ao ver Helena machucada fisicamente, deveria fazer a ocorrência do crime, mesmo com a renúncia da mulher. 
 
Digo isso porque Helena compareceu acompanhada de seu irmão e relatou que estava em situação de ameaça. O registro deveria se dar por TCO (Termo Circunstanciado de Ocorrência) para que, após a assinatura do termo de representação, ainda na Delegacia, a autoridade que a registrou ficasse obrigada a remeter o caso diretamente ao judiciário para que o juiz concedesse as medidas protetivas.
 
Isso quer dizer que não depende pura e simplesmente da vontade da mulher, e sim de um regular processamento das demandas, já na delegacia, para que a sociedade possa ter certeza da aplicação correta da Lei, mesmo quando a mulher não se encontra acompanhada de advogado. Assim, cabe à sociedade cobrar para que não se preste somente ao papel de se perguntar “que fim levou a mulher? Voltou a viver na mesma casa que o agressor que ameaçou matá-la com uma espingarda?” Espero não ler nos jornais, daqui alguns meses, que Helena foi morta pelo marido.  
    
Na 4ª CMPM, discutíamos que as leis e a sociedade exigem que a mulher seja autonomamente protagonista da solução de seus próprios problemas em um momento de super fragilidade, no momento em que ela precisa ser cuidada. Se queremos mudar a realidade de ser o 6º Estado brasileiro onde mais se mata mulheres, a mudança deve ser feita no combate ao machismo e na capacitação dos agentes públicos que lidam com mulheres em situação de violência, incluídos aí policiais, delegados, médicos, enfermeiros, assistentes sociais, psicólogos, etc.  
 
A campanha pelo fim da violência contra as mulheres deve ser permanente em Goiás, assim como é em outros Estados. Aquela história de que em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher, já era. Cabe ao poder público goiano descobrir isso. 
 
 
Lis Lemos é jornalista e vice-presidenta do Centro Popular da Mulher
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Lis Lemos

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Wil Caravanti
04.11.2026
Design de Imaginação

“Imaginação é mais importante que conhecimento.” Albert Einstein Antes de existir no mundo, muitas das grandes realizações humanas existiram primeiro na imaginação de alguém. Walt Disney imaginou na Flórida algo que ia muito além de um parque de diversões. Lúcio Costa e Oscar Niemeyer ajudaram a transformar em cidade uma ideia desenhada para o centro […]

Rose Cruvinel
03.11.2026
Ministério do Idoso é boa ideia, mas precisa ser eficiente

A criação de um Ministério do Idoso foi uma das primeiras propostas anunciadas pelo presidente Lula da Silva, depois de confirmada sua reeleição. A ideia merece ser recebida com seriedade e espírito público. Como médica, vereadora e integrante da população idosa, conheço de perto os desafios do envelhecimento e apoio qualquer iniciativa que coloque esse […]

Luiz Augusto Araujo
03.11.2026
Você sabe se comunicar bem?

Você consegue expressar suas ideias com clareza? Sabe organizar o que deseja dizer, transmitir mensagens de forma objetiva e convencer as pessoas? Embora a comunicação esteja presente em praticamente todas as situações do cotidiano, nem sempre temos consciência de como nos comunicamos e de quais aspectos podemos melhorar. Para ajudar a responder a essas perguntas, […]

ANA CARLA ABRAO
02.11.2026
O Brasil que desperdiçamos

Quanto custa ao Brasil continuar sendo tão desigual? Não apenas em termos de injustiça social, de pobreza ou de oportunidades negadas a milhões de brasileiros. Quanto nos custa em crescimento, produtividade, segurança e prosperidade? E, talvez mais importante, quanto perdemos com a manutenção de uma sociedade que desperdiça tanto do seu próprio potencial? Em uma […]

Ricardo Menegatto
02.11.2026
Black Friday e os falsos descontos

A Black Friday se aproxima e, com ela, chegam as promessas de grandes descontos, ofertas por tempo limitado e oportunidades aparentemente imperdíveis. Em 2026, a principal data promocional do comércio será celebrada em 27 de novembro. Mas, em meio à expectativa de economizar, surgem situações que costumam gerar dúvidas e frustrações: a loja anuncia um […]

Edemundo Dias de Oliveira Filho
30.10.2026
A cegueira deliberada do oráculo

“A partir de certo ponto, as informações já não informam — deformam. Podem até obscurecer o mundo.” Byung-Chul Han Por que os diagnósticos — apenas ou embora certeiros — não ajudam a nação? Passadas as eleições, o Brasil não assistiu tão somente ao arrefecimento da beligerância. Assistiu, sobretudo, à sua consolidação como método de governabilidade. […]

André Naves
29.10.2026
Fim da escala 6 por 1: Prosperidade e Inclusão

A escala 6 por 1 – seis dias de trabalho para um de descanso – sempre cronometrou a semana de 14,8 milhões de trabalhadores brasileiros sem se importar com o quanto de vida sobrava depois do expediente. Quase nada. José Mujica, o presidente uruguaio que se tornou símbolo mundial de humildade, simplicidade e humanidade, costumava […]

José Ricardo Caixeta Ramos
29.10.2026
Educação sanitária, um dos pilares da defesa agropecuária em Goiás

Nos últimos três anos, a Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa) passou por uma transformação relevante em sua cultura organizacional. Tradicionalmente vista com receio pelo produtor rural, que associava a chegada de nossas equipes a possíveis multas e sanções, a Agência reinventou sua maneira de atuar. Hoje somos uma instituição parceira, que prioriza a orientação […]