São Paulo – A acirrada eleição entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) não será definida nos grandes centros urbanos nem no ambiente digital, mas pela capacidade de mobilização física das campanhas nos pequenos municípios. A avaliação é do cientista político Renato Dorgan, CEO do Instituto Travessia.
Há mais de 25 anos atuando em campanhas eleitorais, Dorgan afirma que o PT errou na leitura do cenário e fez uma campanha de primeiro turno “sem alma e sem disputa”, apresentando Lula “como se ele tivesse 70% de aprovação”. No segundo turno, o partido reagiu ao dar mais espaço a influenciadores e governadores bem avaliados do Nordeste. Já a direita se organizou de forma pragmática e acertou ao colar Flávio em “grandes players de voto”.
Com 25 anos de experiência em campanhas eleitorais, qual sua leitura sobre o debate de domingo?
Eu nunca vi aquele primeiro bloco de ofensas deliberadas. As ofensas eram calculadas nos outros debates. Eles (Lula e Flávio) ficaram 20 minutos se digladiando. E o que assustou o eleitor foi que eles não cederam. Nenhum dos dois chegou e falou: “Ó, vamos parar, conversar um pouco sobre propostas, sobre Brasil”. Esse talvez tenha sido o grande erro do Lula, porque o eleitor, principalmente o indeciso, esperou um pouco isso dele. De uma maneira ou de outra, o Lula tentou recuar, mas o Flávio vinha mais intenso no ataque e chegou uma hora que o Lula pôs o chapéu de vaqueiro e foi para a briga de faca. E eu não acho que tenha sido ruim deixar Lula e Flávio soltos. Esse modelo solto mostra realmente qual é o momento que a gente está vivendo. Não adianta mascarar. (O debate) mostrou uma face da intransigência, dessa falta de tolerância entre as duas partes e da incapacidade de firmar um diálogo normal.
Essa postura pode afastar o eleitor indeciso?
Muito. Pode ter um voto nulo considerável (no segundo turno).
No primeiro turno, uma pesquisa sua mostrou que quatro em cada dez brasileiros foram às urnas movidos por desânimo, revolta ou descrença. No segundo turno, tanto a esquerda quanto a direita conseguiram levar apoiadores às ruas. O que explica essa mudança de comportamento?
O PT disputa as grandes eleições presidenciais desde Collor, ou no polo da oposição, ou na situação. Mas, nesta eleição, não só a comunicação, como a mobilização e o ânimo do PT foram muito diferentes. Antes, o PT era quem colocava fogo na eleição desde o primeiro turno, de uma maneira que o outro lado tinha que ir para o embate e se organizar. Tinha campanha do PT em todo lugar do Brasil, eles tinham uma militância muito forte. Essa militância envelheceu em parte e ela não oxigenou direito. As novas lideranças não surgiram, e o PT fez um primeiro turno clássico. Parecia o PSDB antigo. Sem alma, sem disputa, com uma rede digital distante da realidade, colocando o Lula como se ele tivesse 70% de aprovação e fosse um líder sensacional, como se o Brasil estivesse voando. E não. A gente ouvia nas qualitativas críticas ao custo de vida. Quando vira para o segundo turno, eles acordam e aí virou a eleição com o PT como a gente conhece. E eles estão tracionando. Não sei se vai dar para ultrapassar, mas eles eram para estar bem atrás. Do jeito que acabou o primeiro turno, era para o Flávio ter saído com oito na frente.
O PT fez uma avaliação errada de cenário, então?
Muito errada. A comunicação também, eu achei que eles falharam muito no digital. Eles não usaram tão bem esses influencers novos que apareceram agora – Janones, Ana Elisa, Jones Manoel. A própria Erika Hilton foi mal aproveitada, e alguns candidatos deles mais jovens, como a Marília Arraes e a Juliana Brizola. Eles ficaram muito no negócio do Lula como um superestadista, uma coisa meio ficcional mesmo, fora da realidade.
E como você avalia as escolhas do Flávio ao longo dessa campanha?
Eu acho que o Flávio escolhe certo quando cola nos grandes influencers de voto, principalmente nos candidatos ao Senado. Ele começou a mapear quem eram os grandes players de voto e a se projetar junto com eles. Recompôs com o Nikolas (Ferreira), sentou na mesa com o Tarcísio, trouxe o prefeito de São Paulo. Com isso, começou a fazer uma soma gigantesca. Flávio é o síndico do prédio. Ele não é como o Lula, o dono da montanha. Ele é o síndico e tem todo um condomínio em volta dele. Claro, ele é o cara que tem o sobrenome do pai, que foi um líder eleitoral muito forte, e está inelegível, e ele conseguiu se impor de maneira hábil e se organizou politicamente de uma maneira bem interessante.
Quais ajustes cada campanha deve fazer para essa reta final?
Eu acho que o ajuste que o Lula está fazendo é visível: cercar-se desses influencers da política, rejuvenescer a eleição. Colocar também o pessoal da campanha de voto pesado, que são os governadores do Nordeste bem eleitos: o governador da Bahia, Jerônimo; o Rafael Fonteles, no Piauí; o João Azevêdo, na Paraíba, que fez o governador Lucas Ribeiro; a Fátima Bezerra, no Rio Grande do Norte; a Marília Arraes em Pernambuco. Eles têm densidade de votos. Essas pessoas entraram na campanha de uma maneira bem intensa, até para descontar o Nordeste, porque o Lula venceu nos Estados do Nordeste, mas não teve aquela superperformance de 2022.
Ficou abaixo, né?
Em muito lugar. (Os governadores) entraram intensamente para tentar conversar com esse eleitor de (classe social) C2D (grupo com renda média variando entre 1.100 e 2.600) através da mobilização física, nas pequenas cidades do Nordeste, onde não é fácil chegar porque o Wi-Fi é ruim, as pessoas não têm bons planos (de telefone). Não é fácil chegar nessas cidades pequenas, que têm muitos beneficiários de programas assistenciais do governo. Eles foram no chão agora e entraram de verdade na eleição e estão tentando virar voto no (eleitorado da classe) C2D. E o Flávio, para manter (a vantagem), é aquela política do “quem erra menos se dá melhor”. A tática dele é emparedar o PT e se encher desses políticos que tiveram boa votação no primeiro turno.
Nos últimos dias, Lula anunciou uma série de medidas com potencial impacto sobre o eleitorado, como o reajuste do Bolsa Família, o fim da escala 6×1 e o perdão das dívidas dos MEIs. Essas medidas podem conquistar apoio de parte da população ou o eleitorado rejeita medidas eleitoreiras?
É aquilo que falamos: eles acordaram realmente agora. É tardio porque o voto está cristalizado. Mas eu acho que pelo menos estanca a perda de votos. Não deixa o Lula perder votos.
Em uma disputa tão acirrada, o que vai ser decisivo para o pleito deste domingo?
O debate da Globo vai ser decisivo não muito pelo que eles falarem ou propuserem, mas muito pela atitude deles. Se tiver algum percalço, alguém cometer alguma gafe. Não só no que fala, mas em alguma atitude também. Eu acho que (a eleição se define) na mobilização física. Não nos grandes centros, mas nas pequenas cidades. O PT antigamente tinha essa mobilização e tinha o PMDB de vice. Não era de graça que eles colocavam o PMDB, não era só pelo Congresso, era pela capilaridade, o PMDB tem vereador em todas as cidades do Brasil. Põe um carro de som e fica falando o fim de semana inteiro: “Olha, o Flávio Bolsonaro vai acabar com o Bolsa Família”. Isso tem efeito. Como está empatado, vai ter uma mobilização física acirrada nos últimos dias.
Você acredita que existe um favorito neste domingo?
Hoje o Flávio está um pouco à frente, mas não dá para saber o que vai acontecer. O Lula pode vencer porque está em viés de subida muito tímido. Não ganhando muitos votos, não desconstruindo votos do Flávio, mas crescendo de alguma maneira dentro da abstenção e da indecisão.
Diferentemente das eleições municipais, em que partidos de centro e centro-direita, como MDB e PSD, saíram fortalecidos, a disputa para a Câmara e o Senado foi marcada por uma onda de candidaturas à direita. Esse resultado indica uma mudança no perfil ideológico do eleitorado brasileiro ou é fruto da maior capacidade de organização da direita?
Nesta eleição, a direita sentou na mesa e se organizou de verdade. Eles decidiram candidato por candidato ao Senado, principalmente, e para governador eles tiveram candidatos competitivos ou compuseram com candidatos centralizados. Distribuíram os recursos eleitorais para os deputados que tinham potencial. Eles investiram pragmaticamente. É diferente de 2018, que foi no improviso. A eleição de prefeito é cada vez mais diferente da presidencial, porque você tem que discutir a cidade. Não adianta chegar na eleição de prefeito e ficar só falando que o adversário é ladrão ou ficar falando de costumes, do Supremo Tribunal Federal. Prefeito é onde você vive, na cidade. Esses partidos centralizados têm mais políticos profissionais, tradicionais, que às vezes têm marcas locais e discursos para a cidade. Eles jogam mais no chão, trazem a eleição para o chão, não discutem a eleição nacional.
Lula ganhando ou perdendo, esta será a sua última campanha presidencial. A esquerda brasileira está preparada para seguir sem sua principal liderança? Vai sobreviver?
A esquerda brasileira vai ter que se remodelar. Não acho que esteja preparada. Acho que tem uma diferença eleitoral brutal. O Lula é um player que fura a bolha da esquerda. Ele, na verdade, é um popular assistencialista, é um candidato de massas, muito parecido com Getúlio Vargas. Se Lula perder, a esquerda vai voltar para uma realidade que teve entre 1988 e 1998, que é ser combativa, ser oposição nas casas legislativas, vai ficar muito reduzida a isso. A saída da disputa com essa direita mais forte estará na centro-direita, na turma do Kassab e do MDB, e na centro-esquerda, que saiu muito convalescida da disputa, com João Campos, Eduardo Leite.
A polarização política deve persistir nos próximos anos?
Com a derrota de Lula, acho que não. Vai ter um recuo pessoal dele, até pela idade, acho que não vai ser um player ativo, aí a polarização tende a diminuir e o Brasil vai voltar para a lógica dos anos 1980, que era disputa Arena e MDB. O PT era lateralizado, fazia pequenas bancadas, tinha uma representação estadual, com grandes quadros, mas não conseguia ter força majoritária.
E se Lula ganhar?
Aí continua a polarização, na minha opinião. Flávio, se perder, vai perder tendo praticamente metade dos votos do país. Esses influencers ganharam em massa, os senadores deles são fortíssimos, há governadores em vários lugares. Lula ganhando, a polarização continua; Flávio ganhando, não. Flávio ganhando a gente vai voltar à redemocratização. É o PDS, como se o Maluf tivesse ganhado a Presidência no Colégio Eleitoral do Tancredo Neves.
Flávio Bolsonaro tem defendido o fim da reeleição presidencial, o que mudaria o cenário para 2030. Mas, independentemente de quem vença a disputa de domingo, Tarcísio de Freitas já é apontado como um possível nome para a próxima corrida ao Planalto. Você acredita que Tarcísio tem condições de chegar competitivo à disputa de 2030?
O Tarcísio é uma espécie de neomalufismo. É muito parecido com Maluf: engenheiro, (adota o discurso de) rota na rua, (defende a) segurança forte, tem muita obra de infraestrutura. Mas, quando você vai dissecar o governo dele na capital e na Grande São Paulo, percebe vários problemas sociais, de saúde, educação, da Sabesp. A eleição é nacional, claro, mas tenho dúvidas do Tarcísio nos próximos quatro anos em São Paulo, porque ele vai ter também desgastes aqui. Essa eleição com o Haddad é uma eleição de pau a pau, 58 a 40, e o PT tem teto. Você não sabe ainda qual é a realidade eleitoral do Tarcísio. Se é esse player forte real eleitoral. Ele não sai de São Paulo como unanimidade. Talvez seja um nome projetável nacionalmente hoje e aí não interessa muito se ele é tão forte em São Paulo ou não, mas não acho que seja um nome tão forte assim, não acho que seja uma liderança que puxe tanto voto. As pessoas não vão votar no Flávio por causa dele; é muito mais por causa do Jair, da direita conservadora. Tarcísio ainda está dentro desse grupo, embaixo desse guarda-chuva.
