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Educador também precisa de acolhimento, escuta e diálogo durante a pandemia

23.09.2020 - 14:00:00
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A empatia é um sentimento ligado à compaixão, sensação que te faz sentir e compreender as emoções do outro para juntos acolhê-las! É por meio da compaixão que chegamos à capacidade de acolhimento, de fornecer abrigo, espaço de escuta e diálogo. Ante a pandemia da Covid-19, o meio educacional evidenciou a necessidade de acolher alunos, familiares e, principalmente, os educadores. 
 
Pesquisas mostram que o cenário de isolamento e aulas remotas intensificaram o estresse e desequilibraram a saúde emocional dos professores. Dados do Instituto Península do primeiro bimestre da pandemia, por exemplo, mostram que 53% dos 2,4 mil educadores consultados disseram estar muito ou totalmente preocupados com a própria saúde, com relatos de medo, ansiedade e insegurança. Já um estudo mais recente feito pelo portal Nova Escola, em julho, mostrou que, dos 8,1 mil professores participantes, 28% avaliaram a própria saúde mental como ruim ou péssima. Com a exigência de inovações, pressão para cumprir as atividades, manter alunos engajados, orientar pais e familiares nesse contexto se tornaram desafios que, por vezes, ocasionaram a piora do quadro emocional dos profissionais de educação. 
 
Dias de maior estresse requerem maior controle emocional, mas como fazer isso? Reconhecer as próprias emoções é o primeiro passo para que, a partir disso, o lado racional do cérebro construa novas direções, hipóteses e sensações. Um dos maiores problemas que vivenciamos atualmente é ignorarmos que os professores têm emoções e estão tendo de estar na linha de frente com os alunos e as famílias, prontos e dispostos, o tempo todo.  
 
No entanto, não basta apenas o educador que está, dia após dia, em contato direto com os alunos ter essa consciência e flexibilização cognitiva, pois o desenvolvimento socioemocional acontece em relação. A reflexão sobre a preocupação com o bem-estar emocional dos professores deve acontecer pela ótica da complexidade dos seres humanos, pois o ser humano é complexo. Sendo assim, as escolas precisam abrir espaços para diálogo e escuta, preocupando-se com a busca por soluções para melhorar, ou amenizar, o sofrimento do educador. 
 
A cobrança, quando necessária, deve surgir em formato de curiosidade. É necessário perguntar sobre o bem-estar, sobre a exaustão, propor alternativas para melhorar e motivar o empenho do profissional. O gestor precisa olhar para seus educadores como parceiros, promover uma dinâmica que permita que as emoções sejam compartilhadas, pois o processo de cuidado e acolhimento se torna relevante quando se tem voz para falar de suas dores e ouvidos para escutar a dor do próximo. 
 
Interagir uns com os outros, seja no meio profissional ou pessoal, é o que nos torna mais humanos, capazes de evoluir em diversos aspectos, principalmente no socioemocional. Sem a interação, como podemos exercitar a nossa capacidade de escuta e diálogo?
 
Em algum momento, as aulas presenciais serão retomadas. O medo para esse retorno é o sentimento que permeia muitos educadores, gestores, familiares e estudantes, ou seja, toda a comunidade escolar. Mas medo é o sentimento certo, pois através dele identificamos e fortalecemos a coragem. Habilidade essa que muitos professores passaram a reconhecer de forma determinante para um trabalho intenso nos últimos meses de ensino a distância e que vai exigir ainda mais quando for preciso receber presencialmente os alunos no ambiente escolar.
 
Dessa forma, é preciso reforçar o acolhimento do educador para prepará-lo para essa nova realidade, pois nesse momento todos voltamos a ser aprendizes. 
 
*Letícia Lyle é cofundadora da Camino Education e diretora da Camino School. Ela tem vasta experiência no desenvolvimento e implementação de metodologias de ensino, currículo e preparação de professores para o século XXI. Foi vencedora do Prêmio Early Career 2017 do Teachers College, da Columbia University, por seu trabalho com programas de aprendizado Social Emocional para estudantes de baixa renda no Brasil.  
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por Leticia Lyle

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