Logo
Carla Conti (Foto: divulgação)

Educar com consciência planetária é um compromisso com a vida

WhatsAppFacebookLinkedInX
14.02.2026 - 11:19:43

A universidade é, historicamente, a casa do conhecimento. É nela que se formam profissionais de todas as áreas e onde se outorgam diplomas que autorizam a atuação no mundo. Mas esse gesto formal carrega uma responsabilidade que vai muito além da formação técnico-científica. Em um cenário marcado por crises ambientais, desigualdades sociais persistentes e pelo esgarçamento das relações humanas, torna-se urgente perguntar: que tipo de mundo estamos ajudando a construir a partir da universidade?

Cada profissional formado impacta pessoas, territórios, culturas e ecossistemas. A atuação profissional, portanto, não se sustenta apenas em conteúdos disciplinares. Ela é atravessada por valores, saberes construídos ao longo da vida e escolhas éticas que se refletem diretamente nas formas de viver, produzir e se relacionar. Nesse sentido, o compromisso com a sustentabilidade não pode ser periférico, nem restrito a ações pontuais ou disciplinas isoladas. Ele precisa atravessar todas as áreas do conhecimento e orientar a formação humana.

É nesse contexto que a nova edição do meu livro “Sustentabilidade no ensino superior: uma prática transdisciplinar na formação de professores”, publicada pela Editora Scotti, se torna especialmente relevante. Lançada originalmente há 15 anos e agora atualizada, a obra retorna alinhada aos desafios contemporâneos ao propor uma formação docente comprometida com a vida, a cidadania, a cultura de paz e a preservação ambiental.

Parto de uma experiência pedagógica desenvolvida no curso de Letras, na qual a sustentabilidade da vida foi tomada como eixo unificador dos trabalhos de conclusão de curso. Relatos de estágio, planos de aula e projetos transdisciplinares revelam que é possível formar professores de língua portuguesa, literatura e inglês capazes de integrar, de forma crítica, temas como direitos humanos, valores humanos e consciência planetária em suas práticas pedagógicas.

Uma mudança efetiva de paradigma só se torna possível quando o conhecimento passa a ser compreendido como instrumento de enfrentamento das desigualdades. Garantir condições mínimas de vida precisa ser um objetivo central da formação universitária e, consequentemente, compor os currículos de todos os cursos. Isso exige uma formação que vá além da técnica, incorporando dimensões éticas, sociais e culturais como fundamentos da atuação profissional.

Na formação de professores, esse desafio é ainda mais evidente. O foco excessivo no desenvolvimento teórico e didático-pedagógico, aliado à uniformização das práticas, muitas vezes inviabiliza uma formação crítica do ponto de vista da sustentabilidade. A valorização de diferentes saberes (acadêmicos, comunitários, territoriais) é condição indispensável para a construção de comunidades mais saudáveis e conscientes de seu papel no mundo. Pensar de forma transdisciplinar é um exercício que se aprende na experiência, na abertura ao desconhecido e no respeito às diferenças.

A sustentabilidade, nesse sentido, não pode ser relacionada a uma dimensão ambiental ou econômica apenas. Trata-se de um modo de vida, profundamente cultural, que orienta escolhas individuais e coletivas e que possibilita a preservação e o aprimoramento das condições de vida ao longo do tempo. A fragmentação desse conceito enfraquece sua potência transformadora e limita sua atuação na construção de sociedades mais justas.

Minha trajetória como professora e pesquisadora na Universidade Estadual de Goiás reforça essa compreensão. Olhar para fora, para o outro, para o diferente, para o mundo que nos constitui é o que permite que práticas pedagógicas sejam orientadas pela defesa da vida e da dignidade humana. Projetos de extensão, pesquisas e ações formativas voltadas às demandas reais das comunidades demonstram que sustentabilidade e transdisciplinaridade não são abstrações, mas práticas possíveis e necessárias.

Não por acaso, meu livro dialoga com documentos como a Carta da Terra, a Carta da Ecopedagogia e a Carta da Transdisciplinaridade, que reafirmam a necessidade de uma educação comprometida com os direitos humanos e com a formação de cidadãos com consciência local e planetária. Esses documentos coletivos ampliam vozes, conectam experiências e fortalecem princípios éticos que orientam práticas educacionais transformadoras.

Formar cidadãos com consciência local e planetária significa reconhecer que não aprendemos apenas em livros ou salas de aula. Aprendemos nas relações, no conhecimento do território, de sua história, de suas limitações e potencialidades. Desenvolver essa consciência é compreender que as escolhas feitas em um lugar impactam vidas em outros, seja na migração, na exploração de recursos naturais ou nas desigualdades globais.

A educação, sozinha, não é capaz de reverter modelos econômicos e sociais predatórios. Mas pode insistir em uma perspectiva crítica, questionadora e comprometida com a vida. Pode formar sujeitos capazes de fazer escolhas mais conscientes e de atuar na construção de um futuro menos desigual.

Às instituições de ensino superior, fica a convocação: reforcem seus princípios de formação a serviço da humanidade. Todas as áreas do conhecimento podem e devem contribuir para um desenvolvimento que não sacrifique a vida em nome do progresso. Educar com consciência planetária não é uma opção. É um compromisso ético com o presente e com o futuro.

*Carla Conti é doutora em Políticas Públicas (UFRJ) e pós-doutora em Gestão da Informação pela Universidade do Porto. Professora da graduação e do mestrado em Educação na Universidade Estadual de Goiás, pesquisa educação em direitos humanos, gênero e tecnologias digitais. Mineira de Passos e residente em Inhumas (GO), dedica-se à escrita de obras que cruzam desenvolvimento pessoal e crítica social. É autora de Sustentabilidade no ensino superior, livro que retorna 15 anos após a primeira edição em meio às urgências ambientais e sociais contemporâneas, com apresentação de Anabela Simões (Universidade de Aveiro) e prefácio de Andrea Kochhann (UEG).

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Carla Conti

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Wil Caravanti
04.11.2026
Design de Imaginação

“Imaginação é mais importante que conhecimento.” Albert Einstein Antes de existir no mundo, muitas das grandes realizações humanas existiram primeiro na imaginação de alguém. Walt Disney imaginou na Flórida algo que ia muito além de um parque de diversões. Lúcio Costa e Oscar Niemeyer ajudaram a transformar em cidade uma ideia desenhada para o centro […]

Rose Cruvinel
03.11.2026
Ministério do Idoso é boa ideia, mas precisa ser eficiente

A criação de um Ministério do Idoso foi uma das primeiras propostas anunciadas pelo presidente Lula da Silva, depois de confirmada sua reeleição. A ideia merece ser recebida com seriedade e espírito público. Como médica, vereadora e integrante da população idosa, conheço de perto os desafios do envelhecimento e apoio qualquer iniciativa que coloque esse […]

Luiz Augusto Araujo
03.11.2026
Você sabe se comunicar bem?

Você consegue expressar suas ideias com clareza? Sabe organizar o que deseja dizer, transmitir mensagens de forma objetiva e convencer as pessoas? Embora a comunicação esteja presente em praticamente todas as situações do cotidiano, nem sempre temos consciência de como nos comunicamos e de quais aspectos podemos melhorar. Para ajudar a responder a essas perguntas, […]

ANA CARLA ABRAO
02.11.2026
O Brasil que desperdiçamos

Quanto custa ao Brasil continuar sendo tão desigual? Não apenas em termos de injustiça social, de pobreza ou de oportunidades negadas a milhões de brasileiros. Quanto nos custa em crescimento, produtividade, segurança e prosperidade? E, talvez mais importante, quanto perdemos com a manutenção de uma sociedade que desperdiça tanto do seu próprio potencial? Em uma […]

Ricardo Menegatto
02.11.2026
Black Friday e os falsos descontos

A Black Friday se aproxima e, com ela, chegam as promessas de grandes descontos, ofertas por tempo limitado e oportunidades aparentemente imperdíveis. Em 2026, a principal data promocional do comércio será celebrada em 27 de novembro. Mas, em meio à expectativa de economizar, surgem situações que costumam gerar dúvidas e frustrações: a loja anuncia um […]

Edemundo Dias de Oliveira Filho
30.10.2026
A cegueira deliberada do oráculo

“A partir de certo ponto, as informações já não informam — deformam. Podem até obscurecer o mundo.” Byung-Chul Han Por que os diagnósticos — apenas ou embora certeiros — não ajudam a nação? Passadas as eleições, o Brasil não assistiu tão somente ao arrefecimento da beligerância. Assistiu, sobretudo, à sua consolidação como método de governabilidade. […]

André Naves
29.10.2026
Fim da escala 6 por 1: Prosperidade e Inclusão

A escala 6 por 1 – seis dias de trabalho para um de descanso – sempre cronometrou a semana de 14,8 milhões de trabalhadores brasileiros sem se importar com o quanto de vida sobrava depois do expediente. Quase nada. José Mujica, o presidente uruguaio que se tornou símbolo mundial de humildade, simplicidade e humanidade, costumava […]

José Ricardo Caixeta Ramos
29.10.2026
Educação sanitária, um dos pilares da defesa agropecuária em Goiás

Nos últimos três anos, a Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa) passou por uma transformação relevante em sua cultura organizacional. Tradicionalmente vista com receio pelo produtor rural, que associava a chegada de nossas equipes a possíveis multas e sanções, a Agência reinventou sua maneira de atuar. Hoje somos uma instituição parceira, que prioriza a orientação […]