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Décio Gazzoni e Antônio Buainain

O papel do engenheiro agrônomo na realidade contemporânea

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25.02.2026 - 11:56:25

O Acordo entre o Mercosul e a União Europeia significa um marco histórico nas trocas comerciais no mundo, pela amplitude de países, população e valores financeiros (PIB e trocas comerciais) envolvidos. É um exemplo acabado da realidade comercial contemporânea. Do ponto de vista da União Europeia, as vantagens apontam especialmente para uma abertura de mercado envolvendo produtos de alto valor agregado, como os manufaturados (especiarias químicas, máquinas, equipamentos, veículos) e produtos agrícolas sofisticados (vinhos e outras bebidas alcoólicas, queijos, charcutaria, chocolates). De sua parte, os países do Mercosul preveem, mais especificamente, a ampliação do mercado de produtos agropecuários. De imediato fica estabelecido o vínculo umbilical com o engenheiro agrônomo, e a exigência de que seja um profissional preparado para enfrentar esse desafio.
O Acordo firmado não aponta para o estabelecimento de uma “zona de livre comércio, amplo e irrestrito”. Ao contrário, foram décadas de negociação e, apesar desse longo tempo, ainda persiste uma forte oposição do setor agropecuário europeu, liderada pela França, Irlanda e Polônia. Essa oposição prossegue, mesmo após a interposição das salvaguardas do Acordo, explicitamente destinadas a proteger os agricultores europeus, restringindo o efetivo potencial de um Acordo entre as partes.

Ressalvas dos agricultores europeus e suas consequências
São diversas as restrições apostas pelos agricultores europeus à implementação do Acordo, podendo ser divididas em quatro pilares fundamentais: 1. Assimetria de padrões ambientais e sanitários; 2. Concorrência desleal e custos de produção; 3. Impacto ambiental e desmatamento; 4. Soberania e segurança alimentar. Pormenores sobre esses temas se encontram em bit.ly/40f4De2.
Os países do Mercosul – Brasil entre eles – terão que obedecer ao conjunto de dispositivos do Acordo. Porém, especificamente, terão que atentar para as salvaguardas, que são uma tentativa das autoridades da União Europeia de obter a adesão dos agricultores ao Acordo. Essas salvaguardas merecem atenção especial de todos os elos das cadeias produtivas do Mercosul, aí incluindo-se os profissionais de Agronomia. Destarte, diversas medidas terão que ser implementadas para atingir esses objetivos, a fim de capturar as oportunidades potenciais que são vislumbradas no Acordo.
A Academia Brasileira de Ciência Agronômica está discutindo o papel do profissional de Agronomia dentro deste contexto, analisando especificamente sua formação, capacitação e habilidades. O marco referencial dessa discussão foi estabelecido em um webinário realizado no dia 11 de fevereiro, coordenado pelo primeiro autor deste artigo e apresentado pelo segundo autor, com a participação de acadêmicos e diversas lideranças setoriais.
O objetivo precípuo do presente artigo é suscitar a discussão de questões básicas sobre o profissional de Agronomia, para que ele possa se constituir em uma peça basilar na captura das oportunidades comerciais que potencialmente são vislumbradas com a implementação do Acordo – mas não restritas a ele! – que pode ser sintetizada na seguinte indagação: Estamos dispostos a liderar essa transformação ou preferimos apenas reagir às mudanças impostas pelo contexto internacional?

Questões para reflexão
A dinâmica da terceira década do século XXI é estonteante. Tudo ocorre em alta velocidade, quebrando paradigmas, dissipando vantagens, descortinando oportunidades. O Acordo Mercosul/UE é uma excelente oportunidade para questionar e repensar a atuação do engenheiro agrônomo.
No decurso do webinário foram apresentadas e discutidas diversas questões que merecem reflexão e debate, cujo objetivo final é o aprimoramento da formação, da capacitação e das habilidades, que potencializem a atuação do profissional de Agronomia. Elencaremos a seguir algumas delas, para promover a discussão sobre a temática, sem a ambição de esgotá-las, pois outras questões emergirão com o avanço do debate.

a. Formação acadêmica do profissional de Agronomia:
O ponto fulcral da discussão cinge-se ao que precisa mudar na formação e na prática, para que o profissional de Agronomia lidere esse novo cenário, sem prejuízo da fundamentação científica da profissão. Como corolário, deve-se questionar se as instituições de ensino superior estão preparadas e dispostas a promover as mudanças curriculares necessárias, em tempo hábil para que os objetivos que perseguimos possam ser atingidos, já no curto prazo. Mais especificamente propõe-se refletir sobre:
1. A formação acadêmica atual prepara o engenheiro agrônomo para atuar como agente de transformação, em cenários de alta complexidade, em contínua transformação e elevado grau de incerteza?
2. Entender e operacionalizar a regulação e o comércio internacional, com ênfase na economia, ética e direito ambiental, deve ser parte da formação do engenheiro agrônomo?
3. A formação do engenheiro agrônomo está preparada para capacitá-lo a “produzir e provar” (evidência auditável) — ou seguirá centrada em garantir a produção, sem incorporar o acesso aos mercados e suas exigências de verificação?
4. Estamos formando engenheiros agrônomos para planejar a resiliência (antes do problema) ou para reagir (remediação de prejuízos)?
5. Estamos formando engenheiros agrônomos com competências suficientes em gestão ambiental, certificação e auditoria para atender às demandas do Acordo?
6. Como integrar de forma efetiva as dimensões social e trabalhista na formação e na prática cotidiana do engenheiro agrônomo?
b. Experiência, vivência e habilidades do engenheiro agrônomo:
Paralelamente à uma formação básica adequada, também é importante analisar o conhecimento extracurricular, o aprimoramento permanente e a experiência profissional, que modulam o desempenho profissional. Como ponto de partida sugere-se refletir sobre os temas a seguir:
1. Como o legado histórico do engenheiro agrônomo no Brasil pode servir de base para enfrentar os desafios contemporâneos?
2. A correia de transmissão do desenvolvimento tecnológico está adequada, as informações estão disponíveis, chegam rapidamente e de forma prontamente aplicável aos engenheiros agrônomos que atuam diretamente no campo?
3. Há oferta adequada de cursos de reciclagem e aprimoramento profissional, que promovam a permanente atualização de conhecimento dos engenheiros agrônomos?
4. A habilidade de comunicação, permitindo dialogar com diversos públicos – do trabalhador rural aos mercados internacionais – deveria ser tratada como competência central do engenheiro agrônomo? Como ensinar isso em profundidade, sem o reducionismo de um “curso de oratória”?
5. Estamos desenvolvendo adequadamente as competências socioemocionais e transversais necessárias para o profissional de Agronomia contemporâneo?
Ferramentas e políticas necessárias à atuação profissional:
Finalmente, porém não menos importante, é imprescindível aprofundar a análise das tecnologias e outras ferramentas disponíveis para o exercício profissional, assim como das políticas públicas que afetam diretamente o desempenho do profissional de Agronomia. Assim, sugere-se pensar sobre:
1. Quais métricas de sustentabilidade são agronomicamente justas, quais narrativas devem ser consideradas e quais são “métricas de mercado”, pouco conectadas ao campo?
2. O que é mais difícil hoje: manejar pragas/doenças ou controlar o sistema de conformidade do controle de pragas, para atender certificações?
3. Como garantir que pequenos e médios produtores tenham acesso a sistemas de rastreabilidade sem que isso se torne uma barreira à atuação do profissional de Agronomia?
4. A transformação digital da agricultura está democratizando o acesso à tecnologia ou ampliando as desigualdades entre diferentes perfis de produtores?
5. As bases de dados são essenciais para o exercício profissional. Quem deveria gerenciar os dados obtidos na cadeia: produtor, cooperativa, indústria, plataforma, certificadora? Como o engenheiro agrônomo pode acessá-las, para um adequado exercício profissional?

O webinário referido acima está disponível no YouTube. A discussão se iniciou nesse evento, mas a intenção é que a mesma continue a ocorrer de forma transversal, abarcando profissionais e suas lideranças, as instituições envolvidas – em especial as universidades – para que os engenheiros agrônomos possam efetivamente desempenhar um papel de destaque, seja no âmbito do Acordo Mercosul/UE, ou em qualquer outra forma de comércio, doméstico ou internacional. E, em consequência, atender as demandas da sociedade e dos consumidores, obedecendo normas, padrões e protocolos de certificação, auxiliando na rastreabilidade dos produtos agrícolas, conferindo sustentabilidade aos sistemas agropecuários.

*Décio Luiz Gazzoni é engenheiro agrônomo, membro da Academia Brasileira de Ciência Agronômica
*Antônio Márcio Buainain, economista e advogado, professor titular da Unicamp. Ambos pertencem ao Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS)

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