Ainda tratamos a educação no Brasil principalmente como uma política social, quando deveríamos reconhecê-la também como uma das bases da prosperidade econômica. Uma sociedade que não consegue formar bem sua população terá mais dificuldade para aumentar a produtividade, gerar empregos de maior qualidade, elevar a renda das famílias, reduzir desigualdades e sustentar o desenvolvimento ao longo do tempo. Essas questões não pertencem a agendas separadas, mas fazem parte de uma mesma estrutura, e a educação ocupa uma posição central nessa relação.
Essa compreensão se torna ainda mais importante diante das transformações no mercado de trabalho, ao passo que a tecnologia modifica profissões, novas atividades econômicas surgem e empresas encontram dificuldades para contratar trabalhadores com determinadas qualificações. Enquanto isso, milhares de jovens concluem a educação básica sem encontrar perspectivas claras de inserção profissional e geração de renda.
O OECD Skills Outlook 2025 ajuda a compreender esse problema, cujo relatório mostra que as diferenças na formação de competências estão relacionadas às oportunidades de emprego, renda e mobilidade social e alerta que as necessidades do mercado de trabalho estão mudando rapidamente. Para a OCDE, os países precisam ser capazes de antecipar essas transformações e construir políticas educacionais que preparem as pessoas para participar do desenvolvimento econômico.
O Brasil ainda planeja educação, geração de empregos e desenvolvimento econômico como políticas que pouco dialogam entre si. Criamos estratégias para atrair investimentos sem discutir suficientemente quem ocupará os postos de trabalho gerados e ampliamos a oferta educacional sem perguntar quais transformações econômicas estão ocorrendo nos territórios onde os estudantes vivem.
É nesse ponto que a educação profissional ganha importância. Ela não deve ser compreendida como uma alternativa para quem não pretende chegar à universidade, mas como parte de uma estratégia capaz de conectar formação, trabalho e desenvolvimento. Em Goiás, tenho orientado gestores municipais a conhecerem suas vocações econômicas, identificar setores com potencial de crescimento e compreender quais competências serão necessárias nos próximos anos.
Isso não significa subordinar a educação aos interesses imediatos do mercado, afinal, uma boa formação precisa desenvolver autonomia, capacidade crítica e cidadania. Mas ignorar as transformações econômicas também significa limitar as oportunidades oferecidas aos jovens, especialmente àqueles que dependem da escola pública para construir suas perspectivas de futuro.
Goiás já viveu experiências que ajudam a compreender a importância dessa aproximação entre formação e desenvolvimento regional. A expansão da oferta de ensino superior para diferentes regiões do estado permitiu que cursos e áreas de formação dialogassem, em muitos casos, com atividades econômicas presentes nas localidades. Essa conexão amplia as possibilidades de qualificação profissional, fortalece a capacidade local de formar trabalhadores e cria condições para que mais pessoas tenham acesso a oportunidades de emprego e renda.
É justamente nesse ponto que a educação se transforma em instrumento de emancipação econômica. Quando um jovem desenvolve conhecimentos e competências que ampliam suas possibilidades profissionais, ele passa a ter mais condições de gerar renda, fazer escolhas e transformar a própria trajetória. A prosperidade deixa de ser simplesmente um indicador econômico e passa a representar a capacidade das pessoas de participar do desenvolvimento e aproveitar as oportunidades que ele produz.
Os resultados dos investimentos em educação não aparecem apenas no Ideb, no Saeb ou nas taxas de alfabetização. Eles aparecem na capacidade de um jovem conseguir um emprego de melhor qualidade, na renda que circula nas cidades, na produtividade das empresas, na redução das desigualdades e na possibilidade de uma região criar novas oportunidades para sua população.
Por isso, precisamos abandonar a ideia de que primeiro um país cresce para depois investir em educação. A relação também funciona no sentido contrário. É a capacidade de formar pessoas, desenvolver competências e ampliar oportunidades que cria as condições para um crescimento econômico mais duradouro e compartilhado.
Educação não resolve isoladamente todos os problemas de uma sociedade, mas nenhuma estratégia consistente de prosperidade pode existir sem ela. Se o Brasil pretende discutir desenvolvimento, produtividade, emprego e renda nos próximos anos, terá de colocar a formação das pessoas e a emancipação econômica no centro dessa agenda.
Manoel Barbosa é Mestre em Educação pela PUC Goiás e especialista em financiamento e gestão educacional.

Ótimas reflexões sobre o papel da educação na formação profissional cidadã, mola mestra para o desenvolvimento. Gostei.