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Desculpe, mas se morre

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03.02.2014 - 10:11:45
                                                                                                                                                                                  (Foto:divulgação)

Zurique – Existe morte mais indigna do aquela que chega pelas mãos do próprio filho? Ou o contrário, quando um dos pais mata o próprio filho? Existe atestado mais duro de derrota dos dois lados do que esse? Coutinho, cineasta e documentarista que nos emocionou com um olhar amigo e curioso focado em pessoas simples, em pequenas realidades, foi morto pelo próprio filho, que depois tentou se matar.

Não estamos em uma tragédia grega, mas na mais pura e dura realidade. E os sentimentos são os mesmos. Sentimentos arcaicos e contraditórios de amor e ódio, morte e vida.

"Todo homem mata aquilo que ama / o seu amor, o seu ideal. / Alguns com uma palavra de lisonja, / outros com um duro olhar brutal, / O covarde assassina dando um beijo, / o bravo, mata com um punhal.“ escreveu Oscar Wilde, que também morreu prematuramente por amar mais do que devia.

Como entender essa pulsão de morte ligada ao amor? O nome de uma doença não esclarece tudo. É apenas um rótulo a mais. O que é a esquizofrenia senão a incapacidade de viver e aceitar a realidade assim como ela é?

Como impedir que o desespero se transforme em algo tão brutal e definitivo? Como viver sob a ameaça constante de não se ter o controle dos mais básicos mecanismos de sobrevivência, confiar em quem se quer bem? Até que ponto a cabeça de quem que é capaz de encenar (sim, isso também é uma encenação) uma trágedia dessa proporção está comprometida? Vive em outra realidade? Como saber? Como medir? 

 
Gostaria de ter respostas, mas não as tenho. Tenho apenas susto. "Desculpem, mas se morre", nos explicou Clarice, mas não nos disse como separar o amor da morte. Não existem palavras que esclareçam e acalmem tanta dor, eu não as tenho, não nesse momento e provavelmente nunca as terei.
 
No entanto, o desejo de razão, de lógica permanece. Uma das maiores defesas do homem é a ilusão de poder entender e explicar o mundo a sua volta. E quando isso não é possível, o medo, o incômodo de viver aumenta. A culpa também está presente, mesmo se não diretamente envolvida. A culpa corrói. A culpa corrói o amor.
 
E talvez estejamos assim nos aproximando de uma possível explicação. A culpa está sempre envolvida em casos de amor e morte, mas não uma culpa real (que talvez nunca exista), mas uma culpa imaginária, que condena as duas pessoas envolvidas, os dois lados de uma mesma moeda. Amar e se sentir amado.
 
Sentir-se suficiente amado é algo subjetivo, como tudo relacionado ao verbo sentir. Como medir o amor? Como medir o amor entre pais e filhos? Como expressá-lo? Em que momento há um hiato, que impede a aceitação e a doação? Quando isso passa a acontecer com pessoas completamente normais e amáveis? Quando elas deixam de ser normais? Nunca saberemos.
 
A única coisa que sabemos é que "qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura", como disse o grande Rosa. E isso já é o suficiente para se ter esperança, para se tentar, até o último momento, até a última gota de razão, até a última ou penúltima chance de cura, dentro da eterna loucura diária de se tentar achar lógica para a falta de lógica da existência.
 
E para não dizer que não falamos de amor, não sabemos o que significa ou nos ajudar a entendê-lo, sempre vale o trecho da carta de Paulo aos Coríntios.
 
"Acima de tudo, o amor
Ainda que eu falasse línguas, as dos homens e dos anjos,
se não tivesse amor,
seria como sino ruidoso
ou como címbalo estridente.
Ainda que tivesse o dom
da profecia,
o conhecimento de todos
os mistérios e de toda a ciência; ainda que tivesse toda a fé,
a ponto de transportar montanhas, se não tivesse amor, nada seria.
Ainda que eu distribuísse
todos os meus bens aos famintos, ainda que entregasse
o meu corpo às chamas,
se não tivesse amor,
nada disso me adiantaria.
O amor é paciente,
o amor é prestativo;
não é invejoso, não se ostenta, não se incha de orgulho.
Nada faz de inconveniente,
não procura o seu próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor.
Não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade.
Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
O amor jamais passará.
As profecias desaparecerão,
as línguas cessarão,
a ciência também desaparecerá.
Pois o nosso conhecimento 
é limitado;
limitada é também a nossa profecia.
Mas, quando vier a perfeição, 
desaparecerá o que é limitado.
Quando eu era criança,
falava como criança,
pensava como criança,
raciocinava como criança.
Depois que me tornei adulto, 
deixei o que era próprio de criança.
Agora vemos como em 
espelho
e de maneira confusa;
mas depois veremos face a face. 
Agora o meu conhecimento 
é limitado,
mas depois conhecerei como sou conhecido.
Agora, portanto, permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e o amor.
A maior delas, porém, é o amor."

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por Cejana Di Guimarães

*Jornalista formada pela UFRJ e pela Universidade de Fribourg, Suíça. Vive há 20 anos em Zurique.

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