Logo
(Foto: Reprodução)

De bacamarte na mão, o Bandeirante vigia Goiânia há oito décadas

Monumento foi palco de manifestações políticas e sociais

WhatsAppFacebookLinkedInX
17.07.2026 - 17:13:58

Carolina Pessoni

Goiânia – Um homem com botas altas, chapéu largo, calça, gibão e cinto, armado com uma espada pendurada entre os ombros, um bacamarte na mão direita e uma bateia de garimpo na esquerda. Essa é a imagem que faz parte da paisagem do Centro de Goiânia há quase oito décadas, no cruzamento mais famoso da cidade, entre as avenidas Goiás e Anhanguera. Ali está o Monumento ao Bandeirante.

A escultura em bronze, projetada pelo escultor Armando Zago e com 3,5 metros de altura, pode passar despercebida para quem passa pela região cotidianamente. Entretanto, a estátua, que hoje divide espaço com ônibus e carros, carrega grande importância histórica. O monumento foi instalado no que era a Praça Attilio Corrêa Lima, que ficou popularmente conhecida como Praça do Bandeirante. Atualmente o local não tem mais a configuração de praça devido às adaptações feitas na Avenida Anhanguera, mas a estátua foi tombada como patrimônio histórico pela Prefeitura de Goiânia em 1991.

A cientista social Jordanna Fonseca investigou em seu mestrado (Quando o Anhanguera cruza Goiás: o Monumento aos Bandeirantes na nova capital) a criação e instalação do monumento em Goiânia. Ela conta que Goiânia recebeu a estátua como doação do Centro Acadêmico XI de Agosto da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. A estátua foi inaugurada no ano do Batismo Cultural, em 9 de novembro de 1942, alguns meses após as festividades e celebrações do evento.

@cs.drones

Estátua de Bartolomeu Bueno da Silva, localizada no cruzamento das Avenidas Goiás e Anhanguera. Foi inaugurada em 9 de novembro de 1942, criado pelo artista plástico Armando Zago. A escultura em bronze possui 3,5m de altura. Busca retratar o bandeirante, tendo em suas mãos uma bateia e armado de bacamarte. Bartolomeu foi alcunhado pelo índio de O Anhanguera por haver colocado fogo em álcool, fazendo-os acreditar que colocaria fogo nos rios, caso impedisse de levar as riquezas da terra. *Fonte: ipatrimonio.org Vídeo gravado em 31/05/24. #anhanguera #bandeirante #bartolomeubueno #avgoias #avanhanguera #indio #goiania #drone #dronedji #dronevideo #dronebrasil #dji #djivideo #djibrasil #djioficial

♬ Epic Inspiration – Kidmada

Jordanna explica ainda que o olhar altivo do personagem retratado, como mirando ao horizonte, promove à estátua uma imagem de liderança. “Os olhos da escultura e todo o seu corpo miram o Oeste, como uma referência à Marcha para o Oeste, patrocinada pela Fundação Brasil Central, nos anos 1930, sob o governo desenvolvimentista e nacionalista de Getúlio Vargas”, pontua.

Quando o arquiteto e urbanista Attilio Corrêa Lima projetou Goiânia, ele reforçou no memorial do projeto que era necessário ser erguido um monumento comemorativo às bandeiras, que descobriram as riquezas do Estado. Inicialmente o local planejado seria onde foi construída a Praça Cívica, mas a estátua foi erguida no cruzamento das avenidas Goiás e Anhanguera.

O monumento representa o bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva, filho de outro bandeirante que levava o mesmo nome e que ficou conhecido como “Diabo Velho”. Bartolomeu filho ficou conhecido como o “segundo Anhanguera” e foi o fundador do Arraial de Sant’Anna, que se tornaria Vila Boa, capital de Goiás, e, posteriormente, a cidade de Goiás.

 

(Foto: Hélio de Oliveira)

 

Jordanna esclarece que a ideia de construção do Monumento ao Bandeirante não surgiu do próprio Bartolomeu ou de seus familiares, mas de pessoas de destaque na sociedade goianiense da época que, de certa maneira, reconheciam seu legado e se identificavam com ele. “Anhanguera surge como o mito de origem do Estado, sendo realocado na nova capital”, explica a cientista social.

Antônio Sylvio Cunha Bueno encabeçou a Campanha Pró-Monumento aos Bandeirantes de Goiânia. Ele era presidente do Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), e teve a ideia depois de visitar a recém-criada capital de Goiás com um grupo de estudantes da Embaixada Universitária Paulista, que reunia acadêmicos das escolas superiores de São Paulo. A visita foi feita a convite do interventor federal em Goiás, Pedro Ludovico Teixeira.

Além de seu valor histórico e de ser um dos principais pontos de referência da região, o Monumento ao Bandeirante já foi palco de diversas manifestações sociais e políticas. O primeiro comício do movimento “Diretas Já” foi realizado na praça que havia no local e reuniu cerca de 5 mil pessoas. Já no fim da mobilização foi realizada também ali a maior manifestação pelo redemocratização do Brasil, que somou 300 mil pessoas em 13 de abril de 1984.

 

(Foto: Reprodução)

 

O local também recebeu movimento dos “Caras Pintadas”, que pediam o impeachment do presidente Fernando Collor de Mello, em 1992. Mais recentemente, foi cenário das Jornadas de junho de 2013, que começaram com protestos que criticavam o aumento das tarifas de transportes públicos, mas se estendeu também a outras pautas como a falta de investimentos em serviços públicos e reivindicações trabalhistas.

Memória
Em 2016, toda a documentação relativa à concepção, construção e inauguração do Monumento ao Bandeirante recebeu tratamento do Centro de Informação, Documentação e Arquivo da Universidade Federal de Goiás (Cidarq/UFG). O acervo está disponível para consulta pública digital (clique aqui).

Em 1987 os documentos foram doados por Edy Bittencourt Cunha Bueno e Dora Sylvia Cunha Bueno, respectivamente viúva e filha de Antônio Sylvio Cunha Bueno, o responsável pela campanha pró-monumento no fim da década de 1930. No acervo doado pela família estão telegramas, cartas, decretos-lei, recortes de jornais, entre outros, que retratam toda a movimentação para que o monumento fosse erguido. São 468 documentos textuais e 35 iconográficos.

Os documentos mostram que a campanha mobilizou os governos de Goiás e São Paulo, que entraram com o apoio financeiro. A empresa Coimbra Bueno, responsável pela construção de Goiânia, também empenhou esforços e custeou propagandas feitas em todo o país e as conferências realizadas em São Paulo.

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Carolina Pessoni

*Jornalista formada pela UFG, especialista em Assessoria de Comunicação e Marketing também pela UFG

4 comentários

  1. De noite quando todos estão dormindo os três homens do monumento as três raças descem a Avenida Goiás e dão um surra no Bandeirante depois retornam a praça cívica.

  2. kkkkkkk, boa!
    A história deixa marcas que a elite tenta esconder, mas basta algumas folheadas nos verdadeiros livros de história que se descobre as artocidades que os bandeirantes fizeram no Estado de Goiás. Da minha parte não sou a favor de homenagear esse tipo de figura.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Joias do Centro
09.10.2026
Monumento à Paz Mundial celebra união dos povos em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – “A terra é um só país e os seres humanos são seus cidadãos.” A frase de Bahá u lláh, fundador da Fé Bahá’í, inscrita no monumento de concreto na região central de Goiânia convida à reflexão sobre a existência humana. A citação é parte do Monumento à Paz Mundial, localizado no […]

Noite e Dia
07.10.2026
Galeria Léo Romano recebe exposição “Dinheiro Vivo”, de Vik Muniz; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A capital recebeu, nesta terça-feira (6/10), a abertura da exposição “Vik Muniz – Dinheiro Vivo”, na Galeria Léo Romano, no Setor Sul. A visitação é gratuita e segue até 31 de janeiro de 2027. Com curadoria de Daniel Rangel, a exposição reúne 13 trabalhos da série iniciada por Vik Muniz em […]

Noite e Dia
06.10.2026
Vila Cultural Cora Coralina recebe exposição de Vik Muniz; veja como foi a abertura

Carolina Pessoni Goiânia – A Vila Cultural Cora Coralina, em Goiânia, abriu, nesta segunda-feira (6/10), a exposição “Vik Muniz – REVER: imagem e reflexão”. Considerado um dos artistas brasileiros de maior reconhecimento internacional, Vik Muniz ocupa a Grande Sala da Vila Cultural Cora Coralina para apresentar, em Goiânia, um conjunto de 60 fotografias produzidas ao longo […]

Meia Palavra
06.10.2026
Primeira temporada de ‘Lanternas’ entrega uma competente trama de detetive com um tempero de super-herói

Terminou neste domingo, na HBO Max, a primeira temporada de Lanternas, uma ousada reimaginação mais madura para os Lanternas Verdes, basicamente os policiais cósmicos do universo DC, muito conhecidos pelos leitores, mas não tão conhecidos pelo grande público. Nesta nova DC cinematográfica capitaneada por James Gunn, havia a dificuldade de introduzir esses personagens sem sobrecarregar […]

Noite e Dia
05.10.2026
André Rocha é reconduzido à presidência da Fieg; veja como foi o evento

Carolina Pessoni Goiânia – A Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg) realizou nesta segunda-feira (5/10) a eleição de sua Diretoria Executiva para o quadriênio 2027-2030. O pleito confirmou a recondução do empresário e engenheiro civil André Luiz Baptista Lins Rocha à presidência da Federação. Com foco voltado ao aumento da competitividade da indústria […]

Joias do Centro
02.10.2026
Estádio Olímpico: há 85 anos palco de celebrações do esporte em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Localizado na Avenida Paranaíba, bem no Centro de Goiânia, está o estádio de futebol mais antigo da capital. Fundado em 1941, o Estádio Olímpico Pedro Ludovico Teixeira, mais conhecido apenas como Estádio Olímpico, é parte da história da capital e cresceu junto com ela, fazendo parte de sua trajetória no esporte […]

Noite e Dia
30.09.2026
Basileu França abre exposição e apresenta espetáculo musical em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Escola do Futuro de Goiás (EFG) em Artes Basileu França abriu, na última segunda-feira (28/9), a exposição “Cidades: Entre Memórias, Sonhos e Futuro”, na Galeria de Arte da instituição, em Goiânia. No mesmo dia, o Teatro Escola recebeu o espetáculo “A Noite do Rei”. A programação reúne trabalhos de estudantes de […]

Meia Palavra
30.09.2026
‘Unabomber’ não fica à altura de um dos crimes reais mais curiosos dos EUA

Estreou na Netflix Unabomber, um novo filme que tenta recontar a história fascinante do assassino e terrorista doméstico Ted Kaczynski, o titular Unabomber, que apavorou os Estados Unidos com atentados a bomba por várias décadas antes de finalmente ser capturado em meados dos anos 1990. Infelizmente, apesar de seus méritos, o filme não consegue ficar […]