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Dante Alighieri e Egídio Turchi em homenagem literária

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05.02.2021 - 12:11:48

O ano de 2021 marca no calendário da historiografia literária os sete séculos de falecimento do poeta Dante Alighieri. Certamente, não faltarão homenagens mundo afora. O estado de Goiás já se adiantou às iniciativas, pois no apagar das luzes do último ano a bibliografia em torno do célebre florentino foi enriquecida com a publicação da obra “Dante Alighieri: O Poeta, O Místico e O Enamorado”. Organizado pela Dra. Suzana Yolanda Machado Cánovas, Dra. Sueli Maria de Regino e pelo Dr. Kelio Junior Santana Borges, o livro foi publicado pela Editora Kelps em parceria com a Faculdade de Letras e a Universidade Federal de Goiás.

A obra é composta por uma coletânea de artigos e ensaios sobre multifacetados ângulos da obra-prima de Alighieri, nascendo da iniciativa didática dos organizadores a partir de curso sobre o poeta florentino ministrado no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Goiás há alguns anos. Dentre os autores que comparecem com trabalhos tematicamente voltados para a verve literária do grande poeta ocidental, a obra destaca a participação do saudoso professor Egídio Turchi, italiano de nascimento e goiano de coração, que chegou a Goiânia nos idos de 1930 e, bem ao contrário do antropólogo Claude Levi-Strauss, apaixonou-se pela nascente capital.

O emérito latinista italiano constituiu família em Goiás, tornando-se nome exponencial na historiografia educacional do estado. De sua respeitável família, destacam-se nomes como a pesquisadora Dra. Celina Turchi, reconhecida mundialmente em sua área de atuação, e a Dra. Maria Zaíra Turchi, uma das maiores autoridades brasileiras em pesquisa que relaciona a epistemologia do imaginário e a da literatura. Ambas são professoras eméritas da Universidade Federal de Goiás. Compõe, ainda, a nobre família, a professora Celenita, esposa de Egídio Turchi. Ao lado do esposo, Celenita foi importante latinista que durante muitos anos lecionou a matéria na Faculdade de Letras da UFG.

“Dante Alighieri: O Poeta, O Místico e O Enamorado” abre suas páginas ensaísticas com o poema “Ave, Egídio”, de autoria da ex-professora da Faculdade de Letras, Darcy França Denófrio, em uma belíssima homenagem ao professor Turchi. A coletânea traz, ainda, textos de apresentação das professoras Maria Zaíra Turchi e Vera Maria Tietzmann. Ambas lecionaram e atuaram como pesquisadoras junto à Faculdade de Letras da UFG, deixando importantes e pioneiras contribuições em profícua parceria no campo da literatura infanto-juvenil.
 
Os múltiplos de Virgílio
Em “O Nascimento do Purgatório”, o historiador francês Jacques LeGof relata toda a trajetória heurística, religiosa e cultural que culminou no estabelecimento da doutrina do purgatório por parte da igreja romana. Em suas considerações anagógicas (aquelas que permitem o trânsito entre a natureza literária de uma obra e sua abordagem mística), LeGoff afirma que “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri, pode ser considerada a certidão de nascimento literária do purgatório.

A afirmação do importante especialista do medievo não é pouca coisa. Sua afirmativa deixa consignada a força cultural da literatura imaginativa, que encontra em Alighieri uma força da natureza capaz de encorpá-la. Críticos como o norte-americano Harold Bloom definem a força poética do bardo florentino através da expressão “gênio criativo”. No artigo do professor Egídio Turchi, autêntica aula-magna que abre o volume, intitulado “A Divina Comédia: da fala vulgar à linguagem poética”, o saudoso mestre expõe sua vasta erudição em torno do amplo contexto que cercou a produção da obra por Dante Alighieri.

A motivação para a sua escrita partiu de crítica realizada pelo poeta Ferreira Gullar à defesa que muitos ainda realizavam fora da Itália ao portento literário de “A Divina Comédia”. O roteiro de uma viagem ao mundo dos mortos significava para o poeta maranhense algo canhestro, “fruto de uma crendice pueril e dogmas sem sentido”. Em Goiânia, o esguio escritor repetiria suas diatribes literárias contra Alighieri. Estava dado o tom. Egídio Turchi se levanta em defesa do icônico conterrâneo com a exposição de motivos que faz de sua obra presença garantida em qualquer cânone possível ou passível de ser organizado.

Do artigo turchiano constam dados preciosos para o estudioso compreender o poema de Alighieri: Dante e sua época; seu credo religioso e político; por que o nome “Comédia”; estrutura do poema e seu resumo literal e alegórico; a língua e a linguagem poética. São estes os tópicos que enformam o estudo de Egídio Turchi e dão a sua dimensão cultural ao abordar a obra de Alighieri em uma perspectiva que bem contextualiza a época em que o poeta viveu, seu amor platônico por Beatriz, suas aventuras e desventuras políticas. Destaca Turchi, em consonância com o parecer do crítico norte-americano Harold Bloom, a extraordinária capacidade de trabalhar a palavra de que Dante era dotado.

O professor Turchi funciona em seu artigo ensaístico, para o leitor, como um êmulo de Virgílio no contexto estrutural de “A Divina Comédia”. Ou seja, assim como o autor de “A Eneida” toma o poeta sob sua proteção para ciceroneá-lo pelos estratos do inferno e do purgatório, entregando-o a Beatriz no pórtico do paraíso, o professor homenageado em “Dante Alighieri: O Poeta, O Místico e O Enamorado” também serve de guia para o leitor compreender como funciona a obra máxima de Dante.

Neste contexto, os demais autores funcionam também como múltiplos de Virgílio, pois apresentam em seus trabalhos aspectos importantes no campo da informação e da exegese literária, contribuindo para a imensa fortuna crítica do poeta nascido na Florença do século 13. Somados a Egídio Turchi, constituem eles um corpo coletivo na defesa do legado dantiano, independente das críticas de Gullar ou de quaisquer outras, como as de Voltaire e a de Nietzsche, citadas por Turchi em seu artigo. Além dos organizadores, que apresentam também os seus trabalhos, constam da autoria coletiva de “Dante Alighieri: O Poeta, O Místico e O Enamorado” pesquisadores e professores de várias universidades e instituições outras de ensino e pesquisa, públicas e privadas, nacionais e internacionais.

A Egídio Turchi e aos organizadores, pois, somam-se os nomes de Ailish Wallace-Buckland, pesquisadora da Nova Zelândia; Alessandra Conde, docente da Universidade Federal do Pará; Andréia F. de Melo Cunha, docente da rede particular de ensino de Goiás; André Perez da Silva, do Instituto Federal de Goiás; Henriete Karam, docente da Universidade Federal do Rio Grande do Sul; Ilma Socorro Gonçalves Vieira, docente do Cepae/UFG; Isabel de Souza Santos, professora da Rede Estadual de Educação de Goiás; Letícia Cristina Alcântara Rodrigues, doutora em Letras e secretária executiva da UFG; Margareth de Lourdes Oliveira Nunes, docente de Letras da UFG; Thalita Sasse Fróes, professora da Faculdade de Informação da UFG e Thiago César Viana Lopes Saltarelli, professor adjunto da Universidade Federal de Minas Gerais.

De nossa autoria, representando o Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte, da Seduc-GO, consta da obra recém-publicada o artigo intitulado “Os anjos de Bloom e o locus infernal em John Milton e Dante Alighieri”, trabalho que explora o comparatismo entre dois autores que dialogam de maneira bastante aproximada no contexto anagógico da literatura. Assim, “Dante Alighieri: O Poeta, O Místico e O Enamorado” representa um trabalho coletivo que presta uma justa homenagem a um grande poeta da literatura ocidental e ao mesmo tempo homenageia um emérito educador de gerações de goianos.
 
* Gismair Martins Teixeira é pós-doutorando em Ciências da Religião pela PUC-GO; doutor em Letras e Linguística pela Faculdade de Letras da UFG; professor do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Are/Seduc-GO.

 

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por Gismair Martins Teixeira

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