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Da arte de ser Fênix

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09.04.2012 - 11:51:45

 
“Eu sou aquela mulher
a quem o tempo
muito ensinou.
Ensinou a amar a vida.
Não desistir da luta.
Recomeçar na derrota.
Renunciar a palavras e pensamentos negativos.
Acreditar nos valores humanos.
Ser otimista.”
Ofertas de Aninha (Aos Moços) – Cora Coralina

 

Impossível não se emocionar com a história da fisioterapeuta Cristina Lopes Afonso, retratada ontem em reportagem exibida pelo Fantástico. Em 1986, com 20 anos de idade, ela teve 85% do corpo queimado pelo ex-namorado. Inconformado com o fim do namoro, ele jogou álcool sobre ela e ateou fogo, sem dar tempo para fuga. 
 
Depois de passar por 24 cirurgias plásticas reparadoras e lutar para curar as cicatrizes físicas e emocionais da agressão, Cristina resolveu dedicar a vida a ajudar outras pessoas que foram vítimas de queimaduras. Hoje ela trabalha no Núcleo de Proteção aos Queimados, em Goiânia, auxiliando os pacientes no processo de reabilitação.
 
Interessante perceber como determinadas pessoas agem quando levam uma rasteira do destino. Enquanto há quem se vitimize e passe a culpar alguém ou alguma situação por sua amargura e tristeza, outras entendem que são protagonistas da própria história e escolhem ser felizes, por mais difícil que isso possa parecer.
 
Pessoas que sofrem queimaduras não enfrentam apenas a (enorme) dor física que a ferida traz. Precisam lidar com a reconstrução de sua identidade, pois o corpo de antes muda radicalmente e elas têm de reaprender a se reconhecer na própria pele. Sem contar com o preconceito de quem as subestima por suas cicatrizes.  
 
São muitas e bruscas transformações, num curtíssimo espaço de tempo. Movimentos limitados, vaidade abalada, longos períodos de internação, recuperação pós-cirúrgica traumática, sessões de fisioterapia constantes, enfim, uma verdadeira maratona. Haja coragem para suportar tudo isso, para não entregar os pontos de vez.
 
A reportagem sobre a história de Cristina é uma boa mostra da dureza do caminho rumo à recuperação. Mas também tenho bem pertinho de mim outro grande exemplo de superação de queimadura. Um exemplo de alguém que também não se entrega, que se recusa a se entristecer pelo fato de portar uma cicatriz eterna.
 
Há seis anos, uma grande amiga foi vítima de um acidente doméstico e teve as duas mãos queimadas por óleo fervente. Experimente ficar três anos sem poder utilizar suas mãos, com os movimentos extremamente limitados, e você terá uma leve noção do que ela passou. Pense em como comer, pentear o cabelo e digitar nessa situação.
 
Fora isso, imagine as dores das cirurgias reparadoras e da tentativa diária de impedir que a pele cumpra sua vontade de se repuxar inteira. Por fim, pense na extensão das cicatrizes, que não podem ser encobertas nem minimizadas, pelo simples fato de que ficam em membros que não temos como esconder.
 
Mas esconder suas cicatrizes é justamente o que essas duas mulheres não querem. Enquanto passamos a vida tentando forjar uma falsa perfeição, buscando disfarçar os sinais que o tempo nos deixou, elas exibem com orgulho suas marcas, pois sabem que elas são uma prova de força, resistência e, principalmente de amor à vida.
 
Somente quem ama a vida de forma incondicional é capaz de se rebelar contra o impulso de desistir e seguir em frente. Seguir com alegria, entusiasmo e vontade, sabendo que enquanto existir fôlego nos pulmões haverá uma boa razão para se sorver da vida o que ela tem de mais doce e feliz. 
 
Páscoa é renascimento. Que possamos nos inspirar no exemplo dessas mulheres para renascer cada vez mais fortes diante dos revezes da vida. Que façamos como Fênix, que sempre que se sentia enfraquecer, incendiava o próprio corpo para depois ressurgir mais plena e bela das cinzas.
 
Muitas vezes nossos sonhos e planos são lançados na fogueira da vida. Mas o que arde entre as chamas é só o que pode ser consumido pelo fogo. O essencial, a nossa alma, esse espírito indomável que resiste a tudo e a todos, sempre sobrevive. E sobrevivendo, cabe a nós seguir o conselho de fé da poetisa Cora Coralina, que tantas vezes ressurgiu das cinzas: “Antes acreditar do que duvidar”.
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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