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Contra a ilusão do controle

26.11.2025 - 10:40:36
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Enquanto você me lê esta semana, estarei num raro lugar remoto do mundo: a Terra Indígena Kaxinawá, na alta bacia do Rio Juruá, perto da divisa entre Acre e Peru.
 
Tenho vários motivos para celebrar essa viagem. Conhecer de perto mais um povo indígena da Amazônia — o primeiro do tronco linguístico Pano —, visitar o Acre, um dos poucos estados brasileiros a que ainda não tinha ido (restarão apenas Piauí e Amapá) e, de quebra, passar uma semana offline. Ou quase: soube que há Starlink na aldeia e que terei portanto a experiência inusitada de ver a final da Libertadores entre os Huni Kuin, nome pelo qual esse povo se reconhece.
 
Em um texto no começo do ano, comentei que sentira falta, ao fazer um dos circuitos de trekking no Parque Nacional Torres del Paine, da sensação de isolamento e de abandonar a cultura do “pé limpinho”. O turismo ali se massificou e se estruturou de tal forma que sempre é possível estar conectado — e manter os pés limpos.
 
A ida aos Huni Kuin talvez seja boa para deixar o WhatsApp de lado por alguns dias, dormir com os pés sujos e, quem sabe, me encharcar num temporal amazônico enquanto subimos, horas a fio, o Rio Jordão rumo à aldeia.
 
Os Kaxinawá ocupam um vasto território de floresta tropical, do sopé dos Andes, no Peru, ao sul do Amazonas, passando pelo Acre, nas altas bacias dos rios Juruá e Purus, e também no Vale do Javari. Sua organização social é marcada por clãs patrilineares, distribuídos em aldeias ao longo dos rios. A espiritualidade é central, articulada por rituais como os da ayahuasca — para eles, nixi pae. A relação com a floresta envolve técnicas de cultivo, caça, pesca e coleta que combinam conhecimento ancestral e adaptação constante desde os primeiros contatos, ao longo do século 18 e, depois, durante o Ciclo da Borracha, no século 19, que trouxe trabalho forçado, deslocamentos e epidemias. Ainda assim, apesar das pressões históricas, os Huni Kuin mantêm viva uma rica cosmologia que orienta formas próprias de existir, aprender e curar.
 
Viajar a lugares remotos envolve riscos, e é curioso como vivemos numa cultura estruturada em torno da ilusão de que podemos eliminá-los. Enquanto interferimos no clima do planeta, nos entupimos de ultraprocessados e mantemos nossas crianças cativas das telas para que “não se arrisquem” nas ruas, criamos verdadeiro pavor de ficar alguns minutos offline — “e se meus filhos precisarem de mim?” — ou de qualquer distanciamento da infraestrutura urbana — “e se eu precisar de uma transfusão de sangue?”.
 
Pensei bastante nisso durante a última semana. Primeiro, pela oportunidade de conversar com Tamara Klink, relatada aqui. Depois, pela tragédia que acometeu um grupo de turistas justamente em Torres del Paine, onde estive com Felipe, meu filho, em janeiro.
 
Dois alemães, dois mexicanos e um britânico morreram ao serem pegos por uma violenta tempestade no parque chileno enquanto faziam o famoso Circuito O, uma das trilhas mais procuradas de lá. Como ocorreu no caso da brasileira Juliana Marins, morta em um vulcão na Indonésia, as redes sociais voltaram a exalar seu chorume. Se naquela ocasião sua morte foi capturada por todo tipo de narrativa tosca — dos que culparam o machismo estrutural aos que xingaram os indonésios —, agora, proliferam insultos sobre uma suposta irresponsabilidade das próprias vítimas, que teriam “desrespeitado a montanha”. Em comum, essas acusações em geral são feitas por pessoas do conforto de suas casas sem nunca terem estado nos Andes ou numa montanha tropical como o Vulcão Rinjani.
 
No caso mais recente, é legítimo discutir o sistema de segurança e de gestão de riscos do parque e até a privatização das trilhas, que pode estar expondo demasiadamente as pessoas. Também é preciso considerar se as mudanças climáticas tornam ainda mais instável um clima que já era famoso pela instabilidade. Mas isso não é o que importa aqui.
 
Mesmo com sistemas de segurança cada vez mais sofisticados, a graça de ir a lugares como Torres del Paine ou o Monte Rinjani reside, em alguma medida, na exposição ao desconhecido. Cada um sabe qual da sua tolerância ao risco, mas enfrentá-lo faz parte do amadurecimento e do que dá sentido à vida. Aceitar o risco de estar vivo — e, portanto, de morrer — nos obriga a olhar para o tamanho do mistério, para o quanto sabemos pouco e para nossa insignificância no vasto esquema das coisas.
 
Na semana que passou, durante a COP 30, em Belém, fui surpreendido, no meio do Parque Emílio Goeldi — um fragmento de floresta no centro da cidade —, por uma brutal tempestade amazônica. Encharcado, me abriguei na varanda de uma das velhas casas do museu e fiquei observando a força dos ventos e da água sacudindo castanheiras, jequitibás e cedros. Os trovões me devolveram a mesma sensação da infância durante temporais: um encantamento amedrontado pela imensidão do mundo e pela força da natureza. Não é tão ruim assim ser um ponto insignificante numa galáxia insignificante num universo sem fim.
 
 
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