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Construindo uma cidade literária…

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22.04.2014 - 18:16:02
Goiânia – Não sei o que será de mim e que lugar ermo habitarei. A cada ano por que passo, estou me tornando mais ranzinza, porque demasiadamente sensível à poluição do mundo, ao excesso de cores, de palavras, de luzes, de ruídos, que há nas ruas, nas casas, em nós.

Quando dirijo, incomodam-me as fachadas berrantes das lojas, seus neons, nomes de duvidoso gosto, os panfletos que nos enfiam janela adentro e retina atrás nos semáforos. Quando vou a um shopping ou supermercado, implico com as marcas que se tornaram franquias e que são vistas em todos os lugares e ao mesmo tempo com a diversidade de marcas de produtos arregaladas nos rótulos. 
 
Horrorizo-me com o burburinho de vozes humanas, misturadas ao som ambiente: as mesmas músicas sempre, os hits da moda. O amigo iraniano de um amigo brasileiro disse recentemente que achava o Brasil um lugar encantador, mas que notara, das últimas vezes  em que aqui estivera, que o país está se tornando a cada dia mais "alto", ou seja, mais ruidoso.
 
Vejo-me de repente sonhando com um passado remoto que nem cheguei a conhecer, com uma garrafinha de leite em que estivesse escrito apenas LEITE, com um saco amarelado de pão em que nada estivesse inscrito e cujo conteúdo só fosse reconhecível pelo aroma, ou então com um daqueles papeis esverdeados com que muito antigamente o pão vinha embrulhado (isso sim, conheci). Em casa, por pouco não me torno uma maníaca, substituindo as embalagens por vidros e recipientes plásticos transparentes, nos quais, para não gerar confusões, colo uma fita adesiva escrita AÇÚCAR ou SAL.
 
Não tão repentinamente assim, sinto-me farta de tanta competição pela nossa atenção de consumidores: marcas que gritam em crescente volume, embalagens cada vez mais coloridas, anúncios disso e daquilo, roupas com estampas demais, brilhos e penduricalhos demasiados.  É um excesso de aparência que parece nos roubar a substância. Assisto cada vez menos à tevê. Rádio, ouço pouquíssimo e logo o desligo assim que começam os comerciais.
 
Implicância inútil, eu sei. Manias de quem já envelhece, assim me parece. E como subterfúgio, coloco-me a sonhar com cidades irreais, talvez não ainda as Cidades Invisíveis de Ítalo Calvino, talvez não também as Cidades Inventadas de Ferreira Gullar, mas meus próprios pequenos universos urbanos silenciosos e limpos, cidades onde em uma esquina se encontrasse uma padaria chamada apenas PADARIA e em outra uma farmácia apelidada somente DROGARIA.  

E dando arquitetura à imaginação – necessito exilar-me já que nunca saí do exílio do estranhamento e do não pertencimento ao meu lugar e tempo – imagino uma cidade com fachadas brancas e letreiros pretos, totalmente literária, onde os nomes ordinários dos estabelecimentos comerciais dessem lugar a títulos de livros de autores que sobreviveram ao tempo e marcaram a história do mundo. 
 

Um lugar assim seria habitado por outros que como eu estão saturados da informação superficial, da publicidade, do consumo vazio e que necessitam se refugiar na arte, na ficção, para suportar o raso da vida. Ao contemplar as fachadas desses estabelecimentos, vislumbraríamos lá dentro, não apenas produtos perecíveis, bens duráveis, serviços essenciais e supérfluos, mas a história de nossa humanidade, nossos conflitos, nossa confusão de valores e a milenar procura pelo sentido da vida.
 
Assim, imagino lojas de produtos agrícolas com nomes como O apanhador no campo de centeio, As vinhas da ira, Vidas Secas, Lavoura Arcaica. Sei que não parecem muito auspiciosos, mas a colheita nem sempre é boa; a vida traz tantas intempéries, às vezes chove, outras bate sol e nem sempre isso ocorre no momento oportuno. Essa cidade imaginária seria um lugar cheio de franqueza, ironia e sutileza.

Teria um comércio de artigos de pesca chamado O velho e o mar ou Moby Dick ou Robison Crusoé, por mais distante que se estivesse do oceano. Uma financeira poderia chamar-se Crime e castigo. Sim, este seria um caso daqueles estabelecimentos cujos proprietários praticariam a autossabotagem. Mas não há realmente muitos por aí, nas cidades de carne, concreto, asfalto, metal e osso, que na escolha de seus nomes já prenunciam o seu próprio fracasso nos negócios ou na existência? 
 

E haveria motéis chamados O amante de Lady Chatterley ou quem sabe Madame Bovary ou Libertinagem ou quem sabe ainda o clube de swing Dona Flor e seus dois maridos. Por falar em flores, que tal uma charmosa floricultura Para uma menina com uma flor? Uma pet shop Olhos do cão azul? Um açougue O fio da navalha? Uma escola infantil O jogo da amarelinha ou Memórias Inventadas.

Uma clínica psiquiátrica O elogio da loucura. As casas de shows de striptease seriam um espetáculo linguístico à parte, expressando todos os paradoxos desses espaços, dos Esplendores e misérias das cortesãs e das Memórias de minhas putas tristes. Quem quisesse encontrar, além de shows rebolativos, relaxantes massagens poderia frequentar lugares chamados Travessuras da menina má.  A melhor boate gay dessa cidade seria  sem dúvida a Orlando.
 

Mulheres poderiam comprar suas roupas na Bonequinha de luxo e realizar tratamentos embelezadores na clínica de estética A mulher de trinta anos e ainda fazer sessões de bronzeamento artificial em A Moreninha. Serviços póstumos poderiam ser encomendados às funerárias Crônica de uma morte anunciada ou Memórias póstumas de Brás Cubas. Pacotes de viagem seriam adquiridos na Viagem Vaga Música de uma agente de olhos claros e tristes chamada Cecília, ou ainda na Viagem à roda do meu quarto ou em Se um viajante numa noite de inverno ou ainda A volta ao mundo em oitenta dias.
 
Para tomar uns tragos, nada como frequentar Um copo de cólera ou Diário de um jornalista bêbado. Uma lauta refeição seria servida no restaurante O Banquete. Em um mundo que tanto exalta a beleza, ensaios fotográficos seriam feitos nos estúdios O retrato de Dorian Gray, Retrato do artista quando jovem e Retrato de uma senhora.

Ah, e os livros… Nessa cidade haveria abundantes livrarias para todos os gostos: Histórias extraordinárias, Ficções, Histórias de cronópios e de famas, Cartas a um jovem poeta, A casa do poeta trágico.  E lojas de instrumentos musicais como O som e a fúria, O piano e a orquestra.
 

Moraríamos em grandes edifícios como A Montanha Mágica ou outros mais lúgubres como O Morro dos Ventos Uivantes e os misantropos uivariam e afiariam as garras em um arranha-céu denominado O lobo da estepe. E nessa cidade os prédios das instituições públicas também seriam rebatizados. As casas de leis receberiam nomes significativos como Seminário de ratos, A Náusea ou Os Miseráveis e o principal jornal seria Ilusões Perdidas.
 
E quando morréssemos seríamos enterrados nos cemitérios municipais Cem anos de solidão e Em busca do tempo perdido. E se antes de cegados e ensurdecidos pela morte, estivéssemos já cansados de habitar essa cidade, poderíamos visitar outras cujos nomes dos estabelecimentos seriam filmes ou canções. Nesta última, por exemplo, haveria um bairro só com imóveis identificados com as composições de Chico Buarque.
 
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por Cássia Fernandes

*Cássia Fernandes é jornalista e escritora

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