O congelamento de óvulos é uma moda ou uma estratégia de planejamento reprodutivo? A minha resposta é que depende da história e dos objetivos de cada mulher. Não existe uma decisão que sirva para todas.
Nos últimos anos, tenho observado um aumento na procura pelo procedimento por mulheres saudáveis que desejam adiar a maternidade. Carreira, estabilidade financeira, projetos pessoais e relacionamentos mais consolidados estão entre os principais motivos. Esse movimento acompanha uma mudança social importante e faz com que o congelamento de óvulos deixe de ser uma indicação restrita a pacientes com doenças que afetam a fertilidade.
O que considero mais importante, porém, é que a mulher conheça sua saúde reprodutiva antes de tomar qualquer decisão.
Ainda existe a ideia de que será possível engravidar naturalmente em qualquer idade, mas sabemos que a fertilidade feminina diminui ao longo dos anos, especialmente após os 35 anos. A idade continua sendo o principal fator relacionado à qualidade dos óvulos.
Hoje contamos com exames, como a dosagem do hormônio anti-mülleriano (AMH) e a contagem de folículos antrais, que ajudam a avaliar a reserva ovariana. Esses resultados, no entanto, precisam ser interpretados dentro de uma avaliação médica completa, considerando idade, histórico familiar, doenças ginecológicas e os planos reprodutivos de cada paciente.
A literatura científica reforça essa realidade. Uma revisão sistemática publicada em 2025 no_ Journal of Assisted Reproduction and Genetics_ , que reuniu 20 estudos internacionais, mostrou que o congelamento eletivo de óvulos vem sendo cada vez mais aceito por mulheres que desejam preservar a fertilidade, principalmente devido ao adiamento da maternidade por motivos pessoais, profissionais e financeiros.
Ao mesmo tempo, é importante ressaltar que o congelamento de óvulos não representa uma garantia de gravidez futura. Trata-se de uma estratégia para ampliar as possibilidades, com melhores resultados quando realizado em idades mais jovens.
Por isso, acredito que o planejamento reprodutivo deve começar antes mesmo da decisão de engravidar. Muitas mulheres só procuram um especialista quando já enfrentam dificuldades para conseguir uma gestação. Conhecer a reserva ovariana permite compreender melhor o momento biológico e tomar decisões com mais segurança.
O congelamento de óvulos não é uma indicação automática para todas as mulheres. É uma ferramenta importante, que deve ser recomendada de forma individualizada, após uma avaliação médica criteriosa.
Mais do que falar sobre um procedimento, precisamos falar sobre informação. Conhecer a própria fertilidade é o primeiro passo para que cada mulher possa fazer escolhas conscientes sobre seu futuro reprodutivo.
*Diego Rezende é ginecologista e especialista em Reprodução Humana
