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Como paquerar com livros

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04.06.2013 - 09:51:56

Goiânia – Esqueça tudo o que você aprendeu nos livros sobre a arte da conquista. Deixe pra lá as instruções retiradas de toda aquela subliteratura para mulheres. O verdadeiro segredo do sucesso no amor está, não nos miolos ou no miolo do livro, mas na sua capa. Ana teve tal revelação depois de muito custo, ou melhor, após os altos custos da lipoaspiração para a cintura de vespa, das próteses de silicone para os seios de diva, do mega hair para os cabelos de deusa, dos gastos com roupas cada vez mais justas, decotadas e curtas, para, estando vestida, insinuar como ficaria bela despida.

Não obstante todos esses esforços sobre-humanos, no mercado cada vez competitivo e selvagem do Amor nos Tempos de Cópula, nas ruas, nas baladas, sentia-se invisível. Nada parecia surtir efeito. Os homens andavam confusos, dispersos, volúveis, já não sabiam mais para onde entortar a cabeça, em que saliências repousar os olhos intumescidos. São tantas, tão abundantes, tão protuberantes e gratuitas. Em desespero e sem sexo há mais de 365 inconcebíveis dias, ela consultou o numerólogo, a cartomante, o psicanalista, leu todos os manuais de autoajuda e decorou todas as receitas.

Já estava quase pendurando os sapatos de salto meia pata, acreditando que não era monumental o bastante para se fazer amada, quando certo dia, ao viajar a trabalho, encontrou, na livraria do aeroporto, entre receitas de amor, de sucesso e de bolo, aquela capa de brochura que iria fazer desabrochar surpreendente nicho de novas possibilidades sexo-afetivas.

Enquanto aguardava a hora do embarque, sentada no saguão, abriu "A vida sexual da mulher feia", de Cláudia Tajes, o livro bloqueando a visão de sua face desiludida, e começou a leitura. Sentiu, porém, em torno de si, uma revoada de olhares curiosos.  Com um olho no livro, outro no território, percebia que não havia homem ou mulher que passasse por ela e não deixasse escapar a sombra de um sorriso. Um rapaz se sentou ao seu lado. Analisou-a da testa aos calcanhares.  E olha que nem estava com um vestido indefectivelmente curto e justo ou com as pernas fatalmente cruzadas. Ele tentava debalde ver seu rosto e ela conscientemente se esquivava, divertindo-se. Ele tossiu, pigarreou e enfim puxou assunto:

"É bom esse livro"?

"É engraçado". – ela finalmente disse, deixando descer o volume, como se um véu de recato deslizasse.

"Mas não é o seu caso, quer dizer, você com certeza não se encaixa aí, não tem dificuldades para encontrar parceiros. Tão gata."

Trocaram letras e números. Ele lhe disse que ficou curioso por ver a mulher por trás do véu, quero dizer, da capa. Estava cansado de mulheres superficiais, sem conteúdo, debruçadas sobre seus celulares e tablets. Interessava-se por conhecer aquela que lia. É bem verdade que dos dois ardentes e lacônicos encontros que tiveram, não resultou romance.

 Mas Ana descobriu a partir de então que os livros poderiam livrá-la daquela condição de incômoda invisibilidade. Ler não era propriamente o que fazia, adotava antes os rituais e trejeitos de interessada leitura. Passou a frequentar livrarias, procurando descobrir avidamente outros títulos igualmente curiosos e atraentes, que serviriam como excelente pretexto para que desconhecidos puxassem assunto.

 Aonde quer que fosse, nas salas de espera de bancos, consultórios médicos, órgãos públicos, levava um exemplar consigo. Além dos títulos sensuais ou engraçados, das capas chamativas, livros grossos, pesados volumes também eram particularmente eficientes. Não foram poucas as vezes em que homens se aproximaram dela e disseram:

 "Mas você tem mesmo certeza de que vai ler um livro assim grosso?"

 Outros humildemente arriscavam:

"Eu admiro quem lê. Não gosto de ler."

“É mesmo? Mas esse é um hábito que se conquista”.

A esses, mais humildes, premiava com a compaixão e um morno sexo de ocasião.

Ao simular a leitura de "Cinquenta tons de cinza" – um título não tão instigante por si só, mas tão exaustivamente divulgado que até mesmo os mais avessos à leitura sabiam do que tratava – descolou bem uma meia dúzia de encontros. Teve, contudo, uma desagradável experiência quando conheceu um rapaz por intermédio de tal capa. Depois de tê-la feito de gato e sapato, ou melhor de bater com o solado nas suas ancas de gata, amarrando-a na cabeceira com os cadarços, ele a deixou atada à cama do motel com a conta por pagar. Horas de peleja foram necessárias, para enfim conseguir soltar-se.

Havia, pois, que ter cuidado na escolha, não só dos títulos, como do material com que eram confeccionados. Livros em capa dura, principalmente os pretos, eram desaconselháveis. Certo dia, cometeu o disparate de ostentar um desses em plena agência bancária. Aproximou-se dela um crente fanático que começou por chamá-la de irmã e, descobrindo que ela não professava sua fé ou fé alguma, tentou por tudo levá-la para sua Igreja das Mil e Uma Ovelhas Negras Na Noite Desgarradas.

"Você precisa parar de ler essas coisas e ler a palavra de Deus".

 Ana não passou a ler a Bíblia, mas decidiu diversificar os títulos, com o intuito de variar e refinar os alvos. Percebeu, por exemplo, que homens de maior escolaridade puxavam assunto quando ela simulava ler um clássico. Foi assim que conheceu Pedro, um advogado que dizia ter lido todas as grandes obras da literatura universal.

 Com ele viveu mais do que a aventura de uma só noite, avançou da leitura das capas à leitura das orelhas e das resenhas dos livros. Casaram-se e foram para sempre – para sempre não, seria demasiado tempo – muito infelizes, da sempre singular maneira com que são diferentes os casais infelizes. É que…. Esqueça tudo o que você acabou de ler logo acima. Pedro, embora leitor legítimo, era como aqueles falsos livros utilizados pelos decoradores para adornar residências chiques. São apenas a capa, adornados e ocos. Ana não demorou a perceber que, como ela enganara a ele, ele a tinha ludibriado, que o mundo de leitores e não-leitores está cheio de capas bonitas, de títulos chamativos, de volumes grossos, de encadernações luxuosas, de lombadas escritas a ouro, e que não valem sequer seu peso em papel, que não tocam ou preenchem a alma.

 De tanto fingir que lia, de tanto representar o papel de ler, Ana acabou lendo de verdade um trecho aqui, outro ali, até que se flagrou de repente convertida em  uma leitora genuína e viciada. Hoje lê realmente, mas prefere fazê-lo discretamente. Arranjou uma capa falsa, que parece um caderno. Esconde ali os livros de que está sempre acompanhada. Ninguém a assedia, ninguém a interrompe. Outro dia, porém, deixou capa e livro caírem na antessala do dentista. Um rapaz simpático o pegou e sorriu, como se a apanhasse em delito.

 Ela enrubesceu. Nunca havia se sentido tão despida.

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por Cássia Fernandes

*Cássia Fernandes é jornalista e escritora

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