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Cinema: Incentivo deve ser permanente

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28.11.2017 - 19:33:55
 
Goiânia – Desde a década de 1950, com o surgimento do movimento Cinema Novo, não se fervilhavam tanto as produções cinematográficas. À época, jovens frustrados com a forma de fazer cinema, foram à luta por produções mais reais, que impactassem pela história contada de forma simples. Bastava ter “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, o que, aliás, era o slogan dessa geração. Goiás contava com um nome respeitado. O cineasta João Bênio, pioneiro no assunto, desenvolveu um trabalho autoral, mas com inúmeras dificuldades, principalmente financeiras, já que não havia apoio à produção cinematográfica. Com a sua morte, o cinema goiano foi praticamente inexistente por um longo período.
 
O tempo passou e as produções, assim como tudo o que era ligado à cultura, ficaram renegadas a pouca gente que tinha mais que ideias e câmeras. Os filmes eram feitos com pouquíssimos recursos e pecavam na qualidade. Por isso, ficava difícil competir e se mostrar. Durante anos, o que foi produzido no Brasil ficou praticamente esquecido e incentivo era uma palavra que não existia. Em Goiás isso não foi diferente e a produção cinematográfica ficou completamente estagnada.
 
Em 1989 eu fiz o primeiro filme profissional goiano, segundo o Dicionário de Cinema Brasileiro, depois de João Bênio. Foi também marcado como o primeiro filme de uma mulher em Goiás: André Louco, uma adaptação da obra do escritor goiano Bernardo Élis. O cenário aqui era tão difícil que não havia, nem sequer, mão-de-obra qualificada. Não havia quem soubesse fazer cinema profissional, desde técnicos a atores. Toda a equipe – muito qualificada, por sinal – teve de vir de São Paulo. Foi muito difícil fazê-lo. Foi difícil como mulher. Não havia respeito, credibilidade e nem apoio do poder público.
 
Quando, enfim, consegui entrar numa das primeiras leis de incentivo cultural, o dinheiro não pôde chegar até mim por causa da burocracia. A verba, então, foi depositada numa conta em São Paulo e o filme passou a representar aquele Estado. Eu goiana e autor goiano, mas pela falta de apoio o filme não representava Goiás. Chorei por isso. Mas fui reconhecida em 1992, quando o filme foi aceito no Festival de Locarno, na Suíça, e premiado como o melhor curta-metragem estrangeiro. Autoridades não tinham a visão de que a arte levaria longe o nome de Goiás e o engrandeceria. A cultura era renegada à marginalidade.
 
Com o fechamento da Embrafilme, a produção cinematográfica brasileira parou de vez e o país mergulhou num limbo de onde só sairia no final dos anos de 1990. Foi quando os incentivos começaram a ressurgir, mas apenas nos grandes centros produtores, e não chegavam a Goiás. Até que foi criada a lei de regionalização e de distribuição de verbas iguais para todas as regiões. Com isso, outras leis de incentivo foram surgindo, mas era preciso conseguir aprovação, o que também não era fácil. E ainda não é. Os filmes começaram a ser feitos, mas exibição era só fora do Estado. Aqui só eram mostrados se conseguissem ingresso em algum festival.
 
Hoje temos outro cenário. É como se antes estivéssemos no faroeste, sem cultura nenhuma, nem TV, e déssemos um salto. Culminou também com o retorno de muita gente que saiu daqui para estudar e fazer cinema fora. Isso também passou a incentivar muitas outras pessoas que começaram a fazer cinema, cursos na área foram criados por escolas particulares – eu mesma criei a SKopus, a primeira escola de cinema goiana, que formou metade dos atuais cineastas goianos –, por universidades e oficinas em mostras, como o Icumam e o Fica. Muitos já são reconhecidos nacionalmente. Esta é a prova de que quando existe incentivo, há interesse, há formação e a cultura fervilha. E o retorno para o Estado é inegável. Há geração de empregos e renda e incremento do turismo. Essa valorização passa a ser um orgulho goiano.
 
Em Goiás, produtores e cineastas vivem da dialética das leis de incentivo. Isso é que há de mais próximo de um estímulo para a sobrevivência da sétima arte. É bom? É. Mas também é muito pouco pelo que se tem e se espera do cinema goiano. Há quem viva à caça de parcerias para realizar suas obras, muitas vezes latente há anos, sem conseguir produzir um trabalho completo, de qualidade, com tudo o que havia imaginado. O incentivo efetivo, que faz a roda da vida do cinema girar, ainda precisa entrar em cena em definitivo e de forma permanente, com a segurança nos lançamentos de editais e repasses pelas leis. 
 

*Rosa Berardo é jornalista e cineasta

 
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por Rosa Berardo

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

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