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Carta a uma mulher intensa

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05.03.2012 - 12:33:04

Querida leitora,
 
Imagino que você deve estar lendo esta carta em meio a uma imensa correria. Talvez durante uma pequena pausa no meio de uma dezena de afazeres no escritório, depois de levar os filhos para a escola, quem sabe no intervalo entre uma aula e outra no MBA, ou já tarde da noite, antes de se preparar para dormir.
 
É, minha cara, sei que as coisas não andam fáceis para você. São tantas cobranças e responsabilidades, que fica difícil conciliar os desejos do coração e da alma com os desafios do dia a dia, dentro desse turbilhão que é a tal vida de adulto. Mas você não desiste e segue. Levanta a cabeça e não se abate.
 
No trabalho, o negócio anda feio. O chefe ordena mais produtividade e a lista de tarefas aumenta em ritmo de progressão geométrica, enquanto o salário continua o mesmo. Apesar disso, você capricha pra valer e não deixa a peteca cair, pois sabe que não dá para ser mais ou menos competente nem comprometida.
 
Se resolveu ter a própria empresa, também deve estar trabalhando como uma insana. Gerencia pessoas e orçamentos, enquanto lida com a expectativa de clientes exigentes e apressados, que não têm tempo para erros. Mas você não foge da raia e encara o desafio, mesmo que isso custe noites de sono e cabelos brancos. 
 
A vida familiar também não anda moleza. Brigas, disputas e mágoas se alternam e se acumulam, pedindo paciência de monge budista e mostrando que aquela história de família de propaganda de margarina é pura farsa. O que não lhe impede de estar disponível para conversar, acolher, ouvir, ceder e, claro, amar apesar de tudo. 
 
E por falar em amar… Como esse coração tem sofrido, hein, amiga? É solteirice demais e companhia de menos. Uma solidão que parece que nunca vai terminar, uma falta no peito que lateja o tempo inteiro. E, apesar disso, você não perde a esperança de um dia ser um par e se arruma, por dentro e por fora, para receber o novo amor. 
 
Para quem está num namoro ou num casamento o coração também reserva grandes percalços. Ninguém nunca lhe disse que seria preciso ceder tanto, negociar tanto e ter tantas expectativas desfeitas. Que encarar o outro como ele realmente é pode, às vezes, doer tanto. Mas você aceita a realidade e ama de todo o coração, com todo ardor e dedicação, porque também sabe que não dá para amar mais ou menos.
 
Se o amor rendeu frutos, a educação e o cuidado dos filhos também não podem ser levados de qualquer jeito. Criança pode ter celular? Usar internet? Assistir SuperPop? Ouvir funk? Tomar refrigerante e comer batata frita? Ser feliz com pais separados? Para tantas dúvidas, uma mãe empenhada em buscar incansavelmente as respostas.
 
Sem contar as suas próprias dúvidas, não é mesmo? Você anda trabalhando demais e curtindo a vida de menos? A saúde está em dia? A vida que tem hoje é aquela que gostaria ou você está se desviando totalmente do que precisa para ser feliz? Como não surtar em meio à histeria do cotidiano e manter o foco? 
 
Você não tem a solução para esses conflitos. Talvez nunca tenha. O que não lhe impede de viver em plenitude cada momento de alegria, sofrimento, surpresa ou rasteira que o destino apresenta. O que não lhe impede de se jogar sem rede de proteção nesse mar — ora de tormenta, ora de calmaria — que é a vida.
 
E a vida, minha cara, saberá retribuir de maneira generosa a sua intensidade e a sua coragem. Essa mesma vida, que como dizia o velho e sábio Vinícius de Moraes, “só se dá pra quem se deu/ pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu”. A vida que leva, mas que também traz, e só entrega o que tem de melhor para quem está de braços e coração abertos. Como você.
 
Por tudo isso, minha querida, não acredite nessa balela de que devemos tratar o dia 8 de março como uma data qualquer no calendário, que não temos nada a comemorar no Dia Internacional da Mulher. Temos sim. Um brinde a você, que é tão especial e valorosa. Um brinde à sua força e à sua determinação.
 
Um brinde a esse seu jeito de achar que a vida pode ser maravilhosa, apesar de tudo e todos. À sua garra, sensibilidade e inteligência. À sua generosidade e honestidade. Talvez você ande insatisfeita consigo mesma. Bobagem. Se você ainda tem dúvidas de que é o máximo, aproveite o dia 8 de março para ter certeza de que você é. 
 
Um beijo,
 
Fabrícia
 
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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