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Cansei de ser sexy

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27.02.2012 - 20:21:21

A Folha de São Paulo publicou uma reportagem com o seguinte título: “Depilação íntima total e irrestrita é novo padrão de sensualidade”. É isso aí, ter pelos pubianos agora está completamente fora de moda. Para ser sexy, a mulher precisa ter a aparência de uma garotinha de 5 anos de idade e zero de pelos. 
 
Não que eu seja a favor do estilo “floresta amazônica” da Cláudia Ohana. Deus me livre. Mas é que todo exagero me chama atenção. Da mesma forma que não depilar nada é uma coisa estranha (para não dizer anti-higiênica), não ter pelo em lugar algum do corpo e parecer uma criança também é bizarro. 
 
Curiosa com a tal reportagem, lá fui eu checar com as depiladoras dos salões que freqüento se a informação procedia. E não é que é isso mesmo? Uma depiladora me contou que, de cada 10 clientes que passam por ela, 7 querem a depilação total. A outra me disse, de cada 10 clientes, 8 pedem para tirar todos os pelos pubianos.
 
Mas será que não dói demais? “E bota dor nisso, minha filha! Mas os homens adoram e pedem, então a gente tem de fazer”, me contou uma adepta do tal método há um ano. Outra cliente com quem conversei também confessa que dá muito trabalho manter o estilo “pelo zero”. “Mas tá na moda, então a gente faz o sacrifício”.
 
E haja sacrifício! Enquanto conversava com as clientes dos salões, descobri que as mulheres são capazes de suportar as maiores dores e torturas para ficar dentro do “padrão de sensualidade” estabelecido. São capazes de se virar do avesso e fazer topo o tipo de malabarismo físico, financeiro e emocional.
 
Uma delas estava prestes a dar entrada num apartamento, mas teve de adiar o sonho porque resolveu ceder aos apelos do marido e colocar silicone nos seios. Baixinha, pôs duas próteses gigantes e ficou bem estranha. Mas, como o marido acha “lindo, o máximo”, ela se diz satisfeita e leva os air bags enormes consigo, sem reclamar.
 
A outra foi mais radical. Um ano depois de dar luz a um casal de gêmeos, fez uma megacirurgia plástica. Retirou toda a gordura da barriga e das costas e injetou no bumbum. Aproveitou o embalo e colocou silicone nos seios. Durante dois meses, sentiu-se como “alguém atropelada por um caminhão”.
 
Além das dores enormes, precisou contratar duas babás em período integral, pois não podia segurar os filhos no colo nem amamentá-los “Essa foi a pior parte. Eles choravam sem parar e eu tinha de sair de perto”, conta. E valeu a pena? “Bem, estou gostosa como as mulheres das revistas, então acho que valeu”.
 
Os cabelos também são alvo permanente das mulheres que querem ficar sexies. O padrão atual de sensualidade diz que não devem existir ruivas nem morenas. O negócio é ser loira total ou parcial, com luzes ou mechas californianas. As mechas, como dizem as revistas e os cabeleireiros, “iluminam o rosto”.
 
Uma morena com que conversei entrou nessa onda de “iluminação” e se deu mal. Os cabelos fartos, escuros e com muitos cachos bem definidos deram lugar a um chumacinho ralo, opaco e esturricado de fios loiros, que depois de passarem por uma progressiva ficam permanentemente espichados. 
 
Nada contra usar os avanços da tecnologia e da medicina para ficar mais bonita e dar uma boa rejuvenescida. Conheço várias mulheres que fizeram plásticas, mudaram seus cabelos e estão lindas. A questão é que elas fizeram isso por vontade pessoal e não por pressão social. E usaram o bom senso, evidentemente. 
 
Se você se olha no espelho e vê no reflexo uma pessoa horrenda, que precisa ser totalmente modificada para se sentir bela e aceita, cuidado. Você corre o sério risco de gastar rios de dinheiro, sentir dores tenebrosas, fazer enorme sacrifícios e, ainda assim, não ficar confortável na própria pele. É que autoestima a gente não compra.
 
Nem todo modismo fica bem em todo mundo. Do “alto” do meu 1,60 m, tento me imaginar com peitões gigantes, um bumbum igualmente grande, cabelo loiro e liso, pele bronzeada (esturricada) artificialmente, sapatos com saltos altíssimos e sobrancelhas de henna que mais parecem uma taturana bezerra. Não sou seu, é uma traveca. É a visão do inferno.
 
A verdade é que cansei de ser sexy para corresponder aos padrões estabelecidos sabe Deus por quem. Já tentei, e muito, mas não tenho mais paciência. Ponho meu sutiã tamanho “M”, calço minhas sapatilhas, visto meu vestido solto e, com minha pele branca e meus cabelos ruivos e cacheados saio para passear. Posso não ser a mais bonita, nem a mais gostosa, mas sou única – o que, vamos combinar, não é pouca coisa. 
 
 
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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