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Bia Doria: natureza que se desdobra em arte

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03.12.2015 - 17:12:39

Goiânia – Mesmo na celeuma dos seus tique-taques e remotos controles, a cidade se repimpa de surpresas sempre que é possível fazer uma pausa para olhar o cotidiano através de suas frestas e desvios. Chega a ser sensação fim-de-tarde, assim-quando o dia já desamanheceu um bocado, e então o que se imagina é aquele cheiro de terra, de rio correndo, em dança. “Coisa de aconchegos”, sopraria a minha avó. E ficamos à espera nem que seja de quixotescas luas em promessa delas, das surpresas, das frestas com que não perder de vista os deslumbramentos. O sentir (n)a vida.
 
Quinta-feira de flamboyants e araguaias, nesta minha última vinda a Goiânia. Novembro-agora se vindo-e-indo, e ainda titilava na memória um desses imaginares vontadeando-surpresas: “Uma pena… Por quatro dias não vejo de perto os Totens, as Bailarinas da Bia.” 
 
Apesar disso, vou subindo toda em curiosidades até o MAC, Museu de Arte Contemporânea de Goiás, que fica ali no Centro Cultural Oscar Niemeyer. E enfins, naquela tarde de solares com antecipações de querença, descubro, com euforia-além, que… que… minhanossa! Eis a surpresa da semana, como eu ia dizendo. A necessária pausa, aquele todo borbotar de contentamento(s). E o convite à contemplação, à materialidade das formas, a um sentir com o toque… eclodindo-se. “Não, não é disse-me-disse, não, moça, acredite-me”, repete o Pedro, sorriso aberto e acolhedor, na porta do MAC. “Prorrogamos até dezembro, pode entrar, o museu é seu.”
 
Pois-adentro. A primeiríssima imagem que se imagina não são apenas raízes, troncos de árvores, cipós e nódulos. Estes elementos — desarticulados da natureza e então reapresentados como arte — não parecem só descansar seus corpos já ausentes da organicidade-terra em um “espaço de expor arqueologias”. São esculturas imbuídas de uma estética contemporânea, logo se nota, mas que ressurgem, em esplendor, com uma profusão de movimentos — de espantar! “Como se dançassem mesmo”, diz a certa altura a artista plástica norte-americana Melissa Resch, comigo no MAC naquela tarde e, como eu, já toda de encantamentos com a ali-exposição. 
 
Vou primeiro pelas séries Bailarinas da Natureza (2014-2015), que se apropriam das formas circulares, tanto à direita como à esquerda, desde a entrada do museu. São de cor de madeira, troncos e galhos, de contornos para arvorar a imaginação da gente. Em cor(po)reografia própria, elas bem-dançam. Encantáveis. Dali para o Conjunto Totens (2014), e vejo ao fundo um exemplar belíssimo de Pau-Brasil recuperado e laqueado com extrema sensibilidade artística. Depois, de volta ao centro do museu, as esculturas se embebem em vermelho e marrom bem fortes — cores da terra, do etéreo, do corpóreo — e celebram, na série Raízes do Brasil, o delicado equilíbrio entre a leveza do corpo abraçado de movimentos sutis e o peso da destruição das florestas nossas, a cujo manejo se dedica Bia Doria. Com muito talento. E(m) intensidades.
 
“Essas esculturas… estão num patamar em que a natureza subsiste, apesar de toda a externalidade poética e plástica da recriação artística”, deixo escapar, em bastantes admirações. É que, inevitavelmente, a nossa visão se choca com o inelutável volume dos corpos — porque assim vamos vendo as esculturas, nos transpassando delas. E essa experiência do ver, diria o historiador e filósofo da arte Georges Didi-Huberman, torna-se propriamente um convite para o tocar. 
De Bia Doria, catarinense que desde 1980 vive em São Paulo, este convite se desdobra em um sem fim de outros por toda a exposição Redesenhando a natureza — esculturas e relevos, que permanece em Goiânia até 13 de dezembro. Sim-sim: coisa para a gente não perder de vista…
 
Um convite, de logo enfatizo, que é para todos nós: curiosos, apreciadores, estudantes e estudiosos, colecionadores, de passagem, críticos de arte, transeuntes — gentes. Não só porque a exposição (fotos) tem entrada gratuita garantida pelo Governo de Goiás, mas também pelo caráter de obra aberta que Bia admiravelmente confere ao conjunto de seu trabalho. O que significa dizer que entramos nele, com avidez, conhecedores ou não das histórias e temporalidades e estéticas da arte. 
 

 
Daí a generosidade imensa por parte da artista, que nos oferta a mais simples contemplação pelas vias da lembrança — desde as árvores da nossa meninice que ainda nos atiçam imaginaturas, até a miragem de uma terra vivendo-se de sustentabilidade(s), legado do escultor polonês radicado no Brasil Frans Krajcberg, com cuja obra Bia dialoga com beleza-além. 
 
E ela ainda nos incita a um revisitar-transitando, também de memória ou em etimologias, por percursos e processos artísticos similares aos dela, logo reparamos… e algumas analogias vão correndo soltas. Como ao trabalho do italiano Giovanni Anselmo, da arte povera, bem no início do século passado, explorador-ele de frestas poéticas imiscuídas em materialidades orgânicas; ao português Isaque Pinheiro, quem também é possível invocar pelo uso contemporâneo de resíduos cotidianos, recontextualizados em esculturas que pululam organicidades em madeira, mármore, fibras; e, só para começo de conversa, à francesa Louise Bourgeois, décadas iniciais do século XX, que lidava com a corporalidade da escultura de maneira tão fluida quanto pulsante — vital, voraz.  
 
Seja qual for a abertura para o diálogo com outros artistas, seus elementos e itinerários de arte pululando durante a exposição, o certo é que Bia Doria se abre, ela mesma, à exploração daquilo que na natureza se quebrou, ou se deixou perder, ou que, pelas práticas de desmatamento, permanecerá inacabado, e é quando mais se reconhece nela, por exemplo, a pulsão criativa de Robert Smithson, expoente da land art americana. Em seu trabalho com fragmentos de uma natureza desperdiçada, descomposta, já desarraigada do ecossistema, Bia aceita o desafio da recriação e, em toada semelhante à de Smithson, também não está interessada em “apresentar o meio pelo meio”, mas em manter o olhar atento para a natureza no horizonte do re(entrelaçamento) do mundo físico (de resíduos terrestres a que ela (re)confere sentidos) com a experiência da arte, que culmina na produção de efeitos estéticos e processos plásticos. Uma deliciúra de se ver. E sentir. E-e-e… se deixar com.
 
Pois-subo a rampa e, no andar de cima do museu, as Esculturas de parede são também de zonzear — belas, expressivas de uma estranheza que captura o olhar e enternece. Algumas transbordam “Florações” em seus resíduos de madeira com flores pigmentadas. São esplêndidas.
 
Respira — a obra de Bia Doria — e nos faz (querer) respirar. Pulsa de um mundo que se desdobra em arte. E de uma arte que envolve o mundo. Estando ambos entrelaçados. No limite da memória de uma natureza feita de corpo e vitalidade. E da vontade de mantê-la, não intacta — porque já impossível —, mas com vigor de peça-chave ainda que em um mundo frágil e fraturado. 
Saímos do MAC em querença de muitas coisas depois da exposição. De saber mais sobre os processos criativos da artista. De voltar às fotografias porventura tiradas e ficar de combinações com a nossa memória: “Quero reter essas visualidades… agora é contigo”. De tomar notas, como faço, e escrever em seguida sobre. 
 
Saímos de lá em querença, sobretudo, de uma terra de árvores que não se viole sangrando sua natureza móvel, dançante, mutável e, por isso e tanto mais, merecedora de todas as tentativas de representação como esta, de Bia, que a transforma e re(vitaliza), se poetizando dela, da natureza, e a reinstituindo. Das eternidades com que sempre (se) faz e refaz o nosso olhar. 

*Carol Piva é uma das editoras-fundadoras do jornal literário O Equador das Coisas, tradutora e ficcionista. 
 
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por Carol Piva

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