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Bachianas, ursos e mães

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12.05.2013 - 17:09:36

Zurique – Voltamos às montanhas. É feriado, primavera, nada melhor do que subir um dos muitos picos que nos cercam, alguns ainda cobertos de neve outros já verdes, coloridos por um tapete de flores amarelas e brancas. Fomos novamente ao paraíso perdido do qual falei há exatamente um ano atrás. Um pequeno sítio na beira de um Parque Nacional, entre a Suíça e a Itália.
 
Chegamos numa tarde azul, que nos corta a fala de espanto e belezura, depois de atravessarmos um longo túnel, deixando para trás as cidades cinzas e entrando no vale de Engadim, região onde se fala uma língua muito antiga, também conhecida como um “latim de cozinha“, o Romanche. É uma língua melódica, misteriosa, realmente muito próxima do latim antigo, que adoro ouvir e gostaria de aprender. Parece também com o português, por isso consigo entendê-la. Por exemplo, “bun di“ quer dizer – bom dia, “buona saira“ é – boa noite e a expressão que mais gosto é “allegra!“, que simplesmente significa – olá!.
 
Depois que deixamos o túnel para trás, diante da visão impressionante das montanhas e florestas, procuro localizar, no rádio, a emissora local, “Rádio Engiadina“, para ouvir um pouco dessa língua perdida no tempo. Enquanto faço as curvas estreitas da estrada, arranhando chiados e alguns rocks-sabonetes, banais e iguais, que tocam nas rádios do mundo todo, consigo sintonisar a Engiadina.
 
Antes de chegarmos ao nosso destino, já na subida final, ouço a voz de uma ouvinte, uma senhora já idosa, fazendo um pedido musical. Não consigo entender toda a frase, mas percebo que fala do Brasil. E qual não é a minha surpresa, espanto, alegria, euforia e júbilo ao ouvir os primeiros acordes anunciando a Bachiana no.5 de Villa-Lobos. Viro o volume ao máximo e termino de subir a montanha em êxtase total. Céu azul, infinitamente azul.
 
O Brasil nunca vai sair de dentro de mim, penso mais tarde, observando as crianças soltarem pipas ao vento. E sento-me para escrever, percebendo a falta que M13 está nos fazendo. Para quem não se lembra, esse é o nome do urso selvagem que passeava por aqui no ano passado. Ele nos fez companhia nas cavalgadas, encheu nossos dias de imprevisto, medo, fantasia. Sem um urso, uma floresta é muito menos floresta.
 
Infelizmente, durante o inverno, nosso urso foi morto pelos fazendeiros da região, cansados que lhe roubassem os cabritos. O que parece fábula é realidade, o silêncio da previsível segurança agora é grande. Nada mais a temer, nenhum risco a correr. E em breve, teremos que descer e atravessar novamente o túnel porque é dias das mães, e como diz uma amiga – Eu amo, adoro, ser mãe, mas detesto dia das mães.
 
Outro amigo, músico, poeta, filósofo e sábio de bares e letras, João Moraes, disse recentemente em uma linda crônica, que os filhos são condenados à eterna inadimplência. Jamais conseguirão pagar ou compensar tudo que receberam de suas mães. Porém, nos últimos dias, andei pensando algo semelhante, mas contrário. Nós, mães, somos condenadas à imperfeição, ao inacabado. Jamais conseguiremos preencher todas as expectativas e projeções que nos fazem. Como nos versos de Esquina, lembrados por Patrícia Nascimento, ao falarmos sobre isso, “Sabe lá o que é não ter e ter que ter pra dar?“
 
Quantas vezes não temos pra dar, quantas vezes achamos que não conseguiremos, que não podemos, que as forças não serão suficientes nem para levantar da cama, quantas vezes nos obrigamos a ser fortes, alegres, porque todo filho precisa de uma mãe feliz? Somos impedidas de falhar, de cair, de ficar triste, de morrer, somos condenadas à perfeição que jamais alcançaremos, tentando esconder nossos defeitos, nosso mau-humor, debaixo do travesseiro. Tentando chegar um pouco mais perto da imagem, do ideal que vemos refletido nos olhos dos nossos filhos, cheios de confiança, em busca de um porto-seguro, de um colo, quem sabe. Não importa que tenham dois, vinte ou cinquenta anos. Mãe é mãe, não pode falhar.
 
Mas nós falhamos, e muito. E escondemos nossas falhas, disfarçando, cantando, brincando, rindo alto. E rezamos para sermos lembradas mais pelos acertos e menos  pelos desacertos. E tememos que algum dia, na adolescência ou talvez, deitados no divã de um psicanalista qualquer, nossos filhos descubram que não somos perfeitas e se sintam traídos, enganados. E ainda vai doer, mesmo aos olhos daquela criança grande e haverá talvez cobrança e culpa e não teremos resposta alguma além do básico – Foi o melhor que pude. Mas o melhor nem sempre basta, quando somos mãe.
 
Porque nossa missão é uma missão impossível. Abrandar todas as dores, explicar todas as contradições, curar todas as doenças, alimentar o espírito e o corpo. Somos um ser mítico, mas atrás dessa fachada, existe uma simples mulher. É aí que discordo de João. A dívida dos filhos está paga, desde o início. Pois é esse ser irreal que nos torna real, que nos guia. Nossos filhos revelam o melhor de nós, „nos salvam de nós mesmos“, como disse mais uma amiga, mãe e escritora, Cristiana Soares – “Se eu não fosse mãe, estaria vagando louca pelas ruas“.

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por Cejana Di Guimarães

*Jornalista formada pela UFRJ e pela Universidade de Fribourg, Suíça. Vive há 20 anos em Zurique.

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