A Redação
Goiânia – Desde sexta-feira (7/8), o Hub Goiás é palco de debate e troca de conhecimento com o primeiro dia do Festival das Minas. A abertura contou com a presença da secretária de governo da Prefeitura de Goiânia, Sabrina Garcez; da presidente da Associação Feira das Minas, Pauline Arroyo; Anne Borges, do Instituto Fluir; Caroline Pires, da Associação Casa Rosa e Manoela Barbosa, da Skambau Produções e do Instituto Skambau. A programção segue neste domingo (9/8).
A primeira palestra ‘Empreender é Resistir: histórias de mulheres que transformam territórios’, foi realizada por Josy e Neiva, da Tapioca das Pretas; Elaine Moura, PopCorn Gourmet; Cynnara Bretas, Cya Eventos e Vera Lúcia, do Sebrae Delas. Loryane Naciff, da Cachaça Treme Treme comandou, na sequência, uma roda de conversa. Todas elas falaram sobre suas próprias histórias, os desafios do empreendedorismo, situações de machismo e racismo. Apesar disso, ressaltaram a potência das mulheres e a necessidade de trabalhar em rede, de forma estratégica, incentivando outras mulheres.
Sabrina Garcez, secretária de governo da Prefeitura de Goiânia falou da importância da escuta ativa e relembrou que conheceu a Feira das Minas, quando a ação ainda estava começando. Sabrina foi a primeira mulher a presidir a Câmara de Constituição e Justiça da Câmara Municipal de Goiânia e também a primeira a ocupar o cargo no qual está hoje na Prefeitura da capital. “Quando falamos em mulher em espaços de poder, sabemos que ainda precisamos avançar muito. Nosso olhar é diferente. Não é sobre ser melhor ou pior. Infelizmente ainda precisamos provar, repetidamente, nossa competência e capacidade. Mas precisamos usar nosso poder de influência para mostrar que as mulheres podem chegar onde quiserem”, finalizou.
Desafios enfrentados pelas mulheres
Vera Lúcia Oliveira, coordenadora do Sebrae Delas, destacou os desafios enfrentados pelas mulheres e traçando um paralelo com sua infância, falou de todas as mudanças que percebeu pelo caminho, mas também do quanto ainda o cenário é injusto. Vera contou que seu sonho sempre foi acessar o vestibular e que se formou em Engenharia Civil em uma turma de mais de 40 alunos, sendo apenas 5 mulheres. Para Vera, o principal entrave ainda é cultural. “Muitas meninas hoje ainda acham que não terão oportunidades, assim como eu pensava quando era criança. Precisamos ser intencionais”, afirmou.
A coordenadora do Sebrae Delas também citou dados históricos e atuais: há 64 anos era necessária autorização do marido para abrir uma conta ou um CNPJ. “Hoje, as mulheres representam mais de 51% da população e 34% dos donos de negócios, mas ainda recebem 46% a menos”. Ao final, ela reforçou a importância da ação coletiva: “O processo de transformação precisa ser intencional. Vamos começar comprando de uma mulher!”
Pauline Arroyo, presidente da Associação Feira das Minas falou, com emoção, de como deu início ao projeto e que não imaginou a proporção que ele ganharia ao longo dos anos. Agradeceu às mulheres presentes não apenas pela presença, mas pela caminhada coletiva desde 2018. “Comecei muito nova, aos 21 anos e sei que essa feira mudou a vida de muitas meninas e mulheres. Sabrina Garcez foi uma das pessoas que abraçou essa causa e agregou ao projeto. Ela presenciou nossa trajetória e sou muito grata não apenas pelo apoio político, mas pela amizade”, completou.
Coordenadora Executiva do Festival das Minas e representante da Skambau Produções que é um das realizadoras do evento, Manoela Barbosa ressaltou que mais de 90% da equipe do Festival das Minas é composta por mulheres. “Minha avó foi a primeira mulher a se divorciar na cidade em que morava. Eu sou a primeira doutora da família. São realidades que mudaram muito, mas ainda há muito a ser transformado. Desenvolver quem somos diz muito como a gente poderá fortalecer, transformar e inspirar outras mulheres. E aqui estamos falando de histórias de impacto social com geração de renda, emprego e trabalho”, completa.
Cynnara Bretas, da Cya Eventos, contou um pouco da história da família e dos recomeços pelos quais passaram. Entre os grandes pontos, contou sobre a própria mãe, Maria Luiza Bretas, que casou aos 20, mas tinha o sonho de estudar. “Passei minha infância em Fazenda Nova, uma cidade pequena do interior de Goiás. Meu pai foi dentista na Ilha do Bananal, chegou a ir para o garimpo e minha mãe deu aulas em um povoado. O sonho dela era estudar, mas se casou jovem e aos 20 e pouco já tinha três filhas. Aos 37, ela fez vestibular. Depois mestrado, doutorado. Fala cinco idiomas e hoje também é escritora. Eu também passei por muitos recomeços, e se tem uma coisa que aprendi com a minha família foi isso”, completou.
Josy e Neiva, da Tapioca das Pretas, começaram com R$ 50 reais e um sonho. Irmãs e naturais de Porto Alegre do Tocantins vendiam tapiocas na rua em 2015 e contam que desistir não era opção. Em 2018, elas ganharam projeção nacional após participarem de um quadro no Caldeirão do Hulk. “Nosso cardápio é uma referência a muitas mulheres pretas. Nosso ambiente hoje é cheio de propósito. Enfrentamos preconceito, críticas, mas hoje estamos muito orgulhosas da nossa história”, completa Josy.
Exemplo prático
À frente da maior franquia de pipocas do Brasil, a PopCorn Gourmet, Elaine Moura recordou sua trajetória e contou dos diversos desafios enfrentados ao longo de mais de 25 anos de carreira. Neta de um cozinheiro e de uma merendeira, é formada em Jornalismo e Gastronomia e fundou, no ano de 2000, o Buffet Accontece, que se transformou em referência no ramo de eventos de luxo não apenas em Goiás, mas em todo o país. “Comecei com tábua de frios, snacks e nunca fui da confeitaria. Participei de uma expedição certa vez e preparei um risoto do Cerrado. O evento tinha temática junina e começaram a fazer pipocas saborizadas para decorar o local. Pedi para ajudar, usei o que tinha na minha cozinha e fiz uma pipoca na borra da linguiça e uma pipoca de caramelo. Sem receita, sem medida”, completou.
Entre os participantes da expedição estava o jornalista Amaury Júnior, que a apelidou de ‘moça da pipoca’. Logo após o evento, todos queriam a receita da pipoca. Elaine virou pesquisadora de pipoca. “Fiz um curso de Paris e só pensava em pipoca. Passei por Londres e vi uma loja inteira de pipocas. Era mãe solo, fazia 7 eventos por dia. Queria ter uma grande ideia. Voltei ao Brasil e fiquei 1 ano fazendo teste em pipocas. Incluí no Buffet e fiz um casamento. Fui convidada para a Casa Cor e decidi levar pipoca. Fui capa do Jornal O Popular, recebi um convite para o primeiro quiosque no Shopping Flamboyant. Hoje são 54 franquias.”
A roda de conversa do primeiro dia foi realizada por Loryane Naciff , da Cachaça Treme Treme. Com o tema “Minha trajetória empreendedora” ela falou sobre a dificuldade de empreender, os desafios em meio à pandemia e a falta de apoio, inclusive familiar. “Na lista de quem mais acredita nessa jornada estão minha mãe, irmã, avó e tia. Até mesmo na família, muitas pessoas acham que é um hobby. Existe ainda o machismo: uma mulher trabalhando com cachaça, em um ambiente majoritariamente masculino, noturno. Por outro lado, o que nos manteve de pé desde que começamos, em 2018, foram os amigos, as vendas diretas. Comprem dos seus amigos, incentivem mulheres. A treme treme não é um delírio, não é um hobby. É um trabalho e motivo de muito orgulho”, finalizou.
Sobre o Festival das Minas
Idealizado pelo Movimento das Minas em parceria com o Instituto Skambau, a Skambau Produções e o Instituto Fluir, o Festival das Minas 2026 é um movimento de valorização da economia criativa liderada por mulheres em Goiás, que acontece até este domingo (9/8). A edição deste ano reúne, no Hub Goiás e na Praça do Imigrante Italiano (Ginásio do Jardim América), palestras e oficinas gratuitas sobre finanças, marca, autoconhecimento e políticas públicas, além da tradicional Feira das Minas, com expositoras, shows, espaço kids e ambiente pet friendly.
