Théo Mariano
Goiânia – O Brasil sofreu no último ano um baque no acúmulo do investimento estrangeiro direto. Segundo dados divulgados pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), organização ligada às Nações Unidas, a injeção de capital no país atingiu o menor patamar dos últimos 12 anos, com uma queda de 35,4% no recebimento em comparação entre os resultados de 2019 e 2020. O relatório aponta a pandemia do novo coronavírus como uma das principais causas do efeito negativo nos investimentos, mas para o ex-ministro da Fazenda e secretário da Fazenda do Estado de São Paulo, Henrique Meirelles, nesta conta entram também "os ataques às instituições democráticas, eleições e más decisões" da equipe econômica do presidente Jair Bolsonaro.
“Para colocar seu dinheiro em algum projeto, em uma indústria, ou até mesmo para um pequeno empresário abrir seu negócio, como uma padaria, é preciso ter tranquilidade sobre o que vai acontecer em 2022, 2023 e para frente”, justifica Meirelles, que concedeu entrevista exclusiva ao jornal
A Redação nesta quinta-feira (26/8).
Ex-presidente do Banco Central e do BankBoston, com extenso currículo na área econômica, o secretário da Fazenda do governo João Doria avalia que a alta da inflação, taxas cambiais elevadas, insegurança jurídica, com possibilidade anunciada de parcelamento de precatórios – dinheiro que o Poder Público precisa pagar ao perder, em definitivo, causas judiciais – e a constante ameaça às instituições como o Supremo Tribunal Federal (STF), Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e às eleições são fatores que tornam qualquer investimento incerto.
“Você vê o ministro da Economia dizer ‘devo, não nego; pago quando puder’; para quem aplica no Brasil, não existe frase pior”, alerta Meirelles. A afirmação é uma alusão ao comentário de Paulo Guedes, chefe da pasta econômica federal, feito durante um debate virtual sobre dívidas judiciais e ajuste fiscal do governo. Guedes defendeu o parcelamento, em até dez anos, do pagamento de precatórios, a depender do valor. A medida, vista por especialistas como um “calote”, seria uma forma de garantir maior fôlego para o governo, inclusive ampliar o dinheiro do programa Bolsa Família, que pagaria mais aos beneficiados. Para o secretário da Fazenda de São Paulo, a "aventura brasileira" com um gestor inexperiente no cargo máximo da República “deu errado”.
Henrique Meirelles na chegada para coletiva de imprensa em Goiânia, quando anunciou interesse em se candidatar ao Senado Federal pelo PSD em Goiás. (Foto: Letícia Coqueiro/A Redação)
Os investimentos estrangeiros diretos (IED), que registraram queda no país e na América Latina em 2020, englobam fusões e aquisições, construção de novas instalações, reinvestimento de lucros adquiridos no exterior e empréstimos entre empresas do mesmo grupo econômico. “Se alguém está montando um empreendimento, a visão que se tem é de longo prazo”, ilustra Meirelles. Como explica o ex-ministro, o dinheiro injetado na criação de um novo empreendimento ou até mesmo em empresas já existentes, na sua grande maioria, não é reembolsado em um curto prazo. “O investidor precisa saber como estará a economia no ano que vem, por exemplo, para saber se suas vendas vão continuar em um bom nível. A economia não é abstrata, ela afeta cada um. Para um padeiro, a economia significa quantas pessoas vão comprar pão dele.”
Meirelles considera a situação atual do país um “tumulto”. Para o administrador da área econômica, além dos fatores já citados, como alta da inflação e a crescente na valorização do dólar, sem previsão de redução das taxas cambiais, o poder de compra, sobretudo das pessoas de mais baixa renda, são entendidos como impeditivos para o investimento no país. “Isso faz com que as pessoas retirem seus investimentos e faz com que se tenha menos capital no Brasil, com menor geração de emprego, e isso vemos como um resultado de todo o tumulto que está aí: um governo que ameaça fechar o Supremo, brigar com o Supremo, não aceitar resultado da eleição ou a área econômica dizendo que não vai pagar os precatórios.”
Presidente Jair Bolsonaro ao lado do ministro da Economia, Paulo Guedes. (Foto: Alan Santos/PR)
Para resolver os problemas econômicos, Meirelles sugere que, em primeiro lugar, o governo federal deveria dar tranquilidade aos cidadãos sobre o que vai acontecer no país em 2022, ano da eleição presidencial. “Se o investidor sabe que no ano que vem vai ter eleições no Brasil, que o país tem um regime democrático, existe uma apuração pelos tribunais regionais eleitorais de cada Estado, (…) Mas se alguém diz: ‘ah, não aceito o resultado; se eu perder, foi fraude', o investidor olha e fala: ‘espera aí, o que é isso’. E ele não investe.”
A falta de investimentos impacta a questão do desemprego no Brasil, que no primeiro trimestre de 2021 foi de 14,7% – o dado representa 14,8 milhões de brasileiros, conforme foi divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O percentual subiu quase 0,4% em relação ao trimestre anterior. Os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua são os piores registrados pelo IBGE nos últimos nove anos, desde o início da série histórica, iniciada em 2012.
É o chamado efeito cascata. A falta de empregos acentua a questão da fome, realidade de muitos brasileiros. Como o jornal
A Redação mostrou em
reportagem especial, a insegurança alimentar ganhou força com a pandemia do novo coronavírus e voltou a assombrar o país, que de novo foi inserido no mapa da fome – e retomou aos mesmos patamares registrados em 2004. Ao menos 116,8 milhões de brasileiros convivem com a incerteza de ser ou não comida na mesa.