Logo

As teses falsas da reforma expostas na CPI da Previdência

WhatsAppFacebookLinkedInX
01.11.2017 - 21:34:50

Goiânia – O relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Previdência, entregue no último dia 23 de outubro no Senado Federal, revelou que as principais teses levantadas pelo Governo Federal para defender a reforma da Previdência Social no país são falsas.  No parecer de 253 páginas, o relator, senador Hélio José (Pros-DF), afirmou que o déficit da Previdência Social não existe. Caíram as máscaras.
 
Nós, os operadores do Direito Previdenciário, já havíamos alertado há tempos que não existe o chamado déficit. Obviamente a reforma da Previdência trata-se mais de uma questão política, do que realmente uma questão social.  E certamente, não é aceitável se realizar uma reforma no sistema previdenciário sem um estudo mais aprofundado dos reais números e efeitos.
 
E a tese do déficit é confrontada diretamente pela Associação Nacional dos Auditores Ficais da Receita Federal (Anfip). Vale ressaltar também, a tese defendida pela nobre economista e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Denise Gentil, de que é falso o discurso que diz ser a previdência no Brasil, deficitária. Ela aponta que a justificativa oficial do governo é que temos um aumento da taxa de mortalidade da população brasileira contra uma baixa taxa de natalidade. E calcula também um suposto déficit de R$ 85 bilhões em 2015. E o ajuste fiscal, através de uma reforma, diante desse cenário é a receita. Ela defende que o que está errado não é o modelo atual da Previdência que, apesar política fiscal caótica do governo, continua gerando superávit.
 
Denise Gentil demonstra ao lado da Anfip, que as receitas da Previdência Social superam os gastos desde 2007. A economista aponta, por exemplo, que esse superávit foi em 2013 de R$ 67,6 bilhões. Já em 2014, segundo a professora esses números tiveram uma queda, apesar de ainda positivos, para R$ 35,5 bilhões. E a estimativa da acadêmica é de que 2015, segundo dados preliminares, seja de um superávit de R$ 20 bilhões.
 
Esses números indicam o caminho revelado pelo relator da CPI da Previdência, que teve a coragem de esclarecer as falácias impostas a fórceps pelo Governo Michel Temer sobre o rombo previdenciário. De acordo com o senador relator "é possível afirmar com convicção que inexiste déficit da Previdência Social ou da Seguridade Social. Nesta ótica, são absolutamente imprecisos, inconsistentes e alarmistas os argumentos reunidos pelo governo federal, sobre a contabilidade da Previdência Social, cujo o objetivo é aprovação da PEC 287".
 
Perfeito. Além disso, o relatório da CPI apontou outro dado de suma importância: a DRU – Desvinculação de Receitas da União – como a principal vilã do sistema previdenciário brasileiro. Segundo o documento, entre 2005 e 2014, A DRU foi responsável por retirar R$ 500 bilhões foi retirado da Previdência. Recursos que foram redirecionados livremente pela União, sem sabermos para onde foram direcionados e utilizados. E o pior, com as novas regras da DRU, que, a partir de 2016, elevou o percentual de desvinculação de 20% para 30%, aumentará a sangria de recursos previdenciários.
 
O relatório também escancarou que as empresas privadas devem R$ 450 bilhões à Previdência e, conforme a Procuradoria da Fazenda Nacional, somente R$ 175 bilhões correspondem a débitos recuperáveis. Ou seja, o problema da Previdência Social no Brasil não é o pagamento da folha dos seus segurados e contribuintes. Os principais danos são causados pelo Governo e empresários, que tornam o sistema frágil pela má utilização dos recursos do fundo previdenciário e pela impunidade para as empresas devedoras.
 
A Previdência Social, na verdade, poderia ser um grande ponto de soluções. Tanto é que quando o governo quer injetar renda na economia, basta usar o sistema de proteção social. O gasto com a seguridade social tornou-se impulsionador da demanda agregada ao ativar diretamente o consumo das famílias. Por ser uma renda que atende a uma população com elevada propensão a consumir, o valor provisionado pelos esquemas de proteção social para pessoas doentes, desempregadas, acidentadas do trabalho, idosos, aposentados e pessoas de baixa renda, invariavelmente, será gasta de forma integral. E, logicamente, com um direcionamento responsável do custeio pelos nossos governantes
 
*Murilo Aith é advogado de Direito Previdenciário e sócio do escritório Aith, Badari e Luchin Sociedade de Advogados
 
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Murilo Aith

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Wil Caravanti
04.11.2026
Design de Imaginação

“Imaginação é mais importante que conhecimento.” Albert Einstein Antes de existir no mundo, muitas das grandes realizações humanas existiram primeiro na imaginação de alguém. Walt Disney imaginou na Flórida algo que ia muito além de um parque de diversões. Lúcio Costa e Oscar Niemeyer ajudaram a transformar em cidade uma ideia desenhada para o centro […]

Rose Cruvinel
03.11.2026
Ministério do Idoso é boa ideia, mas precisa ser eficiente

A criação de um Ministério do Idoso foi uma das primeiras propostas anunciadas pelo presidente Lula da Silva, depois de confirmada sua reeleição. A ideia merece ser recebida com seriedade e espírito público. Como médica, vereadora e integrante da população idosa, conheço de perto os desafios do envelhecimento e apoio qualquer iniciativa que coloque esse […]

Luiz Augusto Araujo
03.11.2026
Você sabe se comunicar bem?

Você consegue expressar suas ideias com clareza? Sabe organizar o que deseja dizer, transmitir mensagens de forma objetiva e convencer as pessoas? Embora a comunicação esteja presente em praticamente todas as situações do cotidiano, nem sempre temos consciência de como nos comunicamos e de quais aspectos podemos melhorar. Para ajudar a responder a essas perguntas, […]

ANA CARLA ABRAO
02.11.2026
O Brasil que desperdiçamos

Quanto custa ao Brasil continuar sendo tão desigual? Não apenas em termos de injustiça social, de pobreza ou de oportunidades negadas a milhões de brasileiros. Quanto nos custa em crescimento, produtividade, segurança e prosperidade? E, talvez mais importante, quanto perdemos com a manutenção de uma sociedade que desperdiça tanto do seu próprio potencial? Em uma […]

Ricardo Menegatto
02.11.2026
Black Friday e os falsos descontos

A Black Friday se aproxima e, com ela, chegam as promessas de grandes descontos, ofertas por tempo limitado e oportunidades aparentemente imperdíveis. Em 2026, a principal data promocional do comércio será celebrada em 27 de novembro. Mas, em meio à expectativa de economizar, surgem situações que costumam gerar dúvidas e frustrações: a loja anuncia um […]

Edemundo Dias de Oliveira Filho
30.10.2026
A cegueira deliberada do oráculo

“A partir de certo ponto, as informações já não informam — deformam. Podem até obscurecer o mundo.” Byung-Chul Han Por que os diagnósticos — apenas ou embora certeiros — não ajudam a nação? Passadas as eleições, o Brasil não assistiu tão somente ao arrefecimento da beligerância. Assistiu, sobretudo, à sua consolidação como método de governabilidade. […]

André Naves
29.10.2026
Fim da escala 6 por 1: Prosperidade e Inclusão

A escala 6 por 1 – seis dias de trabalho para um de descanso – sempre cronometrou a semana de 14,8 milhões de trabalhadores brasileiros sem se importar com o quanto de vida sobrava depois do expediente. Quase nada. José Mujica, o presidente uruguaio que se tornou símbolo mundial de humildade, simplicidade e humanidade, costumava […]

José Ricardo Caixeta Ramos
29.10.2026
Educação sanitária, um dos pilares da defesa agropecuária em Goiás

Nos últimos três anos, a Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa) passou por uma transformação relevante em sua cultura organizacional. Tradicionalmente vista com receio pelo produtor rural, que associava a chegada de nossas equipes a possíveis multas e sanções, a Agência reinventou sua maneira de atuar. Hoje somos uma instituição parceira, que prioriza a orientação […]