Logo

As flores e as dores

WhatsAppFacebookLinkedInX
02.07.2012 - 11:54:48

Viver no Cerrado durante a estiagem nem sempre é fácil, mas tem lá suas vantagens. Uma delas é poder apreciar o espetáculo das quaresmeiras e ipês floridos, que enchem o campo e as ruas das cidades de cor e de beleza. Em Goiânia é fácil se deparar com uma imagem assim, basta andar um pouquinho.
Quinta-feira passada eu estava indo para o escritório, quando dei de cara com uma imensa quaresmeira, repleta de flores lilases. Ficamos, então, eu e um catador de papel apreciando a árvore. De repente, ele me pergunta se eu não tinha uma caneta usada para lhe dar. Disse que não e quis saber por que ele queria o tal objeto.

“É que eu adoro desenhar, dona. Sempre que vejo uma árvore bonita assim, abro meu caderno e faço um desenho. O problema é que não tenho giz de cera, só esse lápis velho. Queria ao menos uma caneta usada, mesmo que estivesse com a tinta fraca, só pra dar uma corzinha nos traços dessa quaresmeira”, me explicou.

Ele esticou-se sobre o enorme carrinho de ferro de coleta de papéis que empurrava, e tirou lá de dentro um caderno encardido e bem gasto. Com cuidado, foi me mostrando, folha a folha, os singelos desenhos que fazia, a cada vez que passava por uma rua da capital e via uma árvore que lhe tirava o fôlego.
O homem em questão é Seu Celestino Gomes. Piauiense, veio para Goiânia há um ano, com os quatro filhos pequenos, porque a mulher morreu no parto do caçula e ele não tinha como trabalhar e cuidar da família ao mesmo tempo. Aqui ele divide um barracão com a irmã e dois sobrinhos, no Bairro Floresta.

Por falta de formação profissional, Seu Celestino conta que o único emprego que conseguiu foi de catador de papel. Mas não se abate e ainda dá graças a Deus. “Dona, o que importa é ganhar a vida honestamente. Se a tem saúde e ganha o pão com dignidade, para todo o resto dá-se um jeito”, ensinou.
Pedi a Seu Celestino que aguardasse um minutinho e corri na papelaria perto do local onde estávamos. Comprei uma caixa de giz de cera, canetinhas coloridas e um caderno específico para desenhos. Quando entreguei tudo a ele, vi aquele homem enorme transformar-se num menino. Nunca um presente meu fez alguém tão feliz.  

“Dona, não carecia disso, não! Tô até envergonhado… Mas não vou negar que fiquei muito feliz, principalmente por causa desses dois”, me disse, apontando para o giz de cera amarelo e para o rosa. “Essas são as cores dos ipês. Agora vou poder desenhá-los como eles são!”, vibrou.
Quando trabalhei na Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma), um agrônomo me explicou que as flores do ipê são, na verdade, uma resposta ao enorme estresse ao qual a planta é submetida, em função da falta de água. Diante da seca, ele livra-se das folhas e floresce, para produzir as sementes e perpetuar a espécie.

Gente como Seu Celestino se parece com os ipês. Diante de toda a aridez da vida, que pode lhes tomar pessoas queridas, dinheiro, conforto e até mesmo a paz de espírito, respondem com beleza e delicadeza. Transmutam os espinhos e as ervas daninhas em flores frescas. Desabrocham para provar que não se rendem.

Fácil não é. Há que se ter coragem para abrir o peito e deixar o novo entrar, quando o velho já nos feriu em demasia. Há que se ter disposição para esfregar os olhos cansados de ver, e transformá-los em olhos capazes de enxergar. Há que se ter desapego, pois quando o vento forte sopra, leva embora tudo o que floriu.

Acontece que não florescer é negar o ciclo da vida. O tempo da semente é necessário. Diante da dor e da fragilidade, o recolhimento e o silêncio podem ser remédios para ajudar a cicatrizar a ferida. Mas o grão não pode permanecer para sempre embotado em si mesmo. A árvore quer surgir. Quer subir. Com folhas, flores e novas sementes. Floresce quem é podado no seu amor, quem semeou em terreno estéril, mas nem por isso desiste de um buscar solo fértil, onde sua semente será lançada e dará frutos. Floresce quem teve seus planos profissionais ceifados e, ainda assim, corre atrás de novas alternativas para construir uma carreira digna e criativa.

Floresce quem perdeu seu patrimônio material e hoje busca o cultivo de bens realmente duradouros, reforçando suas raízes. Floresce quem adoeceu e luta bravamente pela vida, porque os vendavais podem até desfolhar a árvore, mas não atingem a seiva que a mantém de pé.
Floresce quem perdeu um ente querido e consegue transformar a saudade em estímulo para viver com mais sensibilidade e menos cinismo; para despir-se do que é supérfluo e valorizar o essencial. Quem superou um vício e aprendeu a viver por só hoje, fixando-se no presente e abandonando a tristeza do passado e a angústia do futuro.

Floresce quem não desiste de si mesmo, quem compreende que a vida é cíclica e que é preciso deixar fluir. Seu Celestino está aí para provar que é possível, apesar dos pesares. Você pode até não acreditar, leitor, mas eu vejo flores em você.

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
lABORATÓRIO pÚBLICO - cIÊNCIA, pOLÍTICA E MEIO AMBIENTE
29.09.2026
Sem apocalipse ou redenção II

No último artigo por aqui, comentei das visões diametralmente opostas a respeito da inteligência artificial. De um lado, os otimistas tecnológicos acreditam que ela resolverá todos os nossos problemas; de outro, os tecnofóbicos já decretam para breve o fim da humanidade à medida que a IA rapidamente evoluir e sair de nosso controle. Argumentei que […]

Noite e Dia
28.09.2026
Armazém AZ apresenta mostra sobre Maria Abadia Haich em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Armazem AZ apresentou no último sábado (26/9), em Goiânia, a exposição Tessituras: Histórias de Bá, dedicada à trajetória de Maria Abadia Haich, co-fundadora da loja e personagem ligada à formação e à difusão do design brasileiro na cidade. Construída a partir do olhar de seus seis netos, com coordenação de […]

Curadoria Afetiva
27.09.2026
Códigos atemporais

Há uma contagiante efervescência cultural, como costumávamos caracterizar o circuito social na década de 80, que, curiosamente, vem se reprisando na capital goiana. Salões de arte, mostras de artistas renomados (estejam eles vivos ou mortos), apresentações públicas e privadas de espetáculos clássicos, caricatos e criativos. Aparentemente, um despertar coletivo que contamina, no bom sentido, todos […]

Joias do Centro
25.09.2026
Avenida Goiás: a linha que desenhou o coração de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Há avenidas que levam a algum lugar. E há aquelas que, antes mesmo de serem abertas, já foram concebidas para dizer alguma coisa sobre a cidade. Em Goiânia, a Avenida Goiás pertence à segunda categoria. Desenhada no plano original da capital pelo arquiteto e urbanista Attilio Corrêa Lima, ela nasceu como […]

Noite e Dia
25.09.2026
Evento apresenta primeira mostra de Di Cavalcanti para convidados em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Cerrado Galeria realizou nesta quinta-feira (24/9) a abertura exclusiva para convidados da apresentação do novo ciclo expositivo da galeria, que traz pela primeira vez à Goiânia obras do renomado artista Di Cavalcanti, além da primeira individual do goianiense Walter Pimentel. As mostras Di Cavalcanti: Lírico, brasileiro, modernista, e Anímica e […]

Noite e Dia
21.09.2026
Jardim Potrich une Yoga, cerâmica e arte em programação especial; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Jardim Potrich abriu suas portas para uma programação que aproxima duas práticas aparentemente distintas — Yoga e cerâmica — a partir de um território comum: a presença. No dia 12 de setembro, o jardim recebeu “Beta & Bia no Jardim”, uma manhã dedicada ao movimento, à respiração e à consciência […]

CURADORIA AFETIVA
20.09.2026
Da Tranquilidade botânica

“No entanto, o sábio não pode desprezar os maus, porque, em todos os tempos, as condições morais quase sempre são as mesmas. Se o mal é uma necessidade da vida, da qual os homens não podem subtrair, não se deve odiá-los, mas aprender a respeitá-los.” (Da tranquilidade da alma, Sêneca) A palavra mal vem do […]

Joias do Centro
18.09.2026
Praça Cívica preserva a ideia de ágora onde Goiânia encontrou sua identidade

Carolina Pessoni Goiânia – Antes de Goiânia existir como cidade, ela já existia como desenho. E, nesse desenho, havia um ponto destinado a concentrar o poder, organizar os caminhos e criar um lugar de encontro. Era a Praça Cívica, concebida pelo urbanista Attilio Corrêa Lima como o centro administrativo da nova capital. A ideia, segundo o […]