Logo

As ferramentas de Dilma

WhatsAppFacebookLinkedInX
10.08.2011 - 13:51:35

O mundo de novo está em crise. Num movimento cíclico, iniciado na Europa, aos poucos se descortinou um cenário no qual mesmo as aparentemente mais sólidas economias se revelaram bem mais frágeis do que se esperava. Chegou aos Estados Unidos, maior economia do mundo, responsável sozinha por 30% de tudo o que se produz e se consome no planeta. Por todas as conseqüências decorrentes é que o governo brasileiro, embora tente não demonstrar, está apavorado. De proporções muito maiores que a anterior, que deu vida e graça ao termo marolinha, essa crise tem peso para derrubar as exportações brasileiras e o consumo externo, afetar os investimentos estrangeiros e, por que não, mexer com as projeções econômicas do ministro Guido Mantega. As condições do País, desta vez, do ponto de vista meramente estatístico são melhores, mas há um fenômeno que, se instalado, tem efeito devastador e cuja reversão exige mundos e fundos: o desânimo.


As autoridades e alguns economistas estão se apressando em dizer que a crise não atingirá o Brasil, que as condições macroeconômicas são melhores, que temos “gordura” para queimar e evitar maiores danos. Essa é uma meia verdade. Se as vendas externas caírem, produzirá desemprego em setores específicos, resultando na formação de um temor por parte da população economicamente ativa. Isso pode levar ao tal desânimo ao qual me referi. As pessoas deixam de gastar, passam a temer pelo futuro, compram o essencial e a economia, aos poucos, vai parando. Sem reação, essa bola se torna crescente e acaba formando um cenário de desaquecimento cuja retomada é custosa e demorada. Pronto, vira recessão. Disse a palavra que estava fazendo rodeios para não dizer.


Mas essa trajetória é inevitável? Claro que não. Dilma dispõe de meios para evitar que cheguemos a esse cenário, pelo menos até que o mundo resolva seus problemas de insolvência e de desconfiança com seus governantes. Vamos então ao que interessa: que dispositivos tem o governo para evitar que isso ocorra? Primeiro ele precisa constatar a queda das exportações e agir rápido, antes que as primeiras demissões sejam feitas. Ele pode, por exemplo, baixar o nível do depósito compulsório que recolhe dos bancos sobre os depósitos à vista. Esse dinheiro, que hoje virou um estoque espetacular de R$ 420 bilhões, pode muito bem ser usado para aumentar o volume de dinheiro em circulação, ampliar as ofertas de crédito e reduzir o nível de exigência para aqueles que precisam de capital.


Outra saída seria baixar os juros, estratosféricos, para evitar que as pessoas pensem apenas em poupar e guardar dinheiro e vejam vantagem em comprar. Toda vez que o juro sobe as vendas caem e o contrário, no caso, poderia manter aquecidas as curvas de venda. Se você tem uma remuneração ótima para suas economias, porque motivo vai sair gastando?
As reservas, hoje de US$ 350 bilhões, são outro instrumento importante. A modulação de uso, ora comprando, ora vendendo dólares, pode tranquilamente segurar o câmbio e regular a liquidez de dinheiro na praça.


Outra ferramenta que tem sido muito utilizada e que desta vez não será diferente é a carga tributária. O governo pode abrir mão de impostos, baixar pontualmente algumas alíquotas em segmentos como construção, carros, materiais de construção, linha branca, etc., de modo a mexer nos preços finais e torná-los atraentes ao consumo. Esses setores puxam outros e a economia garante o seu desempenho.
Como dá para ver, a presidenta Dilma tem muitas possibilidades. A ordem está clara, será a de manter o consumo interno a todo custo. Mas, cá entre nós, a grande torcida é para que o companheiro Obama dê logo a volta por cima, resolva rápido a desconfiança e os impasses eleitorais e livre não só o Brasil, mas o mundo, de uma crise que pode ter efeito devastador.

—-

Eleno Mendonça é formado em Jornalismo pela FIAM e em Publicidade pela Unip, tem vários cursos de especialização, como O Texto da Reportagem e Laboratório de Texto, pela ECA, da USP, e pós-graduação em História da Política, pela Universidade de Brasília (UnB). Entrou no jornalismo em 1982. Foi repórter no DCI, Estadão, Folha de S. Paulo, coordenador de Economia em O Globo, chefe da sucursal do Jornal do Brasil em  SP, Editor de Economia, Editor de Primeira Página, Secretário de Redação, Editor Executivo e Editor-Chefe no jornal O Estado de S. Paulo. Desde 2004 está na DPZ Propaganda, como diretor de Comunicação e Relações Governamentais.

 

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Eleno Mendonça

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Wil Caravanti
04.11.2026
Design de Imaginação

“Imaginação é mais importante que conhecimento.” Albert Einstein Antes de existir no mundo, muitas das grandes realizações humanas existiram primeiro na imaginação de alguém. Walt Disney imaginou na Flórida algo que ia muito além de um parque de diversões. Lúcio Costa e Oscar Niemeyer ajudaram a transformar em cidade uma ideia desenhada para o centro […]

Rose Cruvinel
03.11.2026
Ministério do Idoso é boa ideia, mas precisa ser eficiente

A criação de um Ministério do Idoso foi uma das primeiras propostas anunciadas pelo presidente Lula da Silva, depois de confirmada sua reeleição. A ideia merece ser recebida com seriedade e espírito público. Como médica, vereadora e integrante da população idosa, conheço de perto os desafios do envelhecimento e apoio qualquer iniciativa que coloque esse […]

Luiz Augusto Araujo
03.11.2026
Você sabe se comunicar bem?

Você consegue expressar suas ideias com clareza? Sabe organizar o que deseja dizer, transmitir mensagens de forma objetiva e convencer as pessoas? Embora a comunicação esteja presente em praticamente todas as situações do cotidiano, nem sempre temos consciência de como nos comunicamos e de quais aspectos podemos melhorar. Para ajudar a responder a essas perguntas, […]

ANA CARLA ABRAO
02.11.2026
O Brasil que desperdiçamos

Quanto custa ao Brasil continuar sendo tão desigual? Não apenas em termos de injustiça social, de pobreza ou de oportunidades negadas a milhões de brasileiros. Quanto nos custa em crescimento, produtividade, segurança e prosperidade? E, talvez mais importante, quanto perdemos com a manutenção de uma sociedade que desperdiça tanto do seu próprio potencial? Em uma […]

Ricardo Menegatto
02.11.2026
Black Friday e os falsos descontos

A Black Friday se aproxima e, com ela, chegam as promessas de grandes descontos, ofertas por tempo limitado e oportunidades aparentemente imperdíveis. Em 2026, a principal data promocional do comércio será celebrada em 27 de novembro. Mas, em meio à expectativa de economizar, surgem situações que costumam gerar dúvidas e frustrações: a loja anuncia um […]

Edemundo Dias de Oliveira Filho
30.10.2026
A cegueira deliberada do oráculo

“A partir de certo ponto, as informações já não informam — deformam. Podem até obscurecer o mundo.” Byung-Chul Han Por que os diagnósticos — apenas ou embora certeiros — não ajudam a nação? Passadas as eleições, o Brasil não assistiu tão somente ao arrefecimento da beligerância. Assistiu, sobretudo, à sua consolidação como método de governabilidade. […]

André Naves
29.10.2026
Fim da escala 6 por 1: Prosperidade e Inclusão

A escala 6 por 1 – seis dias de trabalho para um de descanso – sempre cronometrou a semana de 14,8 milhões de trabalhadores brasileiros sem se importar com o quanto de vida sobrava depois do expediente. Quase nada. José Mujica, o presidente uruguaio que se tornou símbolo mundial de humildade, simplicidade e humanidade, costumava […]

José Ricardo Caixeta Ramos
29.10.2026
Educação sanitária, um dos pilares da defesa agropecuária em Goiás

Nos últimos três anos, a Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa) passou por uma transformação relevante em sua cultura organizacional. Tradicionalmente vista com receio pelo produtor rural, que associava a chegada de nossas equipes a possíveis multas e sanções, a Agência reinventou sua maneira de atuar. Hoje somos uma instituição parceira, que prioriza a orientação […]