As férias escolares chegaram e, com elas, um sentimento conhecido por diversas famílias: culpa. Muitos pais se culpam porque precisam trabalhar enquanto os filhos estão em casa, não conseguem oferecer passeios todos os dias, ou até viajar, ou recorrem às telas para dar conta das reuniões e das tarefas domésticas.
Do outro lado desta realidade, estão crianças cheias de energia, desejando aquilo de que mais precisam para se desenvolver: brincar, explorar, criar e receber atenção. O desafio das férias está justamente no encontro entre as demandas da vida adulta e as necessidades da infância.
Diante do mundo corporativo, das contas que precisam ser pagas e das necessidades da infância, a pergunta talvez não seja “como entreter as crianças durante um mês?”, mas “como preservar a infância dentro da rotina possível de cada família?”. Acredito que essa mudança de perspectiva faz toda a diferença.
A ciência já demonstrou que o brincar livre favorece a criatividade, a autorregulação emocional, a resolução de problemas, a linguagem e as habilidades sociais. É brincando que a criança aprende a negociar, lidar com frustrações e desenvolver autonomia.
Na prática, porém, muitos pais vivem uma equação difícil: as férias das crianças não coincidem com as dos adultos e o trabalho continua e os afazeres da casa também. Por isso, diante da correria do dia a dia, o mais importante é compreender que a qualidade de conexão vale mais que a quantidade de horas.
Uma estratégia simples é oferecer presença antes da ausência. Reservar os primeiros 10 ou 20 minutos do dia para um café da manhã sem pressa, um jogo, uma brincadeira ou uma caminhada pode fazer diferença. Quando a criança recebe conexão emocional logo cedo, tende a buscar menos atenção ao longo do dia. Quando finalizar o dia de trabalho, mesmo exaustos, os pais também podem incluir as crianças na organização de alguma atividade da casa, como limpeza e organização ou até preparar o jantar. O importante é ter um tempo de qualidade.
Outro recurso poderoso é a previsibilidade. Para as crianças, rotina significa segurança. Construir, junto com elas, uma “Roda da Rotina” das férias, incluindo momentos de brincar, leitura, pequenas tarefas, tempo ao ar livre, descanso, telas com horário combinado e tempo em família, reduz essa necessidade constante de atenção e favorece a autonomia.
Também vale abandonar a ideia de que boas férias precisam ser caras. As melhores lembranças costumam nascer de brincadeiras simples: cabanas de lençóis, receitas preparadas juntos, piquenique no quintal. No fim, o que permanece na memória afetiva não é o valor da atividade, mas a qualidade da presença. Talvez esse seja o maior convite que as férias fazem aos adultos. Não o de serem pais perfeitos. Mas o de estarem suficientemente presentes dentro da realidade possível.
Conciliar trabalho, responsabilidades e filhos nem sempre será possível da maneira ideal, mas o verdadeiro desafio das férias não é ocupar cada minuto da criança, e sim garantir que, em meio à rotina, ainda exista espaço para a infância acontecer. E enquanto isso, você adulto, também precisa cuidar de si mesmo, que seja tomar um café com calma.
E lembre-se: esta fase vai passar, mais rápido do que parece, então não se esqueça de que o maior presente das férias não é o que se compra ou se programa, mas o vínculo que se fortalece.
*Flávia Soares é jornalista e educadora parental
