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As cotas e o programa “Mais médicos”

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17.07.2013 - 16:15:04

Goiânia – As discussões que seguem ao anúncio do programa do governo federal “Mais médicos” que envolve a exigência de que, antes de se tornarem médicos, os estudantes prestem dois anos de serviços ao SUS, me lembraram muito uma discussão de 11 meses atrás, pouco antes da lei das cotas ser sancionada. Por diversos aspectos.
 
Um deles diz respeito às principais argumentações de quem era contrário a ambas as decisões. No primeiro caso, dizia-se que, ao invés de instituírem cotas, era necessário que a educação básica fosse transformada e tivesse qualidade para que, então, os alunos tivessem a mesma qualidade de formação e, portanto, condição de concorrência. No caso atual, argumenta-se que antes de enviarem os médicos para o interior, seria necessário que houvesse infraestrutura nos hospitais e postos de atendimento.   
 
Em ambos os casos estamos diante de grandes desafios. Está claro que é urgente e necessário investir em infraestrutura em saúde e no desenvolvimento do ensino básico. Mas quando vemos essas posições serem defendidas, parece ser necessário um “antes de” para que não haja mudanças e sacrifícios de certa parcela da população em nome de um desenvolvimento. Enquanto essas mudanças – grandes desafios – não vêm, que gerações continuem a ser rifadas. Que pobres continuem excluídos das universidades públicas. Que as pessoas do interior continuem a morrer sem atendimento médico.
 
Para a universidade ter mais negros, pobres e índios é preciso que quem sempre teve acesso ao ensino básico particular (portanto, de mais qualidade) tenha que fazer mais esforço do que antes era necessário para entrar numa universidade pública (não necessariamente mais esforço do que de quem vem da escola pública). Para que haja menos morte e sofrimento nas pequenas cidades, é necessário que quem teve um ensino superior gratuito, limitadíssimo a poucos brasileiros, enfrente os desafios do interior.
 
Também  me lembrou o caso das cotas, porque a decisão do governo mexeu com gente que estava confortável e acomodado, ao denunciar situações que não são normais. Não é normal que quem estudou em escolas privadas a vida toda tome conta das vagas das universidades públicas. Não é normal que 10% dos alunos dessas universidades venham de escolas públicas. Não é normal não vermos médicos, advogados e engenheiros negros.
 
Também  não é normal que a maioria dos médicos esteja nas capitais enquanto as cidades do interior sofram com essa carência. Não é normal termos uma das menores proporçõs de médicos por habitante da América Latina. Também não é natural que mais de 1900 municípios tenham 1 médico para 3 mil habitantes. Não é normal que esses médicos acumulem dois, três, quatro empregos sem nenhuma regulamentação, se aproveitando das clínicas que existem nas capitais concomitantemente aos empregos públicos. Não é normal que as filas dos hospitais de Goiânia estejam cheias de pessoas do interior que enfrentam diversas dificuldades para chegar até aqui. 
 
Educação e saúde no Brasil são problemas que clamam por soluções. É urgente que haja mudanças. Mas é necessário jogar em todos os tabuleiros. No das cotas, no investimento em pesquisas avançadas e no ensino básico ao mesmo tempo. É preciso que médicos se desloquem para o interior e outras mudanças na saúde acompanhem essa. Está claro que “Mais médicos” não vai resolver o problema da saúde no Brasil. Assim como as cotas não vão resolver o da educação. São medidas para caminhar para as mudanças. Alguma coisa deve ser feita “até que…”. 
 
Até lá, gente que nunca teve acesso à universidade, vai ter se graduado. Veremos médicos negros. Assistiremos à filha da empregada fazer um mestrado. Até lá, menos gente vai morrer em fila de hospitais e postos de saúde. O problema da desigualdade social do Brasil é de todo mundo, não é problema apenas de políticos. Mudar o cenário tosco – aquele que estamos acostumados – exige mudanças que envolvem muita gente.  
 
Quando as cotas estavam prestes a serem sancionadas, vimos pela primeira vez alunos secundaristas de escolas privadas, organizados, nas ruas manifestando contra as cotas. E, surpreendentemente, pela qualidade na educação básica. Assim como estamos vendo médicos e estudantes organizados contestando a decisão. Se os alunos que contestaram as cotas tivessem se juntado ao coro dos que pedem por qualidade em educação há anos, talvez a briga fosse maior. Se esses médicos, organizados, se estruturassem para debater e pedir por infraestrutura, talvez até os alunos que começarão ano que vem curso de medicina prestarem os serviços ao SUS, a situação já tenha melhorado.
 
O que temo, com essa argumentação que gira em torno da necessidade de infraestrutura, é que nem se houvesse uma boa infraestrutura nos hospitais, esses profissionais aceitariam essa decisão sem contestá-la. Porque eles não querem enfrentar o interior, simplesmente. 
 
Porque o interior do Brasil, de fato, não garante o mesmo acesso a bens e possibilidade de acumular empregos privados e públicos como nas capitais. Porque as cidades do interior do Brasil expõem as fragilidades de um país que está longe de ser desenvolvido. Que ainda não tem nem 40% de tratamento de esgoto.
 
Dizem temer assinar atestado de óbito no interior porque não tinha infraestrutura para atender o paciente. Mas não temem assinar o mesmo atestado na capital quando um paciente morreu na UTI, sob sua responsabilidade, porque ele atendia um parto, por exemplo, ao mesmo tempo. Porque acumulava empregos. 
 
Até as palavras da presidenta no último dia 8, ser médico no Brasil pouco tinha a ver com se envolver com as responsabilidades sociais e precariedades que envolvem a saúde no Brasil. Porque a remuneração e a possibilidade de trabalhar em clínicas particulares ainda estimulam os jovens a encararem essa profissão, sem se envolver com seus problemas. Não é à toa que é um dos cursos mais concorridos.
 
Ser professor no Brasil, todos sabem, é se envolver com a mesma responsabilidade social e precariedades, sem o bônus da remuneração, o que desencoraja os jovens a enfrentarem a profissão. Não é à toa que licenciaturas são os cursos menos concorridos.
 
Essa determinação vale somente para quem topar cursar medicina a partir do ano que vem. Portanto, quem se interessar por essa opção de formação, deve saber que ser médico significa, a partir de agora, mais do que ser chamado de doutor e ter boa remuneração. Mas se envolver socialmente com a profissão. Brigar por melhores condições de trabalho. Enfrentar o Brasil no interior que ainda está se construindo. 
 
Nada mais justo que um aluno que fez uso de recursos públicos para se formar, seja chamado para contribuir de volta com a sociedade que financiou seus estudos, atendendo às carências de sua área. A remuneração, apesar de não estar definida, pode ser entre R$3 e R$10 mil, mais auxílio alimentação e moradia. São muitos profissionais que desejariam esse salário antes de se formarem. E já há quem encare esse desafio no interior, depois de formado, como professores fazem ao prestarem concursos Brasil adentro. E a remuneração não é bem essa. 
 
De repente, os holofotes se voltaram para os médicos. Até então, saúde parecia não ser problema deles. E então, pergunto, por que não os médicos?  Por que não questionar o acúmulo de empregos? A qualidade da formação? Por que eles devem ser o último passo na caminhada para mudança da saúde? Esses médicos não vão trabalhar para o governo nem para político algum, como questionam. Mas para quem teve parte no financiamento de seus estudos e precisa de seu conhecimento. Uma questão de vida ou de morte.   
 
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por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

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