Logo

As anotações de Amâncio

WhatsAppFacebookLinkedInX
02.09.2017 - 10:50:00
Goiânia – Amâncio mora em um bairro tranquilo de uma grande cidade. Trabalhou a vida toda como sapateiro. Aprendeu esse ofício ainda criança e dele sempre se orgulhou. Conheceu muitas pessoas. Algumas já partiram. 
 
Ouviu muitas histórias. Sempre com atenção. Aproveitou elogios e críticas. Aos poucos, foi entendendo do pisar de cada um. E dos temperamentos que moram acima do pisar. Certo dia, uma mulher o encarou e agradeceu pelos saltos consertados de um tamanco de família. Trocou as chinelas e, ansiosa, saiu da sapataria com os tamancos renovados. Recebeu gente irritada também. Presenciou discussões. Aprendeu em casa que alterar a voz é pouco educado, inclusive para revidar arroubos de outros. 
 
Estudou pouco o Amâncio. No seu tempo, era difícil conciliar as coisas. Seu pai morreu quando ele era muito pequeno. Coube à mãe cuidar dele e das três irmãs menores. Do tempo que estudou, guarda a lembrança de Dona Arlete que, um dia, ensinou que todos os dias deveríamos aprender alguma coisa nova: "Nem que fosse uma palavra", dizia ela. Amâncio gosta de anotar em um caderninho as palavras que não conhece. Depois pesquisa. E pensa sobre elas. 
 
A sapataria de Amâncio, hoje, é tocada pelos sobrinhos. Ele não se casou nem teve filhos. Vez em quando, ele aparece por lá. Observa as histórias que descansam nas prateleiras ao lado de tantos sapatos que servem para o caminhar de tanta gente. Gosta de sentar no banco da praça e conversar com aposentados que moram naquele bairro. Falam de tudo. Lembranças e esperança. Quando está sozinho, Amâncio folheia o tal caderninho e viaja com as palavras aprendidas em tantos anos de vida. 
 
Dia desses, ele parou em uma e riu sozinho. "Ataraxia". Quando ouviu essa palavra, achou que fosse algum remédio. Era o Antonino, professor de línguas difíceis, que havia ditoa palavra em tom elogioso a Amâncio. Na época, ele agradeceu sem entender. Mas pesquisou. A tal palavra nasceu faz muito tempo, na Grécia, e significa tranquilidade, diminuição da intensidade dos desejos, paz interior. 
 
Amâncio se lembrou de que ele tentava lembrar de cor a tal palavra bonita e não conseguia, tinha que abrir o caderninho. Um dia, em uma conversa no entregar de uns sapatos arrumados, disse isso ao professor Antonino. E ele, sem tempo para rodeios, declarou que Amâncio não precisava decorar o que já vivia. Disse o professor que ele era um consertador de vidas pela tranquilidade com que ouvia e falava. "Precisamos de paz, de gente que inspira paz", concluiu o professor. 
 
 Antonino já morreu, mas aquilo ficou com Amâncio. É bom aprender, mas o melhor é viver o que se aprende. A palavra “paciência”, um dia, já foi desconhecida. A palavra “cabotina” é importante de ser conhecida para ser evitada. A palavra “compaixão” é a que Amâncio acha a mais bonita de todas. Sofrer o sofrimento do outro, ajudar no seu caminhar, arrumando o que se consegue, mas estando ali no caso de alguma queda. Os nossos pés precisam ficar mais protegidos com sapatos arrumados. Mas e o que mora acima? O que protege nossa alma? Nossas intenções? Há tantas palavras naquele caderninho, há tanto significado para ser aprendido. Há tantas pessoas que já se foram, mas que disseram alguma coisa que mereceu ser anotada. 
 
Ah, o tempo. O tempo apressado. Ainda ontem, Amâncio era um menino. Passaram-se, então, noventa anos. E ele prossegue. Nos seus passos lentos. Na sua humildade cativante de saber que, todo dia, pode aprender alguma coisa. Ontem, uma sobrinha sua disse que aprendeu na aula de filosofia uma palavra que queria passar para ele. Amâncio abriu logo o caderninho para anotar. "Eudaimonia", disse ela. Ele olhou para o alto, achou bonito e escreveu. 
 
"Tio, a palavra significa felicidade. É um dom e é um hábito. Todo mundo tem, mas nem todo mundo vive. Lembrei do senhor, porque o senhor, para mim, é o retrato de um homem feliz". Ele anotou, palavra e significado, deu um beijo bom na sobrinha e saiu caminhando vagarosamente até a praça. Ali olharia para as pessoas e para o tempo. "Eudaimonia", repetia ele. "Essa vai ser difícil de decorar". Lá do Céu, o professor Antonino talvez esteja dizendo, "Não precisa, Amâncio".

*Gabriel Chalita é escritor, doutor em Filosofia do Direito e em Comunicação e Semiótica.

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Gabriel Chalita

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Wil Caravanti
04.11.2026
Design de Imaginação

“Imaginação é mais importante que conhecimento.” Albert Einstein Antes de existir no mundo, muitas das grandes realizações humanas existiram primeiro na imaginação de alguém. Walt Disney imaginou na Flórida algo que ia muito além de um parque de diversões. Lúcio Costa e Oscar Niemeyer ajudaram a transformar em cidade uma ideia desenhada para o centro […]

Rose Cruvinel
03.11.2026
Ministério do Idoso é boa ideia, mas precisa ser eficiente

A criação de um Ministério do Idoso foi uma das primeiras propostas anunciadas pelo presidente Lula da Silva, depois de confirmada sua reeleição. A ideia merece ser recebida com seriedade e espírito público. Como médica, vereadora e integrante da população idosa, conheço de perto os desafios do envelhecimento e apoio qualquer iniciativa que coloque esse […]

Luiz Augusto Araujo
03.11.2026
Você sabe se comunicar bem?

Você consegue expressar suas ideias com clareza? Sabe organizar o que deseja dizer, transmitir mensagens de forma objetiva e convencer as pessoas? Embora a comunicação esteja presente em praticamente todas as situações do cotidiano, nem sempre temos consciência de como nos comunicamos e de quais aspectos podemos melhorar. Para ajudar a responder a essas perguntas, […]

ANA CARLA ABRAO
02.11.2026
O Brasil que desperdiçamos

Quanto custa ao Brasil continuar sendo tão desigual? Não apenas em termos de injustiça social, de pobreza ou de oportunidades negadas a milhões de brasileiros. Quanto nos custa em crescimento, produtividade, segurança e prosperidade? E, talvez mais importante, quanto perdemos com a manutenção de uma sociedade que desperdiça tanto do seu próprio potencial? Em uma […]

Ricardo Menegatto
02.11.2026
Black Friday e os falsos descontos

A Black Friday se aproxima e, com ela, chegam as promessas de grandes descontos, ofertas por tempo limitado e oportunidades aparentemente imperdíveis. Em 2026, a principal data promocional do comércio será celebrada em 27 de novembro. Mas, em meio à expectativa de economizar, surgem situações que costumam gerar dúvidas e frustrações: a loja anuncia um […]

Edemundo Dias de Oliveira Filho
30.10.2026
A cegueira deliberada do oráculo

“A partir de certo ponto, as informações já não informam — deformam. Podem até obscurecer o mundo.” Byung-Chul Han Por que os diagnósticos — apenas ou embora certeiros — não ajudam a nação? Passadas as eleições, o Brasil não assistiu tão somente ao arrefecimento da beligerância. Assistiu, sobretudo, à sua consolidação como método de governabilidade. […]

André Naves
29.10.2026
Fim da escala 6 por 1: Prosperidade e Inclusão

A escala 6 por 1 – seis dias de trabalho para um de descanso – sempre cronometrou a semana de 14,8 milhões de trabalhadores brasileiros sem se importar com o quanto de vida sobrava depois do expediente. Quase nada. José Mujica, o presidente uruguaio que se tornou símbolo mundial de humildade, simplicidade e humanidade, costumava […]

José Ricardo Caixeta Ramos
29.10.2026
Educação sanitária, um dos pilares da defesa agropecuária em Goiás

Nos últimos três anos, a Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa) passou por uma transformação relevante em sua cultura organizacional. Tradicionalmente vista com receio pelo produtor rural, que associava a chegada de nossas equipes a possíveis multas e sanções, a Agência reinventou sua maneira de atuar. Hoje somos uma instituição parceira, que prioriza a orientação […]