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Aqueles que ninguém quer

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20.08.2012 - 11:38:48
Você tem um dependente químico na sua família? Pois se não tiver, vou lhe dizer com conhecimento de causa: é uma das coisas mais tristes que existem. Você cresce com aquela pessoa, aprende a amá-la, sabe dos seus potenciais e qualidades, até que um dia ela se vicia numa substância e destroi a própria vida e a de quem está perto.

O dependente entra numa roda-viva terrível, na qual seu único objetivo passa a ser buscar formas de conseguir a droga. Nessa obsessão, ele perde o emprego, os amigos, a dignidade e a saúde. Em frangalhos, aceita submeter-se a um tratamento de desintoxicação. Fica limpo, aparentemente recuperado. Até a primeira recaída.

Ele sai para comprar alguma coisa e demora. Leva bem mais tempo que o habitual. O telefone toca e sua espinha gela. Do outro lado da linha, um desconhecido pede para você ir buscá-lo num lugar estranho. Falando coisas sem nexo, em situação deplorável, o dependente mostra que não resistiu à tentação. 

A cada tratamento reiniciado, a esperança de que ele recobre a força, a serenidade e a alegria. A cada tentativa frustrada, o aumento da dor, da sensação de impotência e do medo de que aquele tormento nunca tenha fim. Não raro, muitas famílias não suportam tamanho desgaste e desistem de seus dependentes.  

É justamente por conhecer de cor e salteado essa história, por saber o quanto é complicado lidar com a dependência química, que li com perplexidade uma notícia, na semana passada, dizendo que uma organização não-governamental de Goiânia especializada nesse tipo de tratamento foi despejada do prédio que ocupava.  

Por causa da falta de ação do poder público, cerca de 70 dependentes químicos atendidos pelo projeto Metamorfose, que ficavam abrigados num prédio na Rua 57, no Centro, foram desalojados da sede e tiveram de dormir ao relento. Os funcionários da ONG se solidarizaram e também passaram a noite na rua.

Nas calçadas dormiram mães com crianças de colo, idosos e adultos de várias idades. Gente que perdeu por completo seus vínculos familiares e vivia em situação de rua, mas que no projeto Metamorfose recebeu apoio, cuidado e estímulo para se livrar da dependência química e resgatar a dignidade.

Embora o Ministério Público tivesse avisado a Prefeitura de Goiânia há dois meses que o prédio ocupado pela ONG estava prestes a desabar e que sua desocupação e transferência dos atendidos do projeto eram questões de urgência, o poder público nada fez. Nenhuma providência para buscar uma nova sede foi tomada.

A Prefeitura só se mobilizou quando foi dada a ordem de despejo, a população carente atendida e os voluntários do Metamorfose passaram a noite ao relento e a imprensa noticiou o fato. O pior é que apesar disso me deixar profundamente indignada, não me causa nenhuma estranheza. Dependente químico não dá voto. Não dá ibope.

A criança e o idoso em situação de rua comovem. Um adulto que não seja usuário de drogas, em situação de rua, pedindo comida e abrigo, comove. Mas o dependente químico é aquele que ninguém quer. Ele é um “estorvo” ambulante, tanto para a sociedade civil quanto para o poder público.  

Embora a dependência química seja considerada pela Organização Mundial de Saúde uma doença, um transtorno cerebral como qualquer outro problema psiquiátrico ou neurológico, a maioria das pessoas não pensa assim. O dependente químico ainda é visto como um marginal, um vagabundo que não gosta de trabalhar.

Além do estereótipo, há ainda o fato de não haver cura para a dependência química. Não há ex-alcoolistas, ex-cocainômanos, ex-cracônomos. O que existe são dependentes de álcool, cocaína, crack ou de qualquer outra substância psicoativa abstêmios. Não há a menor chance de essas pessoas tomarem apenas um gole, darem uma cheirada, uma única fumada. A compulsão aqui é a regra.

É por não haver cura que se trabalha com a ideia de o dependente se manter abstêmio “só por hoje”. Como se vê, a reabilitação dessas pessoas é um processo longo, caro e cujo resultado vem apenas a médio ou longo prazo. Diferentemente do asfalto, das praças ou de outras ações que “saltam aos olhos” dos eleitores. 
 
Sônia Barbosa da Silva, que comanda a ONG Metamorfose, sabe bem como essa luta é difícil, mas nunca desistiu dela. Remexendo nos meus guardados, encontrei uma reportagem que fiz com ela há exatos 12 anos, em agosto de 2000, quando trabalhava no jornal O Popular. 
 
Sônia é natural de Aparecida de Taboado (MT) e fugiu de casa aos 11 anos, por causa das surras do pai. Rodou o Brasil inteiro de carona e envolveu-se com drogas. “Quase sempre, as pessoas que me viam deitada na rua aproveitavam para me chutar, urinar sobre o meu corpo e até me apedrejar”, contava ela na reportagem.
 
Sônia internou-se numa clínica em Piracicaba (SP), aos 17 anos, e conseguiu livrar-se das drogas. Casou-se, teve três filhos e veio para Goiânia. Divorciou-se e decidiu ajudar as pessoas que passaram pela mesma dificuldade que ela. Abrigou, durante muitos anos, dentro da própria casa, dependentes em situação de rua. 
 
Com o crescimento do projeto Metamorfose, Sônia precisou buscar uma sede para a ONG. Tenta, há anos, mas não consegue. Não encontra respaldo do poder público e vai se virando como pode, com medidas temporárias e paliativas. Infelizmente, é o preço que ela paga por dedicar sua vida a ajudar aqueles que ninguém quer. 
 
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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