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Ao mestre, sem carinho

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22.10.2012 - 13:24:45

Goiânia – Neste mês se comemorou o Dia do Professor. Homenagens pipocaram nas redes sociais, escolas, entidades, órgãos públicos. Todas muito calorosas, ressaltando a importância da categoria para o desenvolvimento do nosso País. Meras palavras, bem distantes da realidade vivida por esses profissionais nas salas de aula.

Já conhecemos bem as agruras enfrentadas por quem leciona na rede pública, seja no Ensino Fundamental ou no Ensino Médio. Mas os professores universitários também não escapam dos problemas, principalmente aqueles que atuam em instituições de ensino superior privadas.

Um exemplo disso foi um episódio do qual tomei conhecimento, ocorrido em uma faculdade particular de Direito de Goiânia. Disposto a preparar os alunos para a realidade que encontrariam no dia do Exame da Ordem dos Advogados do Brasil, o professor pediu que fizessem peças prático-profissionais à mão.

Durante a produção das peças processuais, o acesso ao Google foi proibido, tendo os alunos apenas a legislação como fonte de consulta. Exatamente o mesmo cenário ao qual são submetidos na segunda fase do Exame OAB. Parece lógico e louvável preparar os estudantes para a realidade, mas não foi o que eles acharam.

Revoltados com o método do professor, qualificado como “tortura” e “terrorismo”, os alunos fizeram um abaixo-assinado, foram até a coordenação do curso e exigiram que a atividade fosse abolida. Usaram o argumento de que não podiam ficar insatisfeitos porque estavam “pagando muito caro por aquilo ali”. E conseguiram.

Durante meu período de docência também passei por situações parecidas. Em minhas tentativas de simular o quadro que os estudantes encontrariam fora da academia, muitas vezes fui taxa de “terrorista”. A diferença é que tive a sorte de contar com o suporte das coordenações de curso, que me apoiaram por perceber que as atividades estavam em consonância com a proposta pedagógica das instituições, e de vários alunos, que compreenderam que o método de ensino era válido e o abraçaram.

É triste perceber que em vez de ser concebida como um processo de caráter transformador, a educação é considerada em diversas instituições de ensino como mercadoria. O estudante “compra” o serviço e escolhe como e quando deve ser prestado. Ele é um “cliente”. E como o cliente sempre tem razão, ele manda.

É evidente que não se pode negar a importância das mídias digitais como ferramentas de aprendizagem. Entretanto, vejo que muitos alunos tornam-se dependentes do Google e das análises mastigadas que nele encontram. Não conseguem desenvolver um raciocínio sem esse sistema de busca, ficam completamente perdidos.

A questão é que nos momentos mais cruciais da carreira de um profissional dificilmente ele poderá dispor do Google. Seja num exame de seleção, numa sustentação oral em audiência, na hora de ministrar uma palestra, conduzir uma reunião ou procurar a solução para uma situação nunca antes vivenciada, é consigo apenas que ele contará.

Aqueles que massacram os professores exigentes, que fogem do óbvio em sala de aula e impõem desafios aos educandos, provavelmente não percebem que a missão de uma instituição de ensino superior não é a mera reprodução das práticas existentes – e que pode ser aprendida em cursos profissionalizantes –, mas a reflexão, a produção de novos conhecimentos e a construção de novos caminhos.

O aluno não é um simples receptor de ideias. A educação é um processo de mão de dupla, por meio do qual o educando aprende com o educador e vice-versa. Porém, atualmente temos uma via de mão única: o estudante é quem dá as cartas, relegando o professor à função de promotor das atividades que ele deseja realizar.

O educando-cidadão quer e valoriza o educador comprometido com seu crescimento, com o desenvolvimento pleno de suas potencialidades. Já o educando-cliente busca um serviço rápido e padronizado, de preferência prestado por alguém que não atrapalhe seus afazeres fora da escola.

Tristemente, vemos a propagação dos educandos-clientes e das escolas-empresas, estas últimas interessadas apenas em vender suas “mercadorias” para o maior público-alvo possível. Alunos desconectados saem das salas de aula como se tivessem saído de um barzinho. Vão para o mercado de trabalho como quem vai a uma festa.

Paulo Freire dizia que “a educação é um ato de amor, por isso, um ato de coragem. Não pode temer o debate. A análise da realidade. Não pode fugir à discussão criadora, sob pena de ser uma farsa”. Sim, hoje vivemos uma farsa. Obedecendo à lei do mercado, o educador finge que ensina, enquanto educando finge que aprende.

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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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