Todos os anos, o Agosto Azul e Vermelho tenta chamar a atenção para um problema que insiste em ser ignorado: a saúde vascular dos brasileiros. E, todos os anos, a sensação é a mesma, a campanha passa, os números continuam alarmantes e a maioria das pessoas segue tratando dor nas pernas, inchaço e varizes como incômodos estéticos, não como sinais de alerta.E isso precisa mudar.
Os dados não deixam margem para dúvida. Um estudo publicado nos Annals of Vascular Surgery, conduzido por pesquisadores do Hospital Israelita Albert Einstein, mostra que entre 30% e 40% da população adulta brasileira apresenta algum grau de doença venosa crônica. Estamos falando de quatro em cada dez adultos convivendo, muitas vezes sem saber, com um problema que pode evoluir para trombose, úlceras, amputações ou até a ruptura de um aneurisma.
E ainda assim, a saúde vascular segue fora da lista de prioridades de check-up da maioria das pessoas. Fazemos exames cardiológicos, monitoramos colesterol, cuidamos da pressão, mas raramente perguntamos ao médico se nossas veias e artérias estão funcionando bem. É uma lacuna de cuidado que custa caro, e não é exagero dizer isso.
O nome da campanha já é didático: azul para as veias, vermelho para as artérias. Um sistema circulatório saudável não é luxo nem vaidade é a base para o funcionamento de todo o organismo.
Como costumo dizer em consultório: o cuidado com a circulação deve fazer parte da rotina de prevenção da mesma forma que os exames cardiológicos e outros check-ups. A saúde vascular influencia diretamente o funcionamento de todo o organismo.
O problema é que insistimos em reduzir toda essa complexidade a um único sintoma: a variz. Ela é, sem dúvida, a manifestação mais visível e também a mais estigmatizada, tratada como questão de estética e não de saúde.
Mas o espectro das doenças vasculares é muito mais amplo e muito mais sério do que isso: insuficiência venosa crônica, trombose venosa profunda, aneurisma da aorta, doença arterial obstrutiva periférica, doença carotídea, esta última, um dos principais fatores de risco para AVC, além de pé diabético, linfedema e lipedema.
Dor nas pernas, sensação de peso, inchaço no fim do dia, câimbras frequentes, feridas que não cicatrizam, mudanças na coloração da pele. Nada disso é normal, por mais que a rotina tente convencer as pessoas do contrário. É algo que reforço sempre aos meus pacientes: o organismo costuma dar sinais que não podem ser ignorados, porque possibilitam tratamento antes que a doença evolua.
O mais difícil nesse cenário é que boa parte dessas complicações é evitável. Diabetes, hipertensão, colesterol alto, obesidade, tabagismo, sedentarismo, envelhecimento e histórico familiar são fatores de risco conhecidos, documentados, sobre os quais já sabemos como agir. A avaliação vascular é simples e, quando necessário, pode ser complementada por um exame de ecodoppler, sem grande complexidade. Por isso, priorizar estes cuidados para prevenção.
E aqui vai algo que considero central na minha prática: o objetivo não é apenas tratar uma doença instalada, mas identificar alterações antes que elas provoquem complicações como trombose, úlceras, amputações ou ruptura de aneurismas. Quanto mais cedo identificamos o problema, maiores são as possibilidades de um tratamento menos invasivo e mais eficaz.
Fica o convite para além da campanha: que o Agosto Azul e Vermelho não termine no calendário. Que sirva de gatilho para hábitos simples e permanentes praticar atividade física, manter o peso adequado, evitar longos períodos sentado ou em pé, controlar diabetes, colesterol e pressão arterial, não fumar, se hidratar e, sobretudo, procurar avaliação vascular diante de sintomas persistentes ou fatores de risco conhecidos.
Cuidar da circulação não deveria ser uma pauta sazonal. Deveria ser rotina como já é, para muita gente, cuidar do coração.
*Fábio Cypreste é médico angiologista
