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Afinidade ou rejeição: o que define o voto no 2º turno?

23.10.2024 - 09:42:08
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Samuel Straioto

Goiânia – No segundo turno das eleições municipais de Goiânia, a dinâmica eleitoral revela uma transformação significativa em relação ao primeiro turno. Os eleitores, que inicialmente dispunham de diversas opções, agora se veem diante de dois candidatos polarizados: Fred Rodrigues (PL) e Sandro Mabel (UB). A escolha torna-se, em grande parte, uma questão de rejeição, em vez de afinidade. Esse cenário, somado à fragmentação do eleitorado e ao fenômeno da abstenção, indica que o resultado final pode ser decidido por quem é "menos rejeitado" pelos eleitores.

O cientista político Elias Tavares analisa esse fenômeno, destacando que "no primeiro turno, o eleitor escolhe aquele com quem ele tem mais afinidade. No segundo turno, se o seu candidato não passou, o movimento que se tem percebido é de 'esse eu rejeito menos'". Segundo ele, a escolha nesse cenário é menos ideológica, com o eleitor optando por aquele que considera menos prejudicial.

Esse fenômeno, frequentemente identificado como "voto útil", ocorre quando o eleitor decide seu voto não com base em uma conexão positiva com o candidato, mas em uma tentativa de evitar que o outro, com o qual tem maior rejeição, vença. “Acaba sendo, sim, uma escolha por voto útil. Não gosto mais de um, então escolho o outro”, detalha Tavares.

A fragmentação do eleitorado
Em Goiânia, as eleições municipais de 2024 refletem claramente esse cenário de rejeição. A capital goiana, no primeiro turno, teve uma fragmentação clara, com Fred Rodrigues (PL), candidato apoiado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, liderando a disputa, seguido por Sandro Mabel (União Brasil), que conta com o apoio do governador Ronaldo Caiado. O terceiro lugar ficou com a candidata do Partido dos Trabalhadores (PT), Adriana Accorsi, que, apesar de relevante votação, não conseguiu avançar para o segundo turno.

Essa divisão entre candidatos de espectros políticos semelhantes, no caso de Fred Rodrigues e Sandro Mabel, cria uma situação em que, apesar de serem ambos identificados com a direita, há uma disputa acirrada por votos, especialmente os que vêm do eleitorado de esquerda que se vê órfão de uma alternativa no segundo turno.

Tavares exemplifica essa situação mencionando o candidato Guilherme Boulos (PSOL), em São Paulo, que, em eleições passadas, buscou atrair o voto de eleitores da extrema direita de maneira estratégica. "É o movimento de tentar angariar qualquer tipo de eleitorado. Nos debates, você vê esse movimento, de não falar mal da esquerda, o que no primeiro turno era veemente", explica o cientista político.

De acordo com Tavares, esse tipo de sinalização visa captar eleitores que ficaram sem alternativa direta. Em Goiânia, a situação não é diferente. Mesmo que tais gestos sejam discretos, podem impactar a percepção dos eleitores que não se identificam com nenhum dos dois finalistas.

Rejeição e abstenção
Além da questão do voto útil, o segundo turno também apresenta um outro desafio para os candidatos: a alta abstenção e o número crescente de votos brancos e nulos. Tavares aponta que há um cansaço visível no eleitorado em relação ao processo eleitoral, especialmente em eleições com grande polarização, como é o caso de Goiânia.

"Percebemos bastante nas análises que o eleitor está cansado do processo eleitoral. O eleitor fala: 'não vou votar, depois justifico, ou pago uma multinha'", diz Tavares. Ele relembra o exemplo das eleições municipais de São Paulo em 2004, quando a campanha de José Serra (PSDB) teve que apelar aos eleitores para que não deixassem de votar durante o feriado prolongado. A peça publicitária usada na ocasião dizia "não troque quatro dias por quatro anos", incentivando os eleitores a comparecerem às urnas.

A abstenção, aliada ao aumento de votos brancos e nulos, pode ser decisiva em eleições com resultados próximos, como se desenha o cenário em Goiânia. "Se você não motiva o eleitor a ir votar, o que acaba acontecendo é que muitos dos que comparecem ainda acabam votando branco ou nulo. E isso pode abrir margem para surpresas no resultado final", alerta Tavares.

A "rejeição menor" define a vitória
No segundo turno, os eleitores que não se identificam com nenhum dos dois candidatos restantes tendem a se basear mais na rejeição do que na afinidade. Nesse sentido, o cenário eleitoral se transforma em uma disputa para conquistar o voto dos que rejeitam menos.

Tavares afirma que essa situação é particularmente delicada em contextos polarizados, como o de Goiânia. "Você tem um potencial de voto órfão da esquerda, e esses eleitores tendem a optar por aquele que menos rejeitam", afirma. Para esses eleitores, as sinalizações de aproximação à esquerda por parte dos candidatos da direita, mesmo que discretas, podem fazer a diferença no resultado final.

No entanto, essa estratégia também apresenta riscos. Se um candidato exagera na aproximação a setores opostos, pode acabar gerando uma retórica desfavorável para futuras disputas eleitorais. "Se o candidato sobe em um palanque ao lado de figuras da esquerda, isso pode ter impacto nas eleições seguintes, especialmente nas eleições gerais de 2026", explica Tavares. Porém, ele pondera que, se a aproximação for apenas por meio de sinalizações sutis, o impacto pode ser menor.

Feriado prolongado e abstenção
Outro fator que agrava a abstenção no segundo turno em Goiânia é a proximidade do feriado de aniversário da cidade, seguido pelo Dia do Servidor Público, apesar de o governador Ronaldo Caiado (União Brasil) e o prefeito Rogério Cruz (Solidariedade) terem alterado o feriado relativo ao funcionalismo público para o dia 1º de novembro.

Em 2024, como em anos anteriores, há a preocupação de que muitos eleitores aproveitem o feriado prolongado para viajar, deixando de votar. "Já é um movimento conhecido. O eleitor vai para o litoral, ou para o campo, e depois justifica a ausência. Há ferramentas para isso, como o aplicativo que facilita a justificativa", explica Tavares.

Ele reforça que, especialmente em eleições com margem apertada, como a de Goiânia, esse tipo de abstenção pode alterar o resultado final. "Se os eleitores mais tendenciosos a um candidato viajam e não votam, isso pode mudar completamente o cenário, favorecendo o outro candidato", conclui.

Cansaço eleitoral
Em Goiânia, o número de abstenções, votos nulos e brancos tem crescido significativamente nas últimas eleições, e o segundo turno de 2024 não deve ser diferente. O jornal A Redação já apresentou recentemente que a abstenção tem sido um fator importante nas eleições municipais da capital goiana, e que o cansaço eleitoral é um fenômeno cada vez mais perceptível.

Para muitos eleitores, especialmente aqueles que não se identificam com nenhum dos dois candidatos, a escolha no segundo turno se torna mais difícil. Em muitos casos, eles preferem não votar, justificando a ausência ou optando por votar nulo ou branco, o que também impacta diretamente o resultado final.

Voto de afinidade: a continuidade das escolhas
Além desse fenômeno de rejeição, existem eleitores que pretendem reafirmar suas posições já tomadas no primeiro turno, optando por aqueles que já escolheram anteriormente. Para esses eleitores, a afinidade com seus candidatos é mais forte do que as estratégias de aproximação ou rejeição dos adversários. Assim, muitos que votaram em Fred Rodrigues (PL) ou Sandro Mabel (União Brasil) no primeiro turno continuarão a apoiar seus candidatos, independentemente das dinâmicas de rejeição que possam surgir no segundo turno.

Tavares avalia que esse grupo de eleitores pode ser visto como uma base sólida que busca consolidar suas preferências, acreditando que suas escolhas representam não apenas um voto, mas uma afirmação de suas crenças e valores. Para eles, o segundo turno é uma oportunidade de reafirmar sua escolha inicial e garantir que seu candidato preferido tenha a chance de vencer, mesmo que isso signifique ignorar as preocupações sobre a rejeição em relação ao adversário.

Leia mais:
2º turno em 2024 é o 7º da história de Goiânia

 

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por Adriana Marinelli

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