Logo

Afetação zero

WhatsAppFacebookLinkedInX
12.11.2012 - 09:22:04
Goiânia – Sexta-feira à noite. Dia de ir para a balada ou de sair do trabalho para descansar e ficar com a família. Mas o auditório do Centro Cultural Oscar Niemeyer está lotado. Centenas de jornalistas, professores e alunos de cursos de jornalismo e leitores assíduos se espremem, ávidos pela palestra de Eliane Brum no Café de Ideias.
 
A repórter que coleciona prêmios e escreve uma coluna semanal de sucesso na revista Época chega. Pequena, discreta, usa uma bata branca e um jeans. Pede desculpas pelo traje. Diz que trouxe roupa mais bonita, mas como tomou um táxi de Brasília para Goiânia por causa de um atraso no voo, não teve tempo de se produzir.  
 
Então ela começa a falar. Mansamente, pausadamente, de forma simples e respeitosa, explica como fez da palavra escrita sua vida, seu sentido de existir. Como usa sua sensibilidade para dar vida no jornalismo aos invisíveis, aqueles que ninguém que percebe, mas que nos dão lições de coragem e superação diariamente. 
 
É evidente que a palestra foi ótima. Entretanto, o que de fato chamou minha atenção foi a total falta de afetação da jornalista. Sua simplicidade e seu real desejo de interagir, de saber o quê as pessoas pensam, o quê elas sentem. Aquele jeito de conversar olhando nos olhos do outro, sem se julgar melhor nem pior, apenas igual. 
 
Nessa hora, me dei conta de que as pessoas que realmente marcaram minha vida e me fizeram alguém melhor são exatamente como ela: sem afetação alguma. Por afetação entenda-se aquela gente cheia de caras, bocas, trejeitos e melindres, que ao alcançar algum reconhecimento num setor da vida se torna um poço de arrogância. 
 
Os afetados são cheios de razão e vontades. Reclamam de tudo e de todos, nada nem ninguém está à altura deles. Tornam-se deuses isolados em pedestais. Fazem milhares de exigências aos que os cercam, dão piti por qualquer bobagem e agem de forma impaciente, afinal, eles são o máximo.
 
Há quem goste disso e entre na onda. Eu detesto. Não acho que o fato de ser muito bom em alguma coisa dê a alguém o direito de se julgar superior ao restante da humanidade. Não importa se é artista, jornalista, escritor, pintor ou sei lá o quê. No final das contas, é gente como eu e você, com defeitos e qualidades. 
 
Tenho um episódio bem emblemático sobre isso. Quando eu trabalhava na editoria de Mundo de um jornal diário, produzi uma reportagem sobre conflitos no Oriente Médio. Liguei para dezenas de especialistas locais para tentar agendar entrevistas. Nenhum deles me deu a menor bola. Estavam todos ocupados demais para falar comigo.
 
Chateada, busquei no Google os maiores analistas mundiais no assunto, pois se era para passar raiva com a presunção alheia, que pelo menos fosse com um expert famoso. Descobri, então, um professor francês que lecionava numa prestigiosa universidade americana e era uma verdadeira sumidade na área.
 
Ao ligar para ele, qual não foi minha surpresa ao encontrar um homem extremamente gentil, acessível e atencioso. Perguntei se ele queria que eu lhe mandasse as perguntas por e-mail, e ele respondeu: “De forma alguma, façamos a entrevista agora mesmo. Você está me ligando do outro lado do mundo, não há tempo a perder!”.
 
Desde aquele dia, aquele homem tornou-se fonte recorrente das minhas reportagens sobre conflitos no Oriente Médio. Com sua paciência e sabedoria de monge budista, decifrava os intrincados meandros dos países envolvidos nas disputas e sempre me agradecia por prestigiá-lo. “Bom saber que alguém no Brasil se lembra de mim”, dizia.
 
Não por acaso, as duas mulheres que mais marcaram minha carreira também eram assim: editoras extremamente humildes, serenas e acessíveis. Embora tivessem experiência para dar e vender, nunca deixaram de ouvir minha opinião e sempre me estimularam a acreditar que eu era capaz de superar expectativas. 
 
Depois de três décadas de vida, tenho comigo a certeza de que as pessoas com quem quero conviver e cuja opinião é decisiva para mim são aquelas de afetação zero. Quero gente simples e sincera. Gente que falha, chora, tem medo e não se preocupa em esconder isso de ninguém nem exige que os outros lhe escondam suas feridas.
 
Hoje, o pensamento de Rubem Alves é meu lema: “(…) Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas. Elas não debatem conteúdo, apenas rótulos. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos. Quero a essência. Minha alma tem pressa. Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana. Que não foge de sua mortalidade. Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade.”  
 
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Noite e Dia
27.10.2026
Jardim Potrich celebra o aniversário de Goiânia com yoga e sabores do Cerrado; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Em comemoração ao aniversário de Goiânia, o Jardim Potrich realizou, no último sábado (24/10), uma experiência que uniu yoga, alimentação saudável e valorização da biodiversidade do Cerrado, convidando o público a celebrar a cidade por meio do cuidado com o corpo, a mente e os sentidos. A programação contemplou uma aula […]

Noite e Dia
26.10.2026
População comemora aniversário de Goiânia no tradicional desfile cívico; veja galeria de fotos

Carolina Pessoni Goiânia – Goiânia comemorou seus 93 anos, no último sábado (24/10), com a realização do tradicional desfile cívico-militar na Avenida 24 de Outubro, no Setor Campinas. A programação, realizada durante a manhã, reuniu mais de 1,2 mil participantes e marcou as celebrações pelo aniversário da capital goiana. O prefeito Sandro Mabel e a vice-prefeita […]

Curadoria afetiva
25.10.2026
Equilíbrio

“A Anitta fez um curta musical que é um dos maiores acontecimentos do ano. Equilibrivm I-II tem 35 minutos. Acho que uma boa maneira de resumi-lo é dizer que ele é uma grande homenagem à cultura brasileira, feito com muito cuidado e respeito. A pesquisa visual do projeto vai fundo em três pilares. Primeiro, as […]

Joias do Centro
23.10.2026
Goiânia em nove capítulos: marcas que ajudam a contar a história da capital

Carolina Pessoni Goiânia – Goiânia nasceu de um projeto de modernização, ganhou forma entre avenidas largas e edifícios de linhas geométricas e, ao longo de nove décadas, construiu uma identidade que ultrapassa os limites de seu plano original. A capital que completa 93 anos neste sábado (24/10) guarda, em suas ruas, praças, monumentos e instituições, […]

Noite e Dia
22.10.2026
Goianienses prestigiam noite de música, teatro e dança com o espetáculo “Pop Hits”; veja fotos

Carolina Pessoni Goiânia – Os alunos do curso de Teatro Musical e da Banda Sinfônica Jovem de Goiás, da Escola do Futuro de Goiás (EFG) em Artes Basileu França, apresentaram o espetáculo “Pop Hits” nesta quarta-feira (21/10), no Teatro Escola Basileu França, em Goiânia. A apresentação reuniu música, teatro e dança, com interpretações de canções conhecidas […]

Noite e Dia
19.10.2026
OCB/GO homenageia lideranças por atuação em prol do cooperativismo; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Sistema OCB/GO homenageou, na última sexta-feira (16/10), três personalidades de destaque nos cenários regional e nacional, pelas suas contribuições ao cooperativismo. O prefeito de Goiânia, Sandro Mabel, a presidente-executiva do Sistema OCB Nacional, Tania Zanella, e o ex-ministro da Agricultura, ex-presidente do Sistema OCB Nacional e da Aliança Cooperativa Internacional, […]

Noite e Dia
16.10.2026
Evento para convidados marca estreia de série documental sobre Marília Mendonça; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A capital recebeu, na noite desta quinta-feira (15/10), a estreia de “Marília Mendonça: Sentimento Louco”, no Cine Aurum, no Centro Cultural Oscar Niemeyer. A série documental Original Prime estreia ao público nesta sexta-feira (16). A produção retrata a trajetória da cantora goiana, sua ascensão no sertanejo e o legado de uma […]

Joias do Centro
16.10.2026
Centro Cultural Marietta Telles Machado reúne memória, arte e novos planos para o futuro

Carolina Pessoni Goiânia – Na Praça Cívica, em meio aos edifícios que marcaram os primeiros anos da capital goiana, uma construção guarda diferentes capítulos da história de Goiânia e da vida cultural do Estado. O Centro Cultural Marietta Telles Machado foi o primeiro edifício público construído estrategicamente na praça, concebido para abrigar a Secretaria Geral […]