Essa semana li uma ótima entrevista com o cirurgião plástico Ivo Pitanguy, na Revista Lola. Reproduzo aqui uma das suas falas: “Beleza é uma questão de se sentir”, diz o mestre, completando: “Nunca fiz plástica, porque me tolero”.
Esse me tolero de Ivo Pitanguy quer dizer muitas coisas. E a mais importante delas, na minha opinião, é não se levar tão a sério, não se dar tanta importância ao olhar no espelho, é relaxar um pouco. Principalmente, é se conhecer e se gostar de verdade.
Tem gente que superdimensiona uma ruga, uma flacidez, uma barriguinha e faz disso o grande problema da sua vida. Pode até ser que uma plástica de fato melhore a auto-estima desse indivíduo. Acho que, inclusive, uma intervenção bem sucedida pode ter conseqüências maravilhosas no comportamento e humor das pessoas. Pode até melhorá-las como seres humanos. Mas isso não é o bastante para completar uma vida.
O próprio Pitanguy, na mesma entrevista, faz uma análise bastante interessante sobre o fato de hoje a auto-estima estar sempre associada à beleza. Nas suas palavras, a auto-estima passou a ser vendida como uma obrigação superficial, quando, na verdade, ela é um fato muito mais profundo.
Não é por acaso que todo mundo conhece pelo menos uma pessoa lindíssima que tem a auto-estima no pé. Erroneamente, a beleza é associada a garantias: de felicidade, amor e sucesso. Se fosse verdade, pessoas bonitas nunca se divorciariam, ficariam sozinhas, entrariam em depressão ou seriam demitidas.
De maneira alguma estou demonizando a cirurgia plástica. Pelo contrário, acho que faz maravilhas a muita gente e, caso sinta necessidade, pretendo um dia recorrer a suas benesses. O que me incomoda apenas é como o mundo vende a juventude como sendo eterna. E a beleza como se fosse a única fonte de felicidade e aceitação. Muita gente compra esses mitos
como verdade absoluta. Mitos que são responsáveis por uma sensação de descontentamento, fracasso e inadequação de milhares de pessoas, de ambos os sexos, de todas as idades e níveis sociais.
Ainda mais preocupante é quando essas intervenções estéticas não têm fim e a pessoa vira uma caricatura de si mesmo. Sempre que nos deparamos com alguém que exagerou na quantidade de plásticas nos perguntamos se ela não tinha uma melhor amiga para
dizer “Querida, já deu né?”. Também me questiono que tipo de médico tem a coragem de enganar um paciente a ponto de tranformá-lo em uma máscara de horror.
Certamente não é um profissional do gabarito de Pitanguy, com anos de ética, bom-senso, responsabilidade nas costas e respeito à profissão e às pessoas.
Hoje em dia é comum ver meninas com menos de 30 anos fazendo uso regular do Botox e se sentindo velhas. Sinceramente, quando tinha essa idade eu mal me olhava no espelho a ponto de perceber uma ruga. Na verdade, tenho que confessar que fora o uso de base, corretivo e blush diários, sigo na mesma linha da época balzaquiana. Talvez eu tenha algo em comum com o Pitanguy. Minha tolerância e generosidade comigo mesmo são bem grandes. Eu me aceito.
Ainda bem.