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Acabar com a meia-entrada é fundamental

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24.04.2013 - 17:02:05

Ontem escrevi sobre o que faz me sentir trouxa no Brasil (leia aqui) e, en passant, falei sobre o problema da meia-entrada. Como a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados votou hoje e aprovou uma nova regulamentação sobre o assunto, acho que é preciso me alongar mais sobre esse tema. A proposta aprovada determina que a meia-entrada seja limitada a 40% do total de entradas para qualquer espetáculo artístico ou evento esportivo. Atualmente, estudantes, idosos, deficientes e pessoas de baixa renda de até 29 anos incluídas no cadastro único do governo federal contam com esse direito. É completamente surreal que as coisas continuem como estão.

Vamos supor que morássemos na Noruega e falsificar uma carteirinha de estudante não fosse mais fácil que comprar pão na esquina. Mesmo assim, o direito à meia-entrada seria questionável. O custo de um evento qualquer é X. Para empatar as receitas com as despesas, é necessário vender Y entradas. Se existe a obrigação de vender ingressos custando metade de Y e o valor de X não muda, logo terei que readequar o valor para fechar a conta. O que acontece na real é que quem tem direito de pagar meia-entrada arca com o valor integral escamoteado de 50% de abatimento. E se lasca por completo quem não tem esse direito, que acaba gastando o dobro pelo preço de uma entrada. Muito justo, não é?

Nem sempre pensei assim. O primeiro artigo que publiquei na vida no Jornal Integração editado pelo meu amigo Eduardo Horácio Jr., quando ainda era calouro de Jornalismo na UFG em 1999, questionava a prática dos produtores de eventos em dobrar o valor do ingresso e vender meia-entrada para todos. O tempo passou, o mundo girou e por um desses acasos da vida me tornei produtor cultural. Nada como sentar do outro lado da mesa para entender melhor um assunto. Nada como um dia após outro dia. Percebi a insanidade que é ter quase todos os ingressos de um evento vendidos pela metade sendo que o custo da produção sempre é integral. Não existe mágica. O preço simplesmente precisa ser dobrado.

Isso ainda aconteceu antes da flexibilização na confecção do documento, o que proporcionou a enxurrada de carteiras de estudantes falsas na rua. É tão comum que quem não tem essa picaretagem no bolso é praticamente um extraterrestre. Alguns parentes têm. Amigos próximos têm. E todos me acham burro por não ter uma. A vida é dura.

Essa regulamentação em 40% do total de ingressos destinados à meia-entrada, ao meu ver, ainda é insuficiente. Mas é inegável que é um bom começo. O ideal é a extinção. Foi essa lei estapafúrdia que deixou o ingresso no Brasil um dos mais caros do mundo. Sabe o festival Loolapalooza? Pois é, em sua versão chilena, o preço por dia é de cerca de 250 reais. Nos EUA, aproximadamente 190 reais. Em São Paulo, 350 reais. A organização justificou essa diferença com base na meia-entrada. Segundo eles, 84% das vendas foram feitas nessa categoria. Como viabilizar? Encarecendo o ingresso. Simples assim. E só uma pergunta: será que 84% do público do festival paulistano de Perry Farrell tinha realmente direito a pagar meia? Você é esperto e sabe a resposta.

A moralização no valor cobrado nos eventos só virá com a extinção daquilo que era para ser um benefício, mas que acabou penalizando quem é honesto no Brasil. Infelizmente, não vejo outra saída.

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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