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Abundância

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31.12.2013 - 10:35:47

Vi uma borboleta pousando em um pé de manacá. Azaléias, glicínias, acácias, nomes de flores surgiram na minha cabeça, enquanto observava um gato me observar. E assim termina mais um ano. Um ano de revoluções e paixões, de buscas e rupturas, de desastres e esperanças, de ventanias e palavras de ordem, de povo na rua e coração na mão.
 
Mais um ano acaba e observo os amigos espalharem-se pelos quatro cantos, pelas praias, cachoeiras, montanhas de neve, cervejarias, fazendas e paços imperiais. É a hora do inevitável balanço e de se perguntar, valeu a pena? A resposta é única. Valeu.
 
Todas as ventanias e desesperos, todas as revoluções, todas as contradições, todas as passeatas e manifestações, tudo que nos tirou do lugar em nome de um destino melhor e mais são. Independente do credo e da cor da bandeira, independente do placar do jogo depois do apito final, enquanto a luta for leal, navegar vai ser sempre preciso.
 
O ano passou extremamente rápido e traiçoeiro porque não nos deu o direito à reflexão.Acontecimentos foram se sucedendo em cascata, nos tirando o fôlego e a razão. No  mundo, dentro de casa, no país, no estádio de futebol, na mesa de bar, no quarto, dentro do próprio corpo, do espaço mais público ao mais íntimo, tudo esteve em constante mudança. Alegrias, medos, mortes, sucessos, nascimentos, perdas, encontros, justiças e injustiças.
 
Muitas discussões e tentativas de decifrar o oráculo do tempo e dos acontecimentos, muitas análises e idéias, todas válidas, mas nenhuma definitiva. Tudo esteve em movimento e assim permanecerá. A nossa vã filosofia não basta para definições definitivas.
 
Mas não consigo evitar de acreditar que o bem sempre prevalece, que as alegrias são maiores, que as agressões são apenas uma falta de jeito, que a ganância é só ignorância, que estamos no caminho certo e que precisamos apenas de um pouco mais de paciência e boa vontade.
 
Pensei nisso recentemente, observando uma família com seis crianças pequenas na rua, o pai vigiando carros em frente a uma churrascaria para ganhar alguns trocados, as crianças e a mãe esperando debaixo de uma árvore. Uma família simples, mas cheia de dignidade, as crianças sorridentes e bem cuidadas, o pai carinhoso, a mãe olhando o caçula dentro de um carrinho de bebê, já gasto, mas em bom estado. Passei por eles, me deram um sorriso simpático, tranquilo, com jeito de quem está satisfeto com a vida do jeito que ela é. Essa imagem iluminou meu dia. Na realidade, basta pouco para acreditar. E basta acreditar para se ter dignidade.
 
Olhando os cachos de mangas rosadas, penduradas na enorme mangueira do quintal da minha tia, pensei na abundâcia. Assim como ao passar por uma praça onde havia uma grande quantidade de frutas caídas no chão, apodrecendo porque ninguém as colhia. A natureza é sempre generosa, intensa. Diante da visão das frutas, tão cheias de vida, tão plenas, senti alegria. E essa alegria deveria ser suficiente para mover o mundo. A alegria da gratidão.
 
E sinto que antes de tudo, gostaria de terminar o ano com gratidão, simples gratidão por viver, por ter uma família grande, cheia de primos e tias, sobrinhos e agregados, onde nada é óbvio nem perfeito, mas infinitamente humano, por ter amigos próximos e distantes, ausentes e presentes, mas o papo sempre rolar solto e confiante, por existirem Mujicas e Mandelas, por ter podido rever pessoas queridas, passear no mato, comer pastel na estrada, tomar chuva, fazer amizade com alguns animais, uma anta, alguns cabritos e cachorros, beber leite no curral, ir ao cinema com dez crianças, chorar no final feliz, dançar macarena, dar abraços apertados, comprar presentes, tomar bons vinhos, comer pão de queijo, beber café quentinho feito no fogão à lenha, trocar confidências, amar o meu trabalho, unir dois mundos, poder conhecer e divulgar bons autores, ver meus filhos crescerem, se apaixonarem, segurar na mão da minha mãe na hora de uma injeção, poder rir das catástrofes e até das doenças, fazer planos, sentar na praça de noite, apresentar velhos poetas a novos poetas, acreditar que é possível, acreditar muito, mesmo que tudo prove o contrário, acreditar que é sempre possível acreditar.

Desejo a todos um feliz 2014!

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por Cejana Di Guimarães

*Jornalista formada pela UFRJ e pela Universidade de Fribourg, Suíça. Vive há 20 anos em Zurique.

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