Logo

Abrigos são readequados por Plano de Convivência Familiar

WhatsAppFacebookLinkedInX
27.08.2012 - 10:54:08

Catherine Moraes

Goiânia – Casas provisórias, criadas com o intuito de abrigar crianças pelo prazo máximo de dois anos, têm assumido outra função. Os abrigos no Brasil, agora chamados de casas de acolhimento revelam uma realidade diferente, sejam eles organizações não governamentais, municipais ou em poder do Estado. Atualmente, 41.166 crianças e adolescentes estão cadastrados nacionalmente na lista de acolhidos pelos Estados. Destes, 1.191 apenas em Goiás, número que engloba também os que não estão disponíveis para adoção, já que ainda não foram destituídos do poder familiar. Entretanto, as tentativas de reinserção na família podem demorar, as crianças envelhecem e a possibilidade de adoção diminui a cada dia.
 
Em Goiânia, oito casas estão cadastradas junto à Divisão de Fiscalização e Apoio às Entidades de Abrigo (DFAE), do Juizado da Infância e Juventude. Destes, apenas o Condomínio Sol Nascente é gerenciado pelo Estado, mas está sendo municipalizado e vai ficar sob responsabilidade da Secretaria Municipal de Assistência Social (Semas). A medida é uma exigência do Plano Nacional de Convivência Familiar e Comunitária que prevê que todos os abrigos sejam administrados pelo município. Ao Estado fica o dever de fiscalizar.

“O processo de municipalização é importante porque dessa forma o Estado vai poder cumprir a própria obrigação. Hoje temos 183 unidades de acolhimento em Goiás e não conseguimos fiscalizar, capacitar funcionários. Ainda não estamos cumprindo nosso papel”, afirma o gerente de Promoção da Infância e Juventude da Secretaria de Cidadania e Trabalho, Hamilton José Amorim Rezende.
 

Gerente Hamilton José diz que municipalização será gradativa (Foto: Secretaria Cidadania)
 
O gerente conta que algumas reuniões têm sido feitas com Ministério Público Estadual, juizado, Semas e Secretaria de Cidadania. Segundo ele, a gestão será do município até 2013 e a prefeitura deverá ainda promover concursos e trocar os funcionários até 2014. Isso deve ser feito de forma gradativa para que se preserve o convívio de trabalhadores com as crianças.
 
De depósito de crianças a residência familiar
O condomínio Sol Nascente, construído em 1995, tem um espaço grande e sempre abrigou muitas crianças, principalmente devido à faixa etária – 0 a 12 anos, mas agora passa por uma nova fase. O Plano Nacional de Convivência Familiar e Comunitária exige que os centros sejam mais próximos a uma residência familiar, com menos crianças e já não permite mais que 100, 120 dividam o mesmo local. O ideal seria que cada criança permanecesse dois anos, no máximo, mas acabam ficando mais tempo, na ausência de interessados em adoção. 
 
“Quem chega ao Sol Nascente e percebe o local grande, com boas instalações, pensa que o abrigo pode ser um depósito de crianças. O que queremos não é isso, mas que se tenham o mínimo de abrigados possível, para que eles tenham uma convivência mais familiar”, afirma Hamilton.
 
Hoje, o local conta com 39 crianças com idade entre 0 e 12 anos incompletos, que tenham sido vítimas de violência, abandono ou maus-tratos, sendo encaminhadas via Juizado ou Conselhos Tutelares.  Elas podem ou não estar disponíveis para adoção. O objetivo é que não se tenha no condomínio mais que 50 crianças de uma só vez. Ainda assim, a coordenadora do local, Maria Eunice Dias explica que, pelo fato de ser o único a receber meninos e meninas de 0 a 6 anos na capital, acaba por vezes obrigado a acolher crianças acima desse número. Os demais centros recebem apenas as demais faixas etárias e alguns ainda se limitam a um sexo.
 
Segundo Maria Eunice, as crianças fazem atividades dentro e fora do centro, permitindo assim uma convivência familiar e comunitária. Estudam na escola da comunidade, praticam atividades esportivas também na praça do setor e realizam passeios com frequência.
 
Violência
No caso de pequenos que foram vítimas de violência, o cuidado é diferenciado. “Vítimas de violência são avaliadas e depois disso a equipe psicológica da unidade as encaminha para atendimento clínico, tanto do Estado, quanto de parcerias que temos com universidades. Se é apenas questão de comportamento temos atendimento aqui, mas no caso de violência sexual, são diretamente levadas para psicólogos fora do abrigo”, explica a coordenadora que trabalha no Sol Nascente há 15 anos.
 
Projeto Anjo da Guarda
Para quem não deseja adotar uma criança, mas quer estabelecer um vínculo afetivo, a opção é se cadastrar no projeto Anjo da Guarda, uma espécie de apadrinhamento que pode ser financeiro ou apenas afetivo. Depois de solicitado junto ao juizado, os interessados podem apadrinhar crianças a partir de seis anos e levá-las para casa em períodos esporádicos, sejam nos finais de semana, 15 dias, ou o tempo que for escolhido. Segundo o Juizado da Infância e Juventude, 37 crianças e adolescentes aguradam apadrinhamento, sendo que todos eles possuem acima de 10 anos. Enquanto isso, 74 pretendentes estão na fila do apadrinhamento, mas o perfil nem sempre é o desejado.
 
 

Coordenadora do Sol Nascente, Maria Eunice diz que projeto Anjo da Guarda colaborou para adoção tardia (Foto: André Saddi)
 
A ideia do projeto é possibilitar esse convívio familiar a crianças que estão fora da faixa etária mais procurada para adoção. Maria Eunice conta que além de muitos padrinhos se tornarem pais, o índice de crianças devolvidas também diminuiu. “Com o projeto, o número de crianças devolvidas diminuiu porque as famílias são capacitadas. Muitos pensam que criança de abrigo é coitadinha, mas eles também desafiam, reivindicam. De três anos para cá, em função do projeto, esse índice diminuiu. Em muitos casos, os padrinhos se tornam pais e requerem a guarda da criança. Muitas vezes não entram com esta intenção, mas a convivência faz com que esse sentimento aflore”, completa.
 
No caso de a criança apadrinhada for procurada para adoção por outro pretendente, o casal padrinho é comunicado e a criança deixa o projeto. Se os “anjos da guarda” decidirem, acabam tendo prioridade pela criança. Apesar do rompimento da parceria entre o Juizado e o Grupo de Apoio à Adoção (GEAAGO), que ministra o curso,   Maria Eunice conta que o projeto continua. “O juizado tem encaminhado muitas famílias para conhecerem as crianças”, garante.
 
“Profissionalmente trabalhar aqui me dá às vezes uma sensação de decepção, às vezes de gratificação, como quando uma criança é adotada. Significa que por essa eu consegui fazer algo de bom. A decepção acontece quando a criança retorna, ou quando sabemos que está envolvido com drogas. O que passa na cabeça é a pergunta: será que eu fiz tudo que devia? É uma mistura de vitórias e derrotas”, completa Maria Eunice. 

Leia mais:
Cadastro Nacional conta com cinco pais para cada criança
Curso preparatório de adoção em Goiás é referência nacional
Adoção homoafetiva em Goiás diante de barreiras e preconceitos

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Catherine Moraes

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Agro
27.10.2026
No campo, o atendimento ainda toca o telefone

A Redação Goiânia – Quem trabalha com revenda de máquinas, insumos ou peças no interior de Goiás conhece bem o mês de outubro. O telefone começa a tocar cedo, antes das seis, e só para quando escurece. Do outro lado da linha está um produtor com a plantadeira parada no meio do talhão, um rolamento […]

Direitos Humanos
27.10.2026
Goiânia deverá apresentar plano para acolhimento de idosos em situação de vulnerabilidade

A Redação  Goiânia – A Defensoria Pública do Estado de Goiás (DPE-GO) obteve decisão favorável, nesta segunda-feira (26/10), para que o Município de Goiânia elabore e apresente um plano de implementação e ampliação do serviço de acolhimento institucional para pessoas idosas em situação de vulnerabilidade, abandono familiar e desabrigo. A determinação atende ao pedido feito […]

Energia
27.10.2026
Equatorial Goiás suspende atendimento presencial no feriado

A Redação Goiânia – Em razão do feriado de Finados, as agências de atendimento presencial da Equatorial Goiás estarão fechadas na segunda-feira (2/11), retornando às atividades na terça-feira (3). Os clientes que precisarem de atendimento podem contar com os demais canais que permanecerão disponíveis. Assistente virtual Clara está disponível para todos os clientes. Basta enviar […]

Dados
27.10.2026
Levantamento coloca Goiânia entre as quatro capitais mais seguras do Brasil

A Redação Goiânia – O Anuário 2026 de Cidades Mais Seguras do Brasil, elaborado pela MySide, coloca Goiânia entre as capitais brasileiras com as menores taxas de assassinatos. A capital goiana ocupa a quarta posição no levantamento, com 15,2 assassinatos por 100 mil habitantes, índice cerca de 29% abaixo da média nacional, de 21,5. O […]

Reconhecimento
27.10.2026
Rafael Lara Martins recebe título de sócio honorário do IHGG por valorização da memória jurídica de Goiás

A Redação Goiânia – Em reconhecimento às contribuições para a preservação histórica e o fortalecimento institucional em Goiás, o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Goiás (OAB-GO), Rafael Lara Martins, tomará posse como sócio honorário do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG) nesta quinta-feira (29/10), às 9h. A solenidade será realizada na […]

ADVOCACIA
27.10.2026
Miguel Cançado ministra palestra na OAB-GO sobre Recuperação Judicial

A Redação Goiânia – Ex-presidente da Ordem dos Advogado do Brasil – Seção Goiás (OAB-GO), o advogado Miguel Cançado, sócio-fundador do escritório Cançado & Barreto Advocacia, ministra palestra na sede da seccional nesta terça-feira, 27 de outubro, às 19h. O encontro é voltado a advogados, estudantes e profissionais interessados em reestruturação empresarial, falências e recuperações […]

Saúde
27.10.2026
Gêmeas siamesas passam por nova etapa de preparação para cirurgia de separação em Goiânia

A Redação Goiânia – O Hospital Estadual da Criança e do Adolescente (Hecad), em Goiânia, realiza nesta quarta-feira (28/10), às 7h, uma nova cirurgia nas gêmeas siamesas Maria Helena e Maria Eva. O procedimento prevê a colocação de expansores de pele na região abdominal das crianças e integra a última etapa de implantação desses dispositivos […]

Campanha "Juntos pelo Natal de todos"
27.10.2026
Sistema Fecomércio Sesc Senac arrecada brinquedos para presentear 7 mil crianças em Goiás

A Redação Goiânia – O Sistema Fecomércio Sesc Senac Goiás lança a nova edição da campanha “Juntos pelo Natal de Todos”, iniciativa solidária que arrecada brinquedos novos (bolas, bonecas e carrinhos) para beneficiar crianças. Em 2026, a meta é presentear sete mil crianças de zero a 11 anos atendidas por entidades sociais cadastradas no programa […]