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A vida repetida como ela é

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13.04.2013 - 17:37:10
 
Goiânia – Márcio Mendes Mendonça sempre levava trabalho pra casa e dele se ocupava até quase o despontar da madrugada. Para não deixar a mulher tão só na distração de assistir à TV e cochilar, de hora em hora a convidava ao escritório, para ver qualquer novidade na internet. Notícias sobre clonagem de ovelhas et cetera eram as suas prediletas. Quando Ana Cristina, vencida pelo cansaço, mergulhava em estado alfa, ele se deitava finalmente, não precisando contar carneirinhos pulando a cerca até adormecer. Acordava-a com seu entusiasmo viril de macho alfa também. Minutos depois adormecia, o ventre e a consciência esvaziados e apaziguados. Ela, porém, arrancada repentinamente de dentro de si mesma, não conseguia retornar para a profundidade dos sonhos e estatelava os olhos até o sol nascer.

Se ela acaso se recusasse ao amor conjugal, ele se cobria com os lençóis e levantava as cortinas do teatro da cama para o grande drama. Eram acusações de amor não correspondido, de ingratidão, que ecoavam noite afora e coração adentro. Ana preferia, portanto, não resistir, resignando-se depois a uma insônia silenciosa.

Nas manhãs seguintes, enquanto ele ainda tranquilamente ressonava – tinha horários flexíveis na empresa de Tecnologia da Informação que gerenciava – ela se arrastava tresnoitada para a escola onde dava aulas de violino para meninos desafinados. De resto, era bom marido, competente provedor e provas de amor cotidiano não lhe faltavam. Pagava as contas mais pesadas, provia a casa de toda sorte de modernos eletromésticos e aparelhos eletrônicos, alguns até duplicados. 

Companheiro dedicado, natureza de colecionador – entre suas inúmeras coleções estavam selos, moedas, livros raros, discos de vinil, figurinhas que compunham obsoletos álbuns de tiragens esgotadas  – chegava ao extremo de acompanhar a mulher às compras no shopping. Se ela ficava em dúvida entre o vestido verde e o vermelho de um mesmo modelo, ele lhe propunha que não se afligisse com escolhas, dando provas de sua prodigalidade. Você ficou tão linda nele, compre também o azul. Mas sou apenas uma, não sou suficiente para vestir tantos vestidos. Então você os veste e eu os dispo em seguida. Faremos isso essa noite mesmo. Tudo bem, querido, desde que seja mais cedo. Não fique até tão tarde navegando. Preciso dormir. Eu sei, meu amor, mas é que a desejo tanto. Nunca quis tanto uma mulher. Se pudesse, iria duplicá-la.

Ana Cristina se envaidecia. Que mulher não se sentiria a eleita com tamanha demanda e tão derramadas declarações? Todas as noites a sequência se repetia. Que importância deveria ter a privação de sono, se havia a compensação de um amor abundante? 

Uma noite, porém, depois de ser acordada por Márcio e não conseguindo mais conciliar o sono, foi até o escritório onde ele esquecera seu computador ligado. Ao tocar o teclado para desligá-lo, deparou com um e-mail aberto. Na caixa de entrada, viu várias mensagens remetidas por Ana Cristina. Não se recordava que tivesse lhe remetido nada nos últimos dias.

Embora não costumasse agir como uma sombra bisbilhoteira ou cadela farejadora, cheirando colarinhos, vasculhando carteiras e celulares, a curiosidade matou o gato de sete vidas que sempre deixa para trás um rabo em cada uma delas. Abriu a mensagem. Sua xará respondia às declarações apaixonadas de M.M.M, prometendo ansiosa um encontro para a tarde do dia seguinte. No e-mail que ele enviara a ela, Márcio havia escrito: nunca conheci uma mulher como você, nunca desejei tanto alguém, queria que você fosse mais de uma, que se multiplicasse. E multiplicados eram os e-mails enviados e recebidos.

Havia mensagens de Maria Cristina, de Teresa Cristina, de Ana Luíza, de Ana Maria, e todas elas tinham, nas fotos exibidas ao lado dos endereços de e-mail, traços semelhantes aos seus, cabelos escuros e curtos, olhos amendoados, queixo quadrado. Todas elas revelavam tocar algum instrumento musical ou cultivar o interesse por música. 

Ana Cristina acordou-o para pedir satisfações sobre aquilo tudo. A princípio, Márcio, ainda sonolento, reagiu com indignação: você não confia em mim, não me ama, não foram suficientes as provas de amor que tenho dado todos esses anos? Ela também titubeou por alguns segundos ante tão convincente reação, mas recobrou o espírito e insistiu para que ele o acompanhasse até o escritório. Ele resistiu, mas por fim cedeu.
Diante da tela do computador exumado em sua intimidade, Márcio gaguejou que emprestava seu e-mail a um colega de trabalho casado, que o usava para manter contato com as amantes e que só aquele dia o abrira por curiosidade. Ainda estou chocado. Ele é apaixonado por você, Ana. Vive procurando mulheres ou com seu nome ou com sua profissão ou com sua aparência? Querida, você acha que eu, possuindo uma mulher maravilhosa como você, iria desejar outra exatamente igual? Ele sim fica perseguindo uma cópia, já que não pode ter a original. Dizem os estudiosos do amor, a propósito, que vivemos a perseguir pela vida toda um ideal de par amoroso, procurando os mesmos traços em todos com os quais nos relacionamos. Sim, Ana considerou que aquilo fazia certo sentido.
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por Cássia Fernandes

*Cássia Fernandes é jornalista e escritora

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