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A vida como gostaríamos que fosse

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13.07.2012 - 10:37:06

Há uma certa distância entre a vida como ela é e como gostaríamos que fosse. Esta verdade fica ainda mais evidenciada quando passamos um simples olhar pelas redes sociais. O Facebook, para ficar na principal mídia de relacionamentos do mundo contemporâneo, tornou-se o grande palco da idealização daquilo que sonhamos ou imaginamos ser o ideal do dia a dia de todos nós. E sexta-feira essa manifestação dos desejos fica ainda mais evidente.

No último dia útil da semana (se é que neste mundo conectado 24 horas por dia essa expressão ainda tem algum sentido) as timelines são inundadas de mensagens de celebração pela chegada do fim de semana. A criatividade rola solta: são montagens com animais, paisagens, animações, desenhos, vídeos e todo tipo de recurso para festejar os dois dias de liberdade que se avizinham.

Daí seguem-se o sábado e o domingo e a suposta concretização do sonho toma conta dos compartilhamentos nas redes sociais: são milhares de fotos de comida, bebida, abraços, praias, enfim, tudo aquilo que, sob o ponto de vista da maioria das pessoas, representa a recompensa pelos duros dias de trabalho que antecederam as poucas horas de folga e lazer.

Abrimos mão da privacidade para mostrarmos ao mundo o quanto somos felizes. Não gostamos daquelas pessoas que inundam a telinha com lamentações e reclamações. Podemos até mostrar solidariedade a um amigo que vez ou outra compartilha as angústias e tristezas. Mas não titubeamos em bloqueá-lo se a lamentação se estender por mais que alguns poucos posts.

O que queremos mesmo ver na timeline são as festas e os sorrisos. Mesmo que muitas vezes nem mesmo conhecemos de verdade aquele amigo virtual que acabou de publicar uma linda foto do churrasco, acabamos tendo uma pequena sensação de que também participamos, de alguma forma, daquele momento prazeroso.

As mídias sociais amplificaram ao extremo a possibilidade de idealização da realidade, substituindo para muita gente o que, no século 19, só a literatura era capaz: a transposição para um mundo de fantasia. A diferença é que a literatura sempre permitiu a elaboração de sentimentos mais complexos, como a maldade, a fraqueza, a culpa. O Facebook não. Ele só admite a exposição de uma realidade idílica.

Então, aproveitemos a sexta-feira, principalmente esta que cai no 13 de julho, pois é o Dia Mundial do Rock. Coloque aquele melhor CD dos Stones para tocar, abra sua garrafa de bebida preferida, coloque à mesa o tira-gosto que vai harmonizar. E, claro, não se esqueça de postar suas fotos, de preferência com algum filtro do Instagram, para que o resultado final seja mais interessante.

Mas não se esqueça: o ciclo termina no domingo à noite, quando as mensagens de lamento pela proximidade da segunda-feira tomam conta do Facebook e substituem a música de abertura do Fantástico, que, numa época em que essa tal de internet era apenas um delírio da ficção científica, era o estopim para detonar a depressão típica de fim de festa.


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por Rodrigo Hirose

*Jornalista com especialização em Comunicação e Multimídia

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