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A taça é nossa

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13.07.2026 - 22:00:40

Uma das vantagens de escrever uma coluna mensal é que, entre um mês e outro, há tempo para que os leitores reajam — e para que o autor tenha a oportunidade de corrigir o que poderia ter explicado melhor. É o que faço aqui.

No mês passado, escrevi sobre a infraestrutura de compartilhamento de dados, serviços e pagamentos que o Brasil construiu nos últimos anos. Argumentei que o país se tornou uma referência internacional e o Open Finance brasileiro é reconhecido, atualmente, como o projeto mais bem-sucedido já implementado nessa área. Mas cometi um erro comum de quem escreve sobre seu cotidiano: parti do pressuposto de que o leitor sabia o que era Open Finance.

Vale, portanto, (re)começar do começo.

Open Finance — ou sistema financeiro aberto — é uma infraestrutura digital que permite às pessoas e às empresas compartilharem seu histórico financeiro e movimentar recursos entre instituições sem precisar imprimir extratos, deslocar-se fisicamente ou esperar que sistemas diferentes conversem entre si.

Assim, no mundo de dados, as informações não ficam “presas” à instituição onde as transações financeiras acontecem e passam a pertencer efetivamente ao cliente. No mundo de pagamentos, soluções que não seriam possíveis passam a existir como, por exemplo, pagamentos via Pix por aproximação por meio de carteiras digitais ou por mensagens de voz via aplicativos de mensagens. Isso tudo a partir de uma autorização dada pelo cliente de forma segura e gratuita.

Na prática, funciona como uma rede de conexões digitais entre bancos, cooperativas, fintechs, instituições de pagamento, iniciadores de transação de pagamento e outros participantes do sistema financeiro. Essas conexões permitem que informações sobre contas, movimentações, operações de crédito, investimentos e pagamentos circulem de maneira instantânea e padronizada, sempre mediante autorização expressa do cliente.

A tecnologia, contudo, é apenas o meio. A verdadeira transformação está na mudança no eixo do poder de decisão — e de quem se apropria do valor da informação. Durante décadas, o histórico financeiro de uma pessoa foi tratado como um ativo das instituições financeiras.

O Open Finance inverte essa lógica ao reconhecer que essas informações pertencem ao cliente, que decide quando, com quem e por quanto tempo deseja compartilhá-las.

Esse detalhe produz efeitos profundos. Quando uma instituição financeira passa a conhecer, mediante autorização do cliente, seu histórico de renda, pagamentos, crédito ou investimentos, ela deixa de depender exclusivamente do relacionamento construído dentro de sua própria base.

A assimetria de informação diminui, novas instituições conseguem competir em condições mais equilibradas, e o consumidor ganha liberdade para buscar produtos e serviços mais adequados ao seu perfil, sem precisar recomeçar sua vida financeira a cada mudança de banco.

Até aqui, o Brasil não está sozinho. Quase uma centena de países criaram mecanismos para compartilhar dados financeiros. O que nos colocou na liderança mundial foi termos decidido ir além.

Enquanto em muitos mercados o compartilhamento de dados e os meios de pagamento evoluíram em trilhas paralelas, o Brasil aproximou essas duas agendas. As mesmas conexões que permitem compartilhar informações passaram também a viabilizar pagamentos diretamente da conta do cliente, mediante sua autorização, sem que ele precise acessar o aplicativo do banco onde mantém seus recursos.

Pode parecer uma diferença sutil, mas ela muda tudo. O Open Finance deixou de ser apenas uma ferramenta para trocar informações e tornou-se uma plataforma de inovação. Sobre esses trilhos surgem novos produtos, novas formas de conceder crédito, soluções de gestão financeira, iniciação de pagamentos e uma infinidade de serviços que reduzem custos, aumentam a competição e simplificam a vida das pessoas e das empresas.

Perdemos a chance de ser novamente campeões no futebol. Mas existe uma disputa em que o Brasil levantou a taça. Mesmo não tendo, assim como no futebol, inventado o compartilhamento de dados, fomos nós que demos o passo adiante de construir algo maior: uma infraestrutura que integra dados, pagamentos e serviços financeiros em um mesmo ecossistema.

É essa combinação que hoje faz do Open Finance brasileiro uma referência internacional e coloca o país, mais uma vez, no topo da inovação financeira.

*Doutora em Economia pela USP, foi secretária da Fazenda de Goiás e atuou como executiva e conselheira de empresas do mercado financeiro como Itaú e B3. É CEO da Governança do Open Finance.

 

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por Ana Carla Abrão

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