Logo

A responsabilidade trabalhista no caso de Brumadinho

18.02.2019 - 15:18:49
WhatsAppFacebookLinkedInX

A tragédia humanitária e ambiental em Brumadinho (MG) chocou o país e o mundo. Vale lembrar que há somente três anos da ruptura da barragem de dejetos da mineração em Mariana, também em Minas Gerais, o que reatualiza uma situação dramática e reincidente. Além da tragédia humanitária e ambiental, é também um desastre trabalhista, já que a maioria dos mortos e desaparecidos eram trabalhadores da Vale, diretamente ou por contrato terceirizado, o que abre a questão da responsabilização trabalhista por acidente de trabalho.
 
Não há dúvidas de que este acidente da ruptura da barragem se configura também como o maior acidente de trabalho da história do nosso país, superando a tragédia de Gameleira, ocorrida em Belo Horizonte em 1971, que deixou 65 operários mortos. E, justamente por isso, esse fato deve nos levar à reflexão sobre as condições de trabalho em que os empregados ainda estão expostos hoje no Brasil, 48 anos depois de Gameleira.
 
As garantias de responsabilização por acidentes de trabalho são amplamente salvaguardadas pelo atual sistema jurídico brasileiro, mas a recente Reforma Trabalhista limita e “põe preço” máximo à vida do trabalhador, o que será escancarado como desumanização no caso da tragédia em Brumadinho e já é alvo de questionamento no Supremo Tribunal Federal, inclusive pelo Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil.
 
A nossa Constituição Federal coloca o ser humano como o centro de toda a estruturação do Estado e visa assegurar a dignidade da pessoa humana, trazendo o direito à vida como matéria irrenunciável. Em outro artigo, a Constituição garante indenização trabalhista para os casos em que o acidente de trabalho ocorre por dolo ou culpa do empregador.
 
Obrigação similar também decorre do Código Civil, que obriga a reparação do dano, mesmo sem configurar culpa, quando as atividades desenvolvidas pelo autor envolvam riscos por sua própria natureza a outrem (art. 927). E é inquestionável o risco que corriam os trabalhadores da Vale com tamanha negligência da empresa quanto à segurança da barragem, o que culminará, certamente, em punição criminal aos responsáveis. 
 
O Código Civil garante ainda, em seu artigo 950, à vítima do acidente de trabalho, o direito constituído de receber seus proventos na extensão da inabilitação causada pelos danos do acidente, que podem ser pleiteados em parcela indenizatória única.
Ocorre que, como já mencionado, na CLT vigente, o dano moral devido está limitado a 50 vezes o valor do salário cobrado pelo empregado à época do acidente. Ou seja, no caso de um trabalhador que recebia um salário mínimo (R$ 998,00 hoje), sua família terá o direito a no máximo R$ 49.900,00 de indenização por danos morais. 
 
Na tentativa de salvaguardar os direitos dos trabalhadores, a pedido do Ministério Público do Trabalho, a Justiça do Trabalho já determinou alguns bloqueios  cautelares de dinheiro, para salvaguardar o salário dos trabalhadores ainda desaparecidos, com funeral e traslado das vítimas e com futuras indenizações.
 
O desastre ocorrido em Brumadinho escancarou as condições ainda desumanas de trabalho em diversas regiões e setores produtivos do país, o que evidencia a necessidade de um olhar mais atento da legislação trabalhista e, principalmente, de fortalecimento dos órgãos de fiscalização.

*Murilo Chaves é advogado especialista em Direito do Trabalho

 
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Murilo Chaves

*

Postagens Relacionadas
Leonardo Ribeiro
24.02.2026
Quaresma: rumo ao deserto para escutar e viver

Com a graça de Deus iniciamos, unidos com a Igreja, o Tempo da Quaresma. Como todos os anos, neste período de quarenta dias, somos convidados a mergulhar com intensidade e coração aberto neste tempo propício de revisão de vida e conversão pessoal. A própria Liturgia da Quarta-Feira de Cinzas, que marca o início da Quaresma, […]

Ricardo Menegatto
17.02.2026
Prejuízos causados por eventos climáticos: quais são os direitos do consumidor?

Os alertas da Defesa Civil sobre tempestades severas tornaram-se parte da rotina de moradores de São Paulo e de diversas capitais brasileiras. Com eles, cresce também a apreensão quanto à possibilidade de quedas de energia elétrica e aos prejuízos que podem atingir residências, comércios e até a saúde de pessoas que dependem de equipamentos essenciais. […]

Carla Conti
14.02.2026
Educar com consciência planetária é um compromisso com a vida

A universidade é, historicamente, a casa do conhecimento. É nela que se formam profissionais de todas as áreas e onde se outorgam diplomas que autorizam a atuação no mundo. Mas esse gesto formal carrega uma responsabilidade que vai muito além da formação técnico-científica. Em um cenário marcado por crises ambientais, desigualdades sociais persistentes e pelo […]

Anna Carolina Cruz
13.02.2026
O tempo que não temos

Há dias em que a alma pede silêncio. Não o silêncio da ausência de barulho, mas o silêncio da consciência que desperta. Tenho pensado muito na forma como estamos vivendo. Corremos como se houvesse um incêndio permanente, como se cada mensagem ou e-mail não respondido fosse o fim do mundo, como se cada prazo fosse […]

Bruno D´Abadia
12.02.2026
Gestão de dados fortalece operadoras de saúde

O setor de saúde suplementar vive uma transição decisiva. Transparência, integridade da informação e precisão técnica deixaram de ser apenas exigências regulatórias e passaram a influenciar diretamente a sustentabilidade e a credibilidade das operadoras. Em um ambiente cada vez mais monitorado, dados corretos não são apenas números enviados à Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). […]

Ralph Rangel
12.02.2026
O Homo Instagramabilis: O crepúsculo da inteligência

Houve um tempo em que o ser humano era definido pela sua capacidade de busca: a busca pelo abrigo, pelo fogo, pela forma de armazenar o alimento, pela verdade, pelo conhecimento profundo, enfim, éramos buscadores. Hoje, essa trajetória evolutiva parece ter sofrido um curto-circuito. Estamos testemunhando a ascensão de um novo tipo de pária social: […]

Luciana Brites
11.02.2026
Por que as crianças estão perdendo habilidades motoras na era digital?

O aumento do uso de tablets e celulares reduz o tempo de brincadeiras físicas, prejudicando o desenvolvimento motor e cognitivo. Por este motivo, temos notado que muitas crianças estão perdendo habilidades motoras. As atividades para coordenação motora são essenciais para desenvolver a integração de movimentos e a precisão no controle muscular. A coordenação motora global […]

Mardonio Pereira da Silva
10.02.2026
Quando o ódio invade a sala de aula: violência, feminicídio e a negação do Direito em um Estado Democrático

A morte brutal da Professora de Direito e policial civil, Juliana Santiago, assassinada dentro da sala de aula por um aluno do 5º período, não é apenas um crime hediondo: é um ataque frontal ao Estado Democrático de Direito. A barbárie ocorrida no ambiente universitário rompe todas as fronteiras do aceitável e impõe uma reflexão […]