Logo
Edemundo Dias de Oliveira Filho (Foto: divulgação)

A República às escuras

WhatsAppFacebookLinkedInX
22.09.2026 - 17:55:45

Em uma democracia que se pretende plena, o segredo é a exceção; a publicidade, a regra. Quando o Senado Federal, sob a presidência do senador Davi Alcolumbre, mantém sob restrição — e não é exagero dizer: de até 100 anos — os registros de visitas de lobistas e de figuras ligadas a episódios de amplo interesse público, como o chamado “Careca do INSS”, o que se vê não é proteção legítima da intimidade. É o enterro meticuloso da accountability.

O artigo 31 da Lei de Acesso à Informação, concebido para resguardar dados pessoais verdadeiramente sensíveis, é convertido em escudo institucional contra o olhar cidadão. Trata-se da inversão quase cirúrgica do princípio constitucional da publicidade inscrito no artigo 37 da Constituição de 1988.

O Brasil já pagou, e continua pagando, o preço da opacidade. O sigilo eterno herdado da ditadura militar só começou a ser rachado com a Comissão Nacional da Verdade — da qual fui organizador e presidente em Goiás, em 2014 — e, depois, com a própria LAI de 2011. O prazo máximo de 100 anos nasceu como limite excepcional, jamais como rotina automática. Aplicá-lo para obscurecer quem circula pelos corredores onde se decidem emendas, cargos e regras que afetam aposentados e o erário público é distorcer, com elegância burocrática, tanto a letra quanto o espírito da lei. Como ensinou o constitucionalismo liberal, dos Federalist Papers a Norberto Bobbio: o governo dos homens só se legitima quando se submete ao escrutínio público. Quando prefere a penumbra, a legitimidade começa a cheirar a mofo institucional.

O problema é estrutural. Kant, em À Paz Perpétua, formulou com clareza o princípio da publicidade: toda ação política que não suporte a luz da razão pública é, por definição, ilegítima. Habermas insiste que a deliberação democrática depende de informações acessíveis; sem elas, o debate degenera em teatro de elites. Rawls exige que as razões das decisões públicas sejam justificáveis perante todos os cidadãos.

Quando o Parlamento invoca “dados pessoais” para ocultar encontros que revelam conflitos de interesse, não viola apenas a LAI. Viola a própria ideia de República. Protege-se, com zelo protocolar, o conforto de quem opera longe dos olhos de quem paga a conta.

Não por acaso, a mesma lógica se espelha nas chamadas “emendas sigilosas” — o orçamento secreto — que se espalharam pelo Congresso Nacional e, de lá, por todo o País, do Oiapoque ao Chuí. É assim que o poder, no Brasil, frequentemente escolhe a sombra: recursos públicos distribuídos sem rastreabilidade plena, sem nomes claros, sem controle efetivo, sem responsabilidade verificável. Uma brecha generosa e uma mina fértil para o desvio “legalizado” de recursos que deveriam servir ao povo.

O sigilo centenário sobre visitas ao Congresso não é anomalia isolada: é a continuação, por outros meios, da mesma cultura de penumbra que já corroeu a transparência orçamentária. Em ambos os casos, o que se resguarda não é a privacidade do cidadão comum. É o conforto de quem prefere trabalhar como rato no escuro. A restrição de 100 anos aplicada a registros de entrada em órgão público não protege a cidadania: protege a fosquidão do poder.

No Estado Democrático de Direito, transparência não é favor concedido. É dever constitucional. E o dever, quando descumprido com tanta sofisticação e tanta tranquilidade, cobra o preço mais alto: a erosão lenta, constante e profundamente perigosa da confiança pública nas instituições brasileiras, já absolutamente em frangalhos.

EDEMUNDO DIAS DE OLIVEIRA FILHO Advogado. Delegado de Polícia de Classe Especial Veterano. Especialista e Mestre em Segurança, Políticas e Direito Públicos.

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Edemundo Dias De Oliveira Filho

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Edemundo Dias de Oliveira Filho
17.10.2026
Voto nulo

O voto nulo não é fuga. É declaração. Em um sistema que transforma a urna em ritual obrigatório de adesão, recusar-se a escolher entre as opções apresentadas constitui um exercício lúcido de soberania individual. Não se trata de indiferença, mas de recusa consciente a legitimar o que se considera ilegítimo ou impróprio. A democracia moderna, […]

Marcelo Traldi
16.10.2026
Inovar hoje para nutrir o amanhã

Neste 16 de outubro, data em que se celebra o Dia Mundial da Alimentação (World Food Day), a comunidade internacional é convocada a refletir sobre o tema central de 2026: “Inovar hoje. Nutrir o amanhã”. Esta máxima não é apenas um lema comemorativo, mas um chamado urgente à ação para líderes, indústrias, governos e consumidores. […]

Tânia Queiroz
15.10.2026
Quando a ansiedade decide o que comemos e o que tomamos

No Dia Mundial da Alimentação, celebrado em 16 de outubro, o debate costuma girar em torno do acesso e da qualidade dos alimentos. Há, porém, uma pergunta menos discutida, e que ouço todos os dias no consultório e na sala de aula: por que comemos e o que buscamos além do prato? Para muitos brasileiros, […]

Frederico Moraes Xavier
15.10.2026
Educação exige continuidade, não soluções milagrosas

Neste 15 de outubro, celebramos o Dia dos Professores. Data importante para reconhecer o trabalho de profissionais que exercem uma das funções mais importantes da sociedade, mas também discutir as condições trabalho e os caminhos necessários para melhorar a educação brasileira. Na medicina, assim como em tantas outras profissões, sabemos que a formação de um […]

Domingos Quirino
14.10.2026
A saúde não pode envelhecer

A sociedade civil está envelhecendo em ritmo acelerado. Segundo o Censo Demográfico do IBGE, o país chegou a 22,2 milhões de pessoas com 65 anos ou mais em 2022, crescimento de 57,4% em comparação com 2010. Esse cenário impõe uma reflexão urgente: se o perfil do paciente mudou, a forma de cuidar também precisa mudar. […]

Chrissia Bandim
13.10.2026
Antes da ferramenta, a gestão do escritório

Na advocacia, o assunto mais recorrente entre os integrantes dos escritórios é saber qual ferramenta de inteligência artificial contratar para elaborar as melhores petições e fazer as melhores intervenções processuais. A discussão é salutar. Mas, qualquer que seja a ferramenta, eficiência e resultado só se conquistam com organização. Quem faz o quê, em quanto tempo, […]

Leonardo Chucrute
13.10.2026
O impacto de um líder vai além dos resultados

Todo líder deixa um rastro. A questão central não está apenas nos resultados entregues, mas no impacto gerado nas pessoas que caminham ao seu lado. Em um ambiente empresarial cada vez mais voltado para performance e crescimento acelerado, é comum associar liderança exclusivamente ao cumprimento de metas, indicadores e resultados de curto prazo. No entanto, […]

Maria Clorinda Soares Fioravanti
09.10.2026
Educação superior, ciência e tecnologia no Brasil: de onde viemos, onde estamos e que futuro queremos?

A Medicina Veterinária, a docência e a pesquisa são dimensões indissociáveis da minha trajetória. Ao longo desses anos, acompanhei períodos de expansão, fortalecimento institucional, restrições orçamentárias e ameaças à autonomia universitária. Essa experiência consolidou minha convicção de que a educação pública de qualidade é um dever do Estado e investir em ciência e tecnologia é […]